15 de abril, de 2020 | 08:00
Prefeito de Coronel Fabriciano opina: ''temos que deixar essa doença para os médicos cuidarem, não os políticos''
Marcos Vinícius disse também que o presidente Bolsonaro se expõe em público porque já teve a Covid-19: ''Ele já tem passaporte imunológico''
Wôlmer Ezequiel
Marcos Vinícius acredita que o fato de ser médico tem ajudado em suas decisões como prefeito
Marcos Vinícius acredita que o fato de ser médico tem ajudado em suas decisões como prefeitoO prefeito de Coronel Fabriciano, o médico Marcos Vinícius Bizarro (PSDB), conversou com o Diário do Aço na tarde desta terça-feira (14) sobre diversos temas. Dentre os principais pontos, o chefe do Executivo fabricianense disse que a situação tem que ser acompanhada e as decisões tomadas dia a dia. Defendeu a manutenção do calendário eleitoral para o mês de outubro e foi enfático ao pedir que os políticos deixem o novo coronavírus (Covid-19) aos cuidados dos médicos. Afirmou, também, que a maior parte da população será, mais dia menos dia, infectada, talvez nem saiba (da infecção) e que a atenção especial tem que ser para os idosos e os grupos de risco. Disse, ainda, que as aulas no município serão retomadas no dia 4 de maio.
DA Prefeito, o fato de ser médico tem o favorecido na tomada de decisões diante da pandemia?
Marcos Vinícius - Acredito que pelo fato de estar na medicina, ter participado de duas outras pandemias - em 2003 da gripe aviária e em 2009 da gripe suína -, começamos a nos preparar bem antes. Em fevereiro eu já tinha treinado toda minha equipe de saúde, tanto da área hospitalar quanto da atenção básica, para a chegada da doença. Eu tinha certeza de que chegaria, pois temos no Vale do Aço pessoas que viajam muito. O primeiro caso foi em março, um caso importado. A pessoa veio da Irlanda, não contaminou nenhum dos familiares e no dia 15 de março colocamos em prática tudo que a gente treinou.
No dia 15 de março eu tive o diagnóstico do primeiro caso, um dia depois tínhamos um serviço de teleorientação. Contrariando a todos, eu não levei meus pacientes suspeitos para diversas unidades de saúde, pelo simples fato de que se a doença é extremamente virulenta, um paciente pode contaminar de três a cinco pessoas. Como levo dezenas, teoricamente suspeitas, para várias unidades de saúde da cidade? Iria contaminar todo mundo. No mesmo dia já tínhamos o centro de referência, com toda a equipe treinada para atender.
Talvez tenha tido vantagem pelo fato de ser médico e o que apavora a muitos, para mim é o meu dia a dia, é tomar decisão muito rápido, não posso pensar. Preciso decidir. Nisso posso ter tido vantagem em relação aos outros prefeitos. Mas divergência de atenção não acredito. Eles fecharam o comércio para entender e se inteirar da situação, ver como estava funcionando a doença e acomodar seu sistema. Por aqui flexibilizamos antes. Mas foi o que eu disse na reunião com o Ministério Público (dia 7 de abril), tudo o que estão dizendo para ser feito eu já estou fazendo. Não tinha, àquela altura, que fechar nada em Fabriciano, estou com 14 leitos vazios e até hoje não deitou ninguém neles.
DA É possível estimar se haverá um quadro de crescimento da doença nos próximos dias?
Marcos Vinícius - Temos que entender que ela deve se comportar como tem sido nos outros países: 80% a 85% dos pacientes são assintomáticos, desses 15% que sobram, 10% podem evoluir para a forma mais grave. Se pegarmos 100 pessoas, 85 não sentem nada, 15 delas podem ter algum sintoma e desses 15, 10% vão complicar. Então, na teoria, seria 1,5, e é o que está acontecendo em tudo que é lugar. O paciente mais idoso tem mais complicação. Então, o isolamento só tem um objetivo: preparar o sistema de saúde para que se a pessoa adoecer e evoluir para o quadro grave, será bem atendida, terá dignidade no atendimento. Se vai morrer ou não, não é médico e nem ninguém que vai dizer isso. Temos de dar todas as condições para ele ter o melhor atendimento.
A Covid-19 não tem tratamento, é só atendimento. Entubar a pessoa é para que o respirador faça o serviço que seria o do pulmão, para dar tempo de a doença não espalhar. O paciente idoso às vezes vai para o tubo e não consegue sair, porque tem outras doenças.
DA Qual a razão de o senhor ter fechado o comércio e depois ser o primeiro a optar pela flexibilização?
Marcos Vinícius Eu vinha fazendo a política toda certinha. No dia 17 de março, o presidente Jair Bolsonaro decretou calamidade nacional, para resolver o problema de responsabilidade fiscal dele. Em seguida, o governador Romeu Zema lançou o seu decreto, muito rígido, e seguimos o que disse, mas questionamos o comitê gestor sobre essa deliberação de número 17: pera aí, eu sou prefeito, tenho teleorientação, centro de referência, leitos de retaguarda, por que tenho de seguir essa medida rígida?” e recebo a resposta de que não era bem assim, não.
Então, vamos fazer nossas políticas até entender como se comporta o vírus aqui. E ainda não entendo, porque não estamos tendo em Fabriciano a transmissão local. Um foi da Irlanda, outro teve contato com um tio da Itália e o outro, que está curado, veio do Rio de Janeiro; nasceu aqui, mas não vive aqui, só veio passear. No Vale do Aço não está bem explicado como vai se comportar ainda. Deve chegar a números elevados, não há como prever, não nessa virulência toda. O caso da Irlanda não contaminou os pais, o da Itália não contaminou os familiares e tampouco o rapaz do Rio. Em 2009 não tivemos os óbitos de H1N1 que teve no Paraná e nem se noticiou no Vale do Aço, à época.
DA O que senhor pensa sobre o uso da cloroquina?
Marcos Vinícius - Eu a uso como médico geriatra para algumas patologias. Digo que é um medicamento extremamente hepatóxico (tóxico para o fígado) e, se não cuidarmos, podemos trazer mais danos à saúde do que ajudar. Acredito que não pode ser vendida indiscriminadamente, não é para curar a doença, mas sim quando a forma grave chegar ao pulmão, ela funcionar como imunomodulador. O que é isso? As células começam a se autodestruir e a cloroquina tem uma função, na parte pulmonar, de dar uma balançada nessas células, para que não destruam a trama pulmonar. Para esses casos graves, no respirador, poderia tentar seu uso, desde que não tivesse outra complicação e desde que a função hepática do paciente esteja boa. Tenho experiência com cloroquina há mais de 15 anos. Seu efeito serviria para ajudar a proteger o pulmão, em qualquer outra patologia, não especificamente falando do coronavirus.
DA Qual a sua opinião sobre a relação entre o ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta e Jair Bolsonaro?
Marcos Vinícius - É um jogo político, temos de entender que o ministro vem conduzindo bem a situação, apesar de eu discordar de alguns pontos, como não fazer barreiras sanitárias em portos e aeroportos, lá atrás, em fevereiro. Até poucos dias as pessoas estavam entrando livremente. Isso foi uma falha grave. Assim como agora, no momento em que o Ministério da Saúde quadriplica o valor do leito de UTI na diária, passando de R$ 400 para R$ 1.600.
Temos de lembrar que mais de 95% dos hospitais no Brasil não são 100% públicos, são instituições privadas que prestam serviço para o Sistema Único de Saúde (SUS) e existe uma tendência que todo mundo seja internado com a Covid-19.
Bolsonaro está fazendo essa cena porque já teve a doença, posso afirmar, já tem passaporte imunológico. Apesar de ele negar, já teve. Todo mundo daquele voo para os Estados Unidos teve a doença. Um segurança dele estava muito grave na UTI e de uma pra outra desapareceu, não deram mais notícia dele.
Quando Bolsonaro voltou dos Estados Unidos deu uma sumida de uns dez dias e depois retornou como se fosse fênix. Está no meio da multidão porque está com passaporte imunológico. Como todo mundo vai ter, isso se já não tivemos. Mas a questão do ministro e Bolsonaro é política. Mandetta é aliado do governador Caiado (Ronaldo Caiado, de Goiás) e houve uma quebra de pratos aí nessa relação, porque Bolsonaro disse coisas sobre a doença, minimizando, mas decretou calamidade. O Mandetta só não foi demitido porque estamos no olho do furacão, mas certamente o será.
DA Os hospitais de campanha são uma boa opção?
Marcos Vinícius - Não sou a favor, porque temos nosso sistema de saúde. Ah, mas em São Paulo estão fazendo o terceiro”, de bobos, porque não ocuparam nem 20% do primeiro ainda e o hospital de lá está recebendo gente de todo o interior, nem assim está a pleno vapor. Para que construir outro? Tem muita gente ganhando dinheiro com isso. Enquanto alguns choram, outros estão vendendo lenço.
DA O senhor disse recentemente que as aulas na rede municipal serão retomadas. Quando?
Marcos Vinícius As escolas voltam a operar no dia 4 de maio, uma segunda-feira. Num primeiro momento não devo liberar creches, somente de 1º ao 9º ano. Tudo depende dos meus leitos, eles sendo liberados, voltamos com tudo ao normal em Fabriciano. Sem rodízio de comércio, sem nada. Isso baseando no quadro que temos hoje.
DA Sobre a prorrogação da eleição para 2022, o senhor concorda?
Marcos Vinícius - Os prefeitos querem que prorrogue. Eu não. Sou vice-presidente da Associação Mineira de Municípios (AMM). Acredito que a doença tem que entregar para os médicos. Temos visto muito interesse, há pessoas em segundo mandato e que teriam que deixar o governo. Tanto é que as renúncias que vimos de prefeitos são de pessoas em segundo mandato. A vida dos gestores não foi fácil, o Pimentel acabou com os prefeitos. O Zema entrou em 2019 e praticou as mesmas políticas contra os cofres municipais até o mês de abril, até fazermos aquele acordo. E conseguimos respirar em outubro. Mas em janeiro de 2020 veio uma enchente e não tem sido fácil. A turma quer mais dois anos, eu defendo que seja em outubro (as eleições).
DA Há poucos dias o prefeito de Belo Horizonte, Alexandre Kalil, não permitiu que pessoas oriundas de cidades que flexibilizaram o comércio entrassem na capital. Como viu essa situação?
Marcos Vinícius - Fiquei chateado com ele, porque no momento em que toma aquela atitude, acaba prejudicando pacientes que fazem acompanhamento oncológico, de tumor de órbita, catarata congênita e que não podem perder esse atendimento. Esses caras que fazem tratamento fora de domicílio, não é que o município não tenha condição, mas é que são poucos pacientes daquela doença para você bancar o serviço. É mais barato ir lá e comprar do outro município.
O Kalil não faz nada de graça, nós pactuamos, dinheiro nosso vai pra lá, dinheiro dos nossos parlamentares, porque é atendimento de alta complexidade. No Vale do Aço somos privilegiados porque temos serviços bons de nefrologia, cardiologia, mas alguns ainda não temos e quando ele bloqueia um ônibus, ele não sabe quem está lá dentro. Nesse sentido tomamos uma atitude (ir ao Judiciário contestar) e acredito que nesta quarta-feira (15) deve sair a decisão e a Justiça deve decidir a favor dos municípios. Não estou pedindo para o Kalil abrir para que as pessoas vão até os shoppings e sim que ele reflita que são casos de saúde. Quando cheguei à Prefeitura de Fabriciano havia em média 100 a 150 pessoas por dia indo para BH. Eu melhorei o sistema de saúde e hoje temos uma média de 18 por dia. Mas algumas especialidades não valem a pena manter o serviço.
DA Atualmente, para quem é recomendado o uso da máscara?
Marcos Vinícius Dissemos que 85% das pessoas podem ser positivas e assintomáticas, isso quer dizer que está com vírus e, com uma tosse, pode contaminar alguém. A máscara é efetiva para a pessoa que está com a doença não transmitir para uma pessoa sadia. Seu uso reduz em quase 60% a possibilidade de contaminar o outro. Acredito que seja uma política interessante sim. No caso das mãos é lavar mesmo. Temos de lembrar que o vírus entra não só pelas vias aéreas e sim pela conjuntiva (olhos) também.
DA Qual a mensagem que deixaria para a população?
Marcos Vinícius Temos de deixar essa doença para os médicos cuidarem, confiar em Deus, nas autoridades e em nosso sistema de saúde que a vida toda cuidou da gente. Não é agora que os políticos vão cuidar da gente. Se formos acompanhá-los, vamos morrer afogados. Quando tem político envolvido tem muito interesse ali, menos a vida do cidadão.
Assisti a uma entrevista do ministro da Saúde e ele disse que cada município tem uma realidade, em cada um a doença vai se comportar de um jeito e daí serão tiradas suas práticas. No futuro, poderemos montar um quebra-cabeças de quais tiveram efeito, porque a doença veio para ficar, só vamos diminuir os casos quando 60% da população tiver contato e isso é inevitável. Precisamos ter confiança, mas quem é do grupo de risco tem que ficar em casa. Temos trabalhado a conscientização e acredito que nos próximos 10, 15 dias, estaremos com todos os nossos leitos do hospital aqui de Fabriciano funcionando e aí depende do boletim epidemiológico diário, mas a minha intenção é voltar com tudo ao normal.
Já publicado
Números oficiais do novo coronavírus (Covid-19) na região
Região Metropolitana do Vale do Aço tem 11 pacientes curados de coronavírus
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Bruno
15 de abril, 2020 | 22:45Não entendi a conta do Sr. prefeito e tbm médico. se 85 % nao sentirao nadaa, disso 15 % terao sintomas graves e quem vai morrer e qto sao % ... ?”
Aender
15 de abril, 2020 | 21:27O contato com o covid-19 não será inevitável como o vírus da gripe. A quarentena é nada mais para diminuir a aceleração de contágio e não lotar os hospitais que não vai aquentar a velocidade que o covid-19 espalha. Mas, o melhor é não parar e sim tomar medidas preventivas como mascaras e uso de álcool ou água sanitária diluída em água, em ambiente de muito aglomeração como supermercado, igreja, banco, restaurante, lojas e deve ser exigido pelo órgão publico perante os comerciantes e nos ambientes de trabalho.
E que vemos é aglomeração e lugares que não oferece em seus estabelecimento um água sanitária diluída em água, pessoas espirrando e tossindo sem proteção em supermercado, bancos e lojas.
A maneira mais eficaz é a higiene que é o básico e nos proteger em casa.
E a metade da sociedade brasileira não tem água tratada, esgoto a céu aberto e não tem saúde publica. Quantos leitos tem na cidade? Será que suporta cem pessoas precisando de respiradores?”
Márcio
15 de abril, 2020 | 19:38Vejam bem! Esse discurso é de Médico/Político. Nem a vacina contra gripe tem seguido com o rigor que precisa; a partir de11:30 horas não se faz vacinas nas Unidades Básicas de Saúde, nos informaram isso hoje no JK. Tentamos por diversas vezes vacinar em vários postos ou aguardar em casa, Eu e minha esposa que é da área de Saúde e não conseguimos ser vacinados. Valha me Deus! Prefeito, As informações estão chegando sob meias verdades para o Senhor!! Grupo de risco?? É só passar pela Avenida: Magalhães Pinto que vai ver na Secretaria de Saúde a aglomeração de pessoas em fila indiana para se cadastrar ou pegar medicamentos; vias de regra, são pacientes com doenças crônicas que buscam medicamentos e são supostamente do grupo de risco para o Covid19. Embora seja médico, entendi que o prefeito apresenta o lado político mandando a população ir para as ruas e liberando o comércio em geral. Isso é um incentivo mortal contra algo que nem a ciência sabe como se defender, a não ser sugerir que o povo fique em casa. Sugeri em outros cometários e repito: Prefeito deixe de pensar politicamente, pense como médico e ser humano. Você sabe melhor que a população que Coronel Fabriciano não tem suporte suficiente para o número de casos que podem ocorrer. Não queira virar herói!! Isso não vai dar certo!! Não faça seu coveiro virar um operador de retroescadeira. Vou acrescentar dessa vez o seguinte: mesmo que sejamos forasteiro; em Coronel Fabriciano as pessoas se interagem, são conhecidas, basta falececer meia dúzia de pessoas que o Senhor vai correr o risco de voltar escoltado para o Sul. Fale para a população ficar Senhor Prefeito!!”
Paulo
15 de abril, 2020 | 16:25Essa aposta do médico prefeito é bem arriscada. Deixar a doença contaminar a população para que esta fique imune. Falar e fácil. Quero ver é dar suporte médico para as muitas pessoas que ficarão na UTI. Não se pode arriscar a vida das pessoas por causa de alguém que tem histórico de atleta. Se o contágio provoca a imunidade, são nas pessoas que não padecem por complicações. Nem todos temos uma condição de saúde que nos deixe fora da UTI em caso de contaminação. O que pode acontecer se essa visão do médico prefeito, é o colapso no sistema médico do município e muitas, muitas mortes.”
Frederico
15 de abril, 2020 | 12:39Eu estou de acordo com o prefeito de Coronel Fabriciano mas quase tudo,com excessão das escolas,acho que deveriam serem adiadas para o segundo semestre”
Arthur
15 de abril, 2020 | 11:00Boa!”
Getúlio Jorge dos Santos
15 de abril, 2020 | 10:48excelente entrevista,é muito bom morar em uma cidade que o prefeito nos enche de orgulho,por sua clareza de argumentos e decisões acertadas!”
Palhaço
15 de abril, 2020 | 09:59Esse cara e muito doido kkkkk”
Marcos Souza
15 de abril, 2020 | 09:12Muita boa e técnica a colocação do prefeito, só discordo da volta as aulas no dia 04 de maio, será que terá álcool em gel para todos os alunos e profissionais da educação, vai ter algum tipo de monitoramento de temperatura no inicio das aulas? O número de pessoas(vidas) envolvidas é muito grande e são nossos bens mais preciosos.”
José da Silva Miranda
15 de abril, 2020 | 09:09O prefeito não disse coisa com coisa,a saúde de Fabriciano é a pior da região,ele simplesmente arriscou mandar o povo para as ruas,tomara que dê certo. Aproveitando se da doença para fazer campanha eleitoral,igual ao Bolsonaro,pouco importando se vai morrer alguém!”