Professores anseiam por respeito e valorização

As profissionais relataram os desafios do ensino em tempos de mídias sociais e anseiam por respeito

Wôlmer Ezequiel


Marli Pires Silva e Márcia de Sousa Granato são psicopedagogas e lecionam na escola Vilma de Faria Silva

Neste 5 de outubro, quando se celebra o Dia Mundial do Professor, profissionais de todo o país clamam por valorização. Em Ipatinga, o Diário do Aço conversou com as psicopedagogas Marli Aparecida Pires Silva e Márcia Aparecida de Sousa Granato, que lecionam na Escola Municipal Vilma de Faria Silva, do bairro Vila Militar, que relataram os desafios do ensino em tempos de mídias sociais e anseiam por respeito.

Márcia Granato relata que os alunos estão inseridos numa grande cultura digital, atraídos pelas mídias sociais e também pelo celular. “O ensino tradicional perdeu um pouco o espaço, na visão desses meninos. Qualquer coisa na internet se torna mais prazerosa e interessante do que ficar numa sala de aula por quatro horas, dentro do tradicionalismo. Então, o que eu vejo como principal desafio para nós é usar essa tecnologia a favor da escola e do aluno. Se você não tiver jogo de cintura, didática e flexibilização, suas aulas acabam ficando obsoletas e eles passarão a querer tudo, menos assistir às aulas”, avalia.

Marli Sousa acrescenta que também percebe o gosto que os jovens estudantes têm pela tecnologia. “Eles sempre me perguntam: ‘tia, hoje tem computador, hoje vamos jogar?’ Amam mexer e demonstram muito interesse”, aponta.

Desinteresse
Com o acesso ao computador e à tecnologia cada vez mais facilitado, as crianças e adolescentes se encantam pela facilidade de navegar pela rede, antes mesmo dos 10 anos. Evolução por um lado, mas prejuízo por outro. “Eu diria que eles perderam o interesse pelo livro físico, não têm gosto por folhear páginas. O foco deles é a tecnologia. Hoje temos o Chromebook em sala e é fantástico por ter uma nova possibilidade. Mas é possível perceber a falta de entusiasmo com o tradicional. E às vezes, a aprendizagem está ligada com o foco de interesse e o entusiasmo”, destaca Márcia.
Wôlmer Ezequiel


Em tempos de mídias sociais e internet, prender a atenção dos alunos em sala de aula tem sido um desafio

Outro lado
Apesar dos perrengues, a profissão propicia bons momentos aos professores, que participam da formação de profissionais e seres humanos. Márcia conta que a escola completa em 25 anos de história, em 2019, e já começa a receber casos de ex-alunos, que agora levam seus filhos para estudar. “Hoje nós temos Instagram, Facebook e por ali chegam relatos de pessoas que tem filhos aqui, e de outros que estão fora, mas que não se esquecem da escola. O saudosismo existe. É o lado positivo que serve como incentivo para nós e nos mostra que deixamos bons frutos. Esses dias mesmo esteve aqui um que estuda na Universidade Federal de Minas Gerais, está no 5º período de Engenharia Civil. São recompensas que nos movem e dão ânimo”, disse.

Motivação
Para Marli, para ser professor é preciso ter o dom e gostar do que faz. “Porque não é qualquer um que fica na sala de aula. Desde criança, eu sempre via esse lado bom, sempre gostei de ser professora e acho que tenho esse diferencial, porque estou quase aposentando e não saí. A alfabetização é o encantamento. É difícil? Sim. Às vezes você perde a paciência? Perde. Mas tem o retorno de chegar ao fim do ano e ver os meninos lendo e escrevendo, vermos esse avanço é muito bom”, afirma.

Valorização e salários dignos

Questionadas se trabalhar como professor em 2019 é mais fácil que há alguns anos, elas ponderaram que existem dificuldades, mas também pontos positivos. Apesar de avanços tecnológicos, as crianças estão mais difíceis, na opinião das docentes, sem limites e falta o apoio da família, em alguns casos.

“Hoje as famílias estão diferentes de 20 anos atrás, porque os pais estão saindo para trabalhar mesmo. Temos inúmeros casos de crianças que ficam sozinhas e com um celular com acesso à internet, como consolo para a criança. E às vezes essa criança prefere ficar navegando, aí o estudo fica de lado. Quando eu estudava tinha que ter meus cadernos organizados, ter compromisso e se eu perdesse uma nota, era motivo de apanhar. Agora não tem isso. É preciso ter exemplo em casa, quem cobre do menino. Caso contrário, chega na escola e nós é que somos responsabilizados pela falta de tempo dos pais. É onde surgem as dificuldades, a indisciplina, falta de respeito e isso não pode ser ensinado para a criança durante as quatro horas de aula”, alerta Márcia.

A questão salarial incomoda e preocupa as professoras, que relatam um cenário comum à categoria: trabalhar em três horários (manhã, tarde e noite), para receber um valor melhor no fim do mês. “E isso não nos dá qualidade de vida. Além do respeito, estamos vendo na mídia professores doentes, porque chegam na classe e não conseguem o domínio da turma, porque o menino não respeita. A base de tudo hoje, se eu pudesse mudar os alunos, seria conscientizá-los da importância de eles sentarem ali, prazerosa ou não a aula, e respeitarem aquele momento, aquele espaço, porque além dele atrapalhar, eles deixam o professor doente, não aprendem e tiram o direito de aprendizagem do colega. É triste ter que trabalhar tanto para receber um salário melhor e sem condições dignas. Esperamos que esse quadro mude e que sejamos tratados com respeito”, ponderam as duas professoras.


(Bruna Lage - Repórter)

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