23 de outubro, de 2022 | 08:03
Relação entre internet e eleição é avaliada por doutor em Ciência Política e mestre em Educação
A propagação de conteúdo, que antes ocorria somente pela mídia tradicional, passou a ser feita quase que de forma instantânea ao acontecimento
(Bruna Lage - Repórter do Diário do Aço)No Instagram, Facebook, Tik Tok, Kwai, WhatsApp, sites de notícias e outras plataformas. Basta estar conectado para ver que a relação entre internet e eleição ganhou um novo formato. A propagação de conteúdo, que antes ocorria somente pela mídia tradicional, passou a ser feita quase que de forma instantânea ao acontecimento. Entretanto, o bombardeio de notícias nem sempre repercute de forma positiva, a exemplo do que tem ocorrido no Brasil, onde uma série de notícias falsas tem sido disseminada acerca do pleito, principalmente neste presidenciável, num duelo entre Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Jair Bolsonaro (PL), que abrange seus correligionários e apoiadores.
Álbum Pessoal
George Gomes: ''A política, que já foi classificada como uma paixão morta, se recoloca como tema quente novamente''
George Gomes: ''A política, que já foi classificada como uma paixão morta, se recoloca como tema quente novamente''George Gomes Coutinho, bacharel em Ciências Sociais e doutor em Ciência Política, professor do Departamento de Ciências Sociais da UFF-Campos dos Goytacazes (RJ) e Rodrigo Vieira Ribeiro, professor, publicitário, mestre em Educação e designer, avaliam o cenário. Rodrigo, que reside em Ipatinga, contextualiza que as mídias sociais avançaram e os grandes meios de comunicação se integraram a elas.
No início houve uma onda de otimismo pela chamada Sociedade da Informação, esperava-se que as interações gerassem diálogos e construções mais positivas em termos de conceitos e falava-se em uma possível Sociedade do Conhecimento. Com o tempo, percebeu-se uma mudança de rumo e a Sociedade da Informação foi dominada por agrupamentos poderosos e velozes, com interesses políticos e geoeconômicos conservadores. A globalização foi tomada pela Era da Desinformação comandada pela geopolítica internacional. Diversos retrocessos se seguiram, democracias foram abaladas, economias colapsaram vítimas de campanhas de fake news que tratavam de retornar com narrativas ultrapassadas pela Ciência como o terraplanismo, vacinas e negacionismo científico”, aponta.
Questionado se acredita que a presença da internet nos pleitos é benéfica ou causa tumulto, Rodrigo avalia que depois que entendermos os fatores regulatórios e originadores desse caos, e criarmos mecanismos de proteção legal, consideraremos essa fase como benéfica. No entanto, atualmente, só conseguimos sentir o tumulto sem aparente solução”.
Auge da política
George, que vive no Rio de Janeiro, salienta que houve um aumento importante do interesse de cidadãos comuns, um maior envolvimento e tentativas mais acaloradas de participação política. A política, que já foi classificada pelo filósofo francês Luc Ferry como uma paixão morta, algo do século XX, se recoloca como tema quente novamente, arrebatador e capaz de mobilizar milhões de pessoas. A questão é que não foi muito bem como gostaríamos”.
A descentralização da produção de informação não veio acompanhada da melhora qualitativa da opinião pública, na opinião de George. Em verdade, a arquitetura das redes e a oferta de informações produzidas de forma descentralizada e organizada por algoritmos, e aqui há enorme responsabilidade das big techs, as grandes empresas de tecnologia que lucram muitíssimo com este status quo (expressão do Latim que significa o estado das coisas) produziu muito ruído e pouco esclarecimento coletivo. O maior envolvimento dos cidadãos comuns revelou, em determinadas realidades nacionais, camadas muito profundas de preconceitos, ódios diversos, etc. O que estava no campo do inconfessável de súbito se tornou explícito. Reencontramos com aquilo que a filósofa Hannah Arendt chamou de banalidade do mal, a perversidade praticada cotidianamente por pessoas comuns”, contextualiza.
Álbum Pessoal
Rodrigo Vieira: ''Concordo com Pierre Lévy, estamos nos afundando cada vez mais nesse mar de informações cada vez mais cheio''
Participação
Rodrigo Vieira: ''Concordo com Pierre Lévy, estamos nos afundando cada vez mais nesse mar de informações cada vez mais cheio'' Rodrigo Vieira salienta que ninguém no mundo está preparado para esse bombardeio de (des)informação e cita o sociólogo e pesquisador Pierre Lévy, que antecipou esse problema dizendo que a humanidade iria passar por um segundo dilúvio que teria proporções catastróficas: o Dilúvio da Informação” e, desse dilúvio, não haveria vazante.
Sim, concordo com Pierre Lévy, estamos nos afundando cada vez mais nesse mar de informações cada vez mais cheio, no entanto ele mesmo propõe uma possibilidade de solução, a colaboração. Sozinhos não conseguiremos sair dessa maré alta de informação. Quando a sociedade entender que competir nunca resolveu os problemas da sociedade e começarmos a colaborar, teremos um vislumbre de saída dessa crise”, indica.
O professor acredita que se não forem criados mecanismos de regulação e leis que protejam o eleitorado de mentiras e punam severamente os criadores e difusores de fake news, essa interferência só irá aumentar e prejudicar a população. E acrescenta que a tendência é aumentar o conteúdo de todo tipo, como disse Pierre Lévy.
Penso que é por isso que a democracia precisa ser fortalecida e a população precisa participar das decisões mais intensamente e não ficar apenas na discussão imatura do que é ou do que não é, sem trabalhar o pensamento e evoluir a argumentação de forma a gerar consenso colaborativo e soluções propositivas. Na Era da Informação precisaremos colaborar e somar ideias e ideais e não excluir por maioria. Uma eleição em ambiente colaborativo não deverá ter perdedores, mas toda uma sociedade vitoriosa. Vamos deixar de discutir se este ou aquele é melhor ou pior e vamos discutir o que este ou aquele tem de proposta democrática e inclusiva que permita que resolvamos os nossos problemas”, aconselha.
George acrescenta que a falta de preparo para lidar com a situação não é um problema específico do eleitor brasileiro. O fenômeno, pelo menos desde 2010 até aqui, causou e causa problemas graves no Ocidente como um todo, tendo o trumpismo, a eleição de Donald Trump em 2016, como um dos exemplos com maior potencial de dano para os EUA e também para suas instituições. Vale dizer que o problema prossegue até mesmo na gestão Biden e pode causar perturbações muito graves nas eleições de meio de mandato que ocorrerão em novembro próximo”, aponta o doutor.
O que fazer?
Diante da participação cada vez maior da internet e de seus usuários nesse processo, George entende que o gênio não vai voltar docilmente para a garrafa. É preciso investir em regulação, capacidade de tornar essa regulação dotada de caráter vinculante e, quem diria, continuar insistindo incansavelmente na produção de informação de qualidade”.
Sua avaliação é de que o mercado de opinião provavelmente vai continuar descentralizado. Mas, se quisermos ganhar algo enquanto sociedade, esta opinião pública pós-internet precisará ganhar qualidade e ser capaz de produzir esclarecimento. É simplesmente um imperativo de sobrevivência para nós mesmos e para as futuras gerações.
Medidas de curto, médio e longo prazo podem evitar a tragédia comunicacional que estamos assistindo. E esta tarefa complexa, a de sanear o ambiente onde as informações circulam, deve ser de toda a sociedade. Só especialistas urrando solitariamente em um deserto não vão dar conta”, conclui George Coutinho.
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Gildázio Garcia Vitor
23 de outubro, 2022 | 11:52Em 2015, Humberto Eco, autor de "O Nome da Rosa", disse que "as redes sociais deram voz a uma legião de imbecis".
Disse também: "o drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade".
O maior problema, é que muitos desses "imbecis/idiotas" temos cursos superiores e não somos aldeões, alguns se autodenominam cosmopolitas.”
Gildázio Garcia Vitor
23 de outubro, 2022 | 11:23Excelente reportagem! Parabéns Bruna Lage!”
Tião Aranha
23 de outubro, 2022 | 08:37Ninguém consegue viver neste mundo louco sem almejar melhores dias, e ninguém consegue ser modernista de uma noite para um dia. Risos.”