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06 de dezembro, de 2022 | 14:00

Prefiro o Tutu Marambá...

Nena de Castro *

Com essa chuva com que somos abençoados, as plantas sorrindo de felicidade, o ar puro, passarim cantando, é uma delícia dormir. E antes que o sono chegue, a gente pensa no tempo de criança, quando a mãe nos punha na cama, rebuçava (cobria) com a coberta simples, fazia a oração junto e depois cantava canções de ninar. “Dorme neném, nenê não quer dormir/ eu vou chamar tutu/pra fazer nenê dormir”. O canto era acompanhado por suaves palmadinhas no ombro, ao ritmo da canção. Eram elas que nos faziam deslizar para o sono, em doce entrega...Hoje, adulta, família criada, tenho dificuldade pra adormecer e me pego pensando nessas coisas boas, com saudades infindas. Os tempos estão ruins, com tantos bochichos na política, gente que se transmudou em monstros acéfalos, querendo o poder a qualquer custo... São tantos, infelizmente, reais, cruéis e prefiro pensar no Tutu Marambá, irmão do Bicho-Papão e do Boi da Cara Preta.

É uma criatura toda escura, mas o engraçado é que ninguém sabe a forma que tem. Interessante ter medo do que não vemos, fica pra cada um imaginar. O folclorista Câmara Cascudo informa que a palavra TUTU vem do termo africano quitutu, que significa “ogro” ou “papão”.

Apesar de não ser tão popular quanto o Bicho-Papão, que chegou a virar termo proverbial, o Tutu Marambá é senhor dos terrores noturnos infantis na Bahia, em Pernambuco, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais. Existem várias modalidades da criatura, das quais a mais singular é a do Tutu-Zambê, que, além de não possuir forma, não possui também a cabeça.

Na Bahia, por sua vez, o Tutu Marambá deixa de ser uma mera sombra para assumir a forma explícita de um porco-do-mato, graças à semelhança dos termos tutu e caititu. (O caititu, ou queixada, é uma espécie de porco selvagem, montaria predileta do Caipora nortista.)

Segundo a crença, o Tutu Marambá persegue as crianças arteiras e, principalmente, aquelas que não querem dormir e o
mito, (epa!) segundo Câmara Cascudo é importado da Europa e da África.

Entretanto, nossas mães indígenas ao contrário, preferiam invocar, numa admirável lição de delicadeza, o auxílio dos pássaros ou animais de sono prolongado, a fim de que o emprestassem a seus indiozinhos insones. (Acatipuru, empresta teu sono / para meu filho dormir... / Iacuturu, empresta teu sono / para meu pequeno filho dormir... diz, como numa oração o suave acalanto).

Posé, a Bugra aqui, como todo brasileiro de bom senso, espia e ouve, horrorizada os acontecimentos pós eleições, com a turba enlouquecida pelo fracasso das “profecias” que dia após dia, sustentados por (?), se mantêm unida, frustração acumulada pronta a explodir em insanas e cruéis ações!

E há um vídeo no qual um bolsonarista que se identifica como “pastor, capelão e capitão” incita os perdedores a derramar sangue: “matem todos, inclusive as mulheres grávidas. Transpasse a barriga. A espada na barriga. Por que o que está ali é o filho do demônio”.

Ai, ai, ai! Eu quero a minha mãe cantando à beira da minha cama, quero fugir pra Passárgada, isso é loucura em último grau, é o que o professor João Cézar de Castro Rocha, professor da UERJ chama de “dissonância cognitiva coletiva”!

Bons tempos em que sentíamos medo só da Cuca, do Boi da Cara Preta, do Bicho Papão, Tutu Marambá, Saci, Mula sem Cabeça. Afeee! Que a razão volte a imperar no nosso chão. E nada mais digo!

* Escritora e encantadora de histórias

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Comentários

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Gildázio Garcia Vitor

06 de dezembro, 2022 | 18:50

“Minha querida Bugra velha, eu também quero ir para Passárgada.
"Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou me embora para Passárgada".”

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