São muitas as preocupações nos cuidados com uma criança: oferecer educação de qualidade, alimentação saudável e segurança. No entanto, outro cuidado importante diz respeito ao uso de cosméticos e produtos de higiene pessoal. Nas prateleiras de supermercados e farmácias, a variedade de marcas e opções de xampus, condicionadores, sabonetes e hidratantes cresce a cada dia. Diante de tantas opções, além de observar a embalagem, o aroma e o preço, é fundamental verificar a composição dos produtos e os riscos das substâncias presentes em sua fórmula.
Recentemente, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou a Resolução nº 1.030/2026, que proíbe o uso de algumas substâncias químicas em produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes por apresentarem riscos à saúde humana. A medida tem atenção especial para crianças e adolescentes, considerados mais vulneráveis aos efeitos desses compostos.
Em entrevista ao Diário do Aço, a pediatra Naiara Ferreira explica que a preocupação está relacionada aos chamados desreguladores endócrinos, substâncias capazes de interferir no funcionamento dos hormônios e provocar alterações importantes no organismo.
"Esses desreguladores podem interferir na função hormonal, reduzindo ou aumentando sua atividade, o que pode comprometer especialmente a função sexual e reprodutiva, além de favorecer o desenvolvimento da obesidade e de outras alterações", explica.
A médica esclarece que a decisão da Anvisa não representa apenas uma medida preventiva, mas reflete o avanço do conhecimento científico sobre os riscos dessas substâncias. "A proibição de algumas substâncias químicas sintéticas em produtos de higiene pessoal, cosméticos e perfumes demonstra que, à luz do conhecimento científico atual, elas já não são consideradas seguras para o consumo humano", afirma.
Crianças são mais vulneráveis
Naiara Ferreira explica que crianças e adolescentes estão mais expostos aos desreguladores endócrinos por diferentes vias. Além da alimentação, considerada a principal fonte de contato com essas substâncias (como balas coloridas, biscoitos recheados e salgadinhos), a exposição também pode ocorrer pelo uso de cosméticos inadequados para a faixa etária, durante a gestação, na amamentação e até pelo aquecimento inadequado de recipientes plásticos.
Produtos como esmaltes, maquiagens, hidratantes, cremes e até protetores solares destinados ao público adulto não devem ser utilizados por crianças, segundo a pediatra.
"Também devemos considerar que, devido ao menor peso corporal, proporcionalmente a exposição às substâncias é maior do que nos adultos, especialmente porque ainda não se conhece uma dose considerada segura", ressalta.
A pediatra enfatiza que os produtos destinados ao público infantojuvenil devem passar por rigoroso controle de qualidade e certificação, justamente porque essa fase da vida é marcada pelo crescimento e desenvolvimento do organismo.
Naiara explica que a exposição aos desreguladores endócrinos pode estar relacionada ao aumento do risco de puberdade precoce, baixa estatura, obesidade, leucemia, distúrbios do neurodesenvolvimento e do comportamento, além de prejuízos à saúde reprodutiva, incluindo infertilidade.
"Fica o alerta para que pais e responsáveis utilizem somente produtos destinados ao público infantojuvenil, aprendam a ler os rótulos, mantenham uma alimentação saudável, lavem bem os alimentos in natura e, sempre que possível, consumam produtos orgânicos. Também é importante evitar aquecer recipientes plásticos, mesmo aqueles identificados como BPA Free", orienta.