16 de julho, de 2026 | 07:00
O futebol como nossa segunda vida
Paulo da Rocha Dias *
Que raiva, sô! Fomos eliminados... E Marrocos também! A Copa do Mundo de Futebol é nossa grande festa. É menor que o carnaval e o São João, mas muito mais abrangente. É a festa mais marcante da nossa civilização. Para nós, o futebol não precisa nem de explicação, nem de interpretação. É festa. É descanso. É trégua no trabalho. É igualdade em uma sociedade desigual. É um mundo ao revés. É uma segunda vida.
Diferente da real, essa segunda vida
é marcada sobretudo pela emoção”
Diferente da real, essa segunda vida é marcada sobretudo pela emoção. Na derrota, que raiva, sô!... Na vitória, a alegria. A visão carnavalesca do mundo é a base profunda do futebol. O certame quebra a seriedade da vida de cada dia com uma arma letal: o riso geral e cheio de alvoroço. O mundo inteiro parece cômico. Quando duas equipes se enfrentam e o jogo é paralisado por horas, a seriedade e o tédio não invadem as arquibancadas. Em vez disso, o tempo de espera torna-se um tempo de festa. Dezenas de milhares de pessoas esperando a volta do jogo cantam em uma só voz Livin on a Prayer, de Bon Jovi. É um riso geral, universal, de todos. Esse riso é patrimônio do nosso povo. O futebol é seu grande provocador.
Claro, há concorrência, competição, vitória e derrota. O medo é outra emoção. Medo do adversário, do contra-ataque, da derrota. O riso persiste em meio ao medo, mas torna-se burlesco e sarcástico. Nega ao mesmo tempo em que afirma. Amortalha, ao mesmo tempo em que ressuscita. É morte e ressurreição. É a tensão da incerteza até o último segundo.
Algo surpreendente pode acontecer a qualquer momento. A pior surpresa é a derrota quando se espera sempre a vitória. A equipe adversária surpreende continuamente o torcedor, sobretudo quando acontece um gol.
Quando saímos derrotados do estádio, somos tomados pela tristeza, sentimos nojo do adversário e raiva daqueles que marcaram os gols e selaram a derrota. Enfim, emoções de todos os tipos se misturam dentro de nós.
Socialmente, o mais marcante é o senso de igualdade que une e nivela a todos. Naqueles noventa e tantos minutos, todo o Brasil se une, somos todos livres e somos todos iguais. O padre, o médico e o mendigo que vivem separados uns dos outros na vida de cada dia, no estádio de futebol sentam-se lado a lado, e abraçam-se e gritam e dizem palavrões quando um de nossos jogadores sofre uma falta ou leva um pisão no pé. Ninguém olha a condição, a riqueza, o emprego, a idade e a situação familiar do outro. As regras e tabus desaparecem. Não há naquele minúsculo tempo do jogo o você sabe com quem está falando?” Estou falando com um igual a mim: brasileiro, torcedor da seleção, torcedor do Brasil.
A pior surpresa é a derrota quando se
espera sempre a vitória”
A multidão no estádio ou o indivíduo diante da TV não assiste ao futebol. Vive-o. Durante o jogo, não se conhece outra vida senão o futebol. Sem fronteiras e sem leis, a não ser as da liberdade. O futebol é a segunda vida de nosso povo, baseada no princípio do riso. Terminado o jogo, a vida volta a ser temperada com as especiarias amargas das grandes navegações.
* Jornalista, escritor e professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso. ([email protected])
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]
















