Jornada de trabalho, dívidas e hiperconectividade desafiam a saúde mental

A dificuldade de se desconectar do trabalho e os impactos da insegurança financeira na saúde mental

29/09/2026 às 08:22

Matheus Valadares
Para o MPT-MG, respeitar a jornada não representa apenas o cumprimento de uma obrigação legal
Por Matheus Valadares

O expediente termina, mas o trabalho nem sempre. Uma mensagem no celular, uma ligação, uma demanda que chega fora do horário ou a preocupação com aquilo que precisa ser entregue no dia seguinte podem prolongar a jornada para além do relógio. Ao mesmo tempo, contas, dívidas e insegurança sobre o futuro financeiro mantêm outra forma de preocupação constantemente presente.

A relação entre trabalho, dinheiro e saúde mental não pode ser compreendida apenas como uma questão individual. As condições em que as pessoas trabalham e vivem também interferem na possibilidade de descansar, conviver, cuidar de si e estabelecer relações.

Dados enviados pelo Ministério Público do Trabalho em Minas Gerais (MPT-MG) a pedido do Diário do Aço mostram que as denúncias relacionadas à duração do trabalho chegaram a 2.058 em 2024 e a 2.352 em 2025. Em 2026, até o momento do levantamento, foram 2.302 denúncias.

As queixas abrangem questões como anotação e controle da jornada, duração do trabalho, períodos de descanso, regimes de sobreaviso e prontidão e outras irregularidades relacionadas à jornada.

Quando a jornada invade o descanso

Para o MPT-MG, respeitar a jornada não representa apenas o cumprimento de uma obrigação legal. O descanso é apontado como elemento importante para a saúde física e mental, para a convivência familiar e para o equilíbrio entre vida profissional e pessoal. Nesse contexto, o órgão alerta também para os riscos da hiperconectividade.

O chamado direito à desconexão garante que o trabalhador não precise permanecer disponível o tempo todo para atender às solicitações do empregador após o fim do expediente. “Em outras palavras, assegura o direito do trabalhador se desligar das atividades profissionais durante os períodos de descanso, férias e folgas”, esclarece o MPT, em nota.

Previsto na legislação trabalhista por meio de mecanismos como os intervalos e o descanso entre jornadas, esse direito busca garantir que o empregado tenha tempo para a vida pessoal, familiar e social, sem interferências constantes do trabalho.

Para o MPT, “é fundamental que as empresas adotem medidas efetivas para impedir que trabalhadores sejam acionados após o encerramento da jornada, contribuindo para a prevenção do estresse, do adoecimento e do esgotamento profissional, além de promover ambientes de trabalho mais saudáveis e equilibrados".

Assédio moral

O problema também aparece nos dados sobre assédio moral. Levantamento da plataforma Escavador identificou 21.811 processos classificados como “Assédio Moral” em 2023, 21.673 em 2024 e 23.927 em 2025. Em 2026, havia 18.774 processos no total disponível no levantamento.

A advogada Dalila Pinheiro, coordenadora jurídica e Encarregada de Proteção de Dados (DPO) da plataforma, ressalta que esses números não podem ser interpretados como uma medida de casos de sofrimento psíquico.

“O que os números permitem observar é que conflitos relacionados à conduta no ambiente profissional estão chegando com frequência ao Judiciário”, afirma

“O assédio moral não se confunde com uma cobrança pontual ou com a própria existência de metas: a análise jurídica considera o contexto, a forma como a cobrança é realizada, sua recorrência e os efeitos produzidos sobre o trabalhador”, explica.

Quando o dinheiro também pesa

Se o trabalho pode continuar depois do expediente, a preocupação financeira também não respeita horário. Contas, dívidas e incertezas sobre a renda podem interferir no sono, nos relacionamentos e nas decisões sobre o próprio futuro.

O geógrafo William Passos, coordenador do Observatório das Metropolizações Vale do Aço, aponta que a insegurança financeira pode atuar como gatilho para quadros de ansiedade e depressão, além de atingir outras dimensões da vida.

Matheus Valadares
Para William Passos, a instabilidade financeira pode influenciar decisões relacionadas ao trabalho, ao lazer e aos relacionamentos

“No contexto clínico da saúde individual da população, especialmente da saúde masculina, a insegurança financeira atua como gatilho de potencial disparo de transtornos ansiosos-depressivos, prejudicando ainda a qualidade do sono, da socialização e das relações familiares, inclusive afetivas”.

Ele ainda aponta que “o endividamento afeta a qualidade de vida da população no sentido da piora da qualidade do sono, do aumento de quadros clínicos associados a transtornos ansiosos-depressivos e no potencial aumento de conflitos interpessoais, para além da dimensão econômica, tendo em vista que o endividamento inibe a aquisição de novos bens de consumo de primeira necessidade, o que, por sua vez, repercute, por exemplo, na qualidade da alimentação e da higiene pessoal e doméstica”, continua.

Uma pesquisa promovida pela Serasa em parceria com o Instituto Opinion Box, citada pela empresa em setembro de 2025, mostra a dimensão percebida desse problema. Segundo o levantamento, 84% dos brasileiros entrevistados afirmaram já ter tido a saúde mental atingida por problemas financeiros. Entre os impactos relatados estavam humor e estabilidade emocional (48%), autoestima (44%), energia e disposição (32%) e concentração no trabalho e nos estudos (30%).

Insônia

O sono também aparece no prejuízo: 70% disseram já ter perdido o sono, preocupados com dívidas. Além disso, 65% afirmaram se esforçar para esconder dificuldades financeiras de outras pessoas.

A dificuldade financeira pode ainda dificultar o próprio acesso ao cuidado. Segundo a mesma pesquisa, 49% dos entrevistados disseram já ter deixado de buscar ajuda psicológica por não conseguirem pagar consultas ou terapias.

Patrícia Camillo, especialista da Serasa em educação financeira, destaca essa relação. “Quando quase metade dos brasileiros deixa de buscar ajuda psicológica por não conseguir pagar, fica evidente que a dificuldade financeira é hoje um dos maiores entraves para o bem-estar mental da população”, pontua.

Os efeitos também aparecem nos relacionamentos. O levantamento aponta que 45% sentem culpa ao pedir dinheiro emprestado, 41% evitam conversar sobre o assunto e 29% acabam se isolando de amigos e familiares.

Um problema que ultrapassa o indivíduo

Para William Passos, a instabilidade financeira pode influenciar decisões relacionadas ao trabalho, ao lazer e aos relacionamentos. “Pessoas sob a pressão da insegurança financeira tendem a ser menos produtivas no trabalho, optam mais pelo isolamento, se expõem menos a atividades de lazer e decidem se envolver menos em relacionamentos afetivos”, finaliza o pesquisador.

No Vale do Aço, entretanto, faltam indicadores econômicos específicos que permitam dimensionar localmente a relação entre insegurança financeira e saúde mental, segundo o geógrafo.

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