02 de dezembro, de 2021 | 10:16

Epidemia de Aids completa 40 anos e já infectou mais de um milhão de brasileiros

A descoberta precoce e tratamento eficaz permitem que pacientes tenham qualidade de vida mesmo portando o vírus que causa da deficiência imunológica

Divulgação SES-MG
Contaminados com o HIV passam a viver sob efeito de medicamentos para evitar o avanço da doençaContaminados com o HIV passam a viver sob efeito de medicamentos para evitar o avanço da doença
(Com informações da Agência Minas)
Aids é a sigla, em inglês, para Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (Acquired Immunodeficiency Syndrome). A doença se desenvolve devido à destruição das células de defesa do organismo pelo vírus HIV. A principal forma de transmissão do vírus é a relação sexual desprotegida. Apesar das quatro décadas de campanha, muitas pessoas ainda se infectam com o vírus.

A maioria dos contaminados desenvolve a síndrome e passa a conviver com os medicamentos para evitar que haja danos maiores ao organismo. Dia primeiro de dezembro é o Dia Mundial de Combate à Aids. A data é usada para lembrar o drama vivido por quem se contaminou com o vírus.

Este ano a doença, que já foi responsável por cerca de 39 milhões de mortes em todo o mundo, completou 40 anos de descoberta. No Brasil, desde o início da epidemia, em 1981, até junho de 2019, 966.058 casos foram registrados. A estimativa dos dados atualizados em 2021 aponta para mais de um milhão de casos confirmados. Entretanto, as autoridades de saúde alertam que, para cada confirmado oficialmente podem existir outros cinco ainda não cadastrados.

Somente em 2019, foram 43.941 registros. Em Minas Gerais, o Hospital Eduardo de Menezes (HEM), da Rede Fhemig, é a principal unidade de internação de portadores do vírus HIV. Atualmente, cerca de 2,8 mil pessoas se tratam na unidade.

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Como é o tratamento

Uma das pacientes em tratamento é D.I.A, 68 anos. Ela conta que iniciou o tratamento no HEM em 1995, anos depois de descobrir que havia contraído o HIV do marido. “Resolvi fazer o exame porque meu marido começou a apresentar sintomas da Aids. Na época que descobri, não havia tratamento ainda, os remédios estavam em fase de teste. Ver o resultado positivo era como ganhar um atestado de óbito”, conta ela, que ficou viúva oito meses depois. “A minha maior preocupação foi a minha filha. Pensava o que seria dela sem pai e mãe, e temia não poder vê-la crescer. Me vi na obrigação de lutar para viver. Hoje, sou a pessoa mais feliz do mundo, com meu neto a caminho”, afirma, emocionada.

Para ela, afastada pelos próprios familiares por preconceito, o hospital é como se fosse uma segunda casa. “No Eduardo de Menezes eu tive o carinho, o apoio e o acolhimento que necessitava. Esse é o grande diferencial de lá, quando comparamos com outros lugares. Na unidade tenho amigos, tenho quem me socorra. São muitas lembranças, foram muitos médicos queridos que passaram pela minha vida. O atendimento é excelente. Tem sido uma caminhada muito bonita ao longo de todos esses anos. Me considero uma sobrevivente do HIV”.

Paga-se um preço alto

Reprodução
O laço vermelho simboliza a luta mundial contra a Aids O laço vermelho simboliza a luta mundial contra a Aids
Para L. S. D., 39, descobrir que estava com o vírus HIV também foi um choque. A confirmação ocorreu em 2012, após a manifestação de alguns sintomas seguidos da realização de uma série de exames. “Tive muita perda de peso, fraqueza, tonteira, vômitos. Quando descobri que estava com HIV, o impacto foi muito grande, como receber uma sentença de morte. A sensação só foi sumindo com o passar do tempo, após iniciar o tratamento e ver que seria possível sobreviver, mesmo tendo o vírus”, conta.

Ele acredita que o contágio ocorreu por meio de relação sexual, o que resultou no receio de se relacionar com outras pessoas. “Fiquei mais de um ano sem ter relação sexual com ninguém, pois tinha medo. Hoje em dia, no entanto, informo antes que tenho o vírus antes do ato. Acho importante que a outra pessoa saiba, mesmo tomando todos os cuidados”, afirma.

J.G.S., 54, também se infectou por meio sexual sem proteção. Há um ano se tratando, ela faz um alerta para outras mulheres. “Precisamos saber impor as nossas vontades. Mesmo se houver insistência para ter relação sexual sem camisinha, devemos manter a nossa posição e não aceitar. Eles que fiquem na vontade”, aconselha.

Ambos também seguem recebendo tratamento e acompanhamento no Hospital Eduardo de Menezes (HEM) e mantêm suas rotinas diárias de atividades. Tomar os devidos cuidados para evitar transmitir o vírus é uma cautela constante. Ainda segundo eles, quase ninguém saiba que são portadores, "afinal o preconceito ainda pode ser muito grande".

HIV hoje

De acordo com o infectologista do HEM, João Gentilini Fasciani de Castro, a maioria dos pacientes graves se encontra nesse estado por desconhecimento do seu diagnóstico ou por abandonarem o tratamento.

Por isso, ele ressalta a importância de realizar o exame anti-HIV com frequência. “Recebemos pacientes em vários estágios da doença. Grande parte sem sintomas. Descobriram possuir o vírus por terem realizado o exame. Ciente da contaminação e com o tratamento adequado, hoje o paciente pode ter uma vida longa e saudável, inclusive ter filhos, e ainda consegue manter sua carga viral indetectável. Ou seja, caso haja uma ruptura no preservativo, ele não transmitirá o vírus”, explica.

Ainda segundo o médico, atualmente, o maior número de transmissão de HIV é o sexual, sendo possível também se infectar por meio de ferida no corpo em contato com sangue contaminado ou com o compartilhamento de agulhas. Ou seja, a melhor forma de se prevenir é usando preservativo durante a relação sexual.

“A Aids, hoje, é uma doença crônica plenamente tratável, que está há décadas no nosso meio. Mas a divulgação em torno da doença e das formas de prevenção caiu muito. O ideal seria uma conscientização permanente nos grupos populacionais mais afetados pelo vírus. No caso do Brasil, a contaminação é maior em homens adultos que têm relação sexual com outros homens, e em mulheres transexuais. Já em algumas regiões da África, por exemplo, o grupo mais afetado é o de mulheres jovens”, analisa o infectologista do HEM.

Soropositivo

Ser portador do vírus HIV, no entanto, não significa ter Aids. A pessoa portadora do vírus é chamada de soropositiva. “Só é denominada Aids quando a pessoa começa a apresentar sintomas de imunodeficiência avançada ou quando suas células de defesa chamadas TcD4 estão abaixo de 200 cell/MM3. No caso, a pessoa com o vírus que não recebe o tratamento adequado evoluirá para Aids. Em média, isso ocorre entre cinco e oito anos no paciente que não se trata, mas varia de pessoa para pessoa”, explica o infectologista.

Ainda segundo ele, os sintomas da doença também são muito variados, sendo os mais comuns perda de peso, diarreia crônica, candidíase oral (conhecida popularmente por sapinho) e infecções em diversos órgãos como neurotoxoplasmose, neurocriptococose e pneumonias graves, como a pneumocistose.

A cura nunca foi alcançada

A cura da Aids é objeto de estudo em todo o mundo. De acordo com o infectologista do HEM, o tratamento atual é altamente eficaz, com pouquíssimos efeitos colaterais. “O esquema antiviral padrão do Ministério da Saúde é composto de dois comprimidos tomados de uma só vez, uma vez ao dia. A maioria dos pacientes que faz uso do medicamento não sente nenhum efeito e, quando sente, é leve e apenas no início. Monitoramos os possíveis efeitos adversos a longo prazo, no ambulatório, em que temos uma equipe multidisciplinar extraordinária e diversas especialidades médicas”, explica João de Castro.

Ele afirma também que existe um tratamento preventivo para pessoas que não têm HIV (PreP), mas se expõem ao vírus. "Esse tratamento reduz a chance da pessoa se contaminar, mas não diminui o risco para outras infecções sexualmente transmissíveis”, alerta.

Atendimento

De acordo com a gerente assistencial do HEM, Tatiani Fereguetti, o Serviço de Atenção Especializada (SAE) da unidade é referência para atendimentos em infectologia e dermatologia sanitária e conta com atendimento multidisciplinar, com foco na assistência especializada, na prevenção de outras infecções sexualmente transmissíveis, além da adesão ao tratamento do HIV.

“Desde a década de 1990, tratamos pessoas vivendo com HIV e condições relacionadas à Aids. Somos um importante prestador de serviços ambulatoriais para o município de Belo Horizonte, responsáveis por uma parcela considerável de primeiras consultas de infectologia”, explica a gerente assistencial.

As pessoas com demandas relacionadas à infectologia devem agendar a primeira consulta pela Central de Marcação de Consultas (CMC) de Belo Horizonte. É necessário o encaminhamento dos pacientes por meio dos postos de saúde.

Após estarem vinculados ao HEM, todos os retornos são agendados na própria unidade. Além disso, depois das consultas, os pacientes podem se direcionar à farmácia ambulatorial dentro do hospital para buscar os medicamentos antivirais disponibilizados pelo Sistema Único de Saúde (SUS), necessários para o tratamento.
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