15 de julho, de 2026 | 07:30
Mulheres: A jornada que não termina quando o expediente acaba
Adriana Ramalho *
Há debates que ultrapassam a esfera da economia e das relações de trabalho. A discussão sobre o fim da escala 6x1 é um deles. Não se trata apenas de reorganizar horários ou revisar contratos. Trata-se de perguntar que tipo de sociedade estamos construindo e quem suporta, todos os dias, o peso desse modelo.
Para milhões de mulheres brasileiras, a jornada não termina quando deixam o local de trabalho. Ela apenas muda de endereço. Ao chegar em casa, começa um segundo turno: preparar refeições, cuidar dos filhos, acompanhar os estudos, limpar a casa, administrar a rotina da família e, muitas vezes, cuidar de pais idosos. É um trabalho essencial para a sociedade, mas que permanece invisível, não remunerado e desigualmente distribuído.
A escala 6x1 amplia essa desigualdade. Um único dia de descanso semanal dificilmente é suficiente para recuperar o desgaste físico e mental de seis dias consecutivos de trabalho. Para muitas mulheres, esse dia sequer representa descanso. É justamente quando se concentram as tarefas domésticas acumuladas durante a semana, transformando o domingo, ou qualquer outro dia de folga, em mais um dia de trabalho.
Defender a adoção da escala 5x2 é defender qualidade de vida, saúde e dignidade. Não significa trabalhar menos por trabalhar menos. Significa compreender que pessoas descansadas produzem melhor, adoecem menos e constroem relações familiares e sociais mais saudáveis.
"Um único dia de descanso semanal é insuficiente para
recuperar o desgaste físico e mental de seis dias
consecutivos de trabalho"
Empresas em diferentes países já demonstram que jornadas mais equilibradas podem resultar em maior produtividade, menor rotatividade e equipes mais engajadas. Há também uma questão de justiça.
Enquanto as mulheres continuarem assumindo a maior parte do trabalho de cuidado, qualquer debate sobre igualdade no mercado de trabalho estará incompleto. A redução da jornada não elimina essa desigualdade, mas cria condições mais favoráveis para que ela seja enfrentada.
Mais tempo disponível significa mais oportunidades para compartilhar responsabilidades, investir em qualificação, participar da vida pública e exercer plenamente a cidadania.
É importante reconhecer que a mudança exige diálogo entre trabalhadores, empregadores e diferentes setores da economia. Há atividades que demandam adaptações específicas para garantir a continuidade dos serviços. Ainda assim, esse desafio não deve servir de argumento para manter um modelo que, há anos, demonstra seus limites para milhões de brasileiros.
"Esse desafio não deve servir de argumento para manter
um modelo que, há anos, demonstra seus limites para
milhões de brasileiros"
O trabalho dignifica, gera renda e transforma vidas. Mas ele não pode consumir a própria vida de quem trabalha. O desenvolvimento de um país não pode ser medido apenas por índices econômicos; deve ser avaliado também pela forma como trata as pessoas que movimentam sua economia todos os dias.
Defender a escala 5x2 é defender um Brasil que valoriza o tempo, a saúde e as famílias. É reconhecer que o descanso não é privilégio. É um direito. E, para muitas mulheres, pode representar o primeiro passo para que a jornada, finalmente, tenha um fim.
* Bacharel em Direito, política (vereadora em SP 2016/2020), ativista social e palestrante sobre combate a violência doméstica, alienação parental, empreendedorismo feminino, e saúde mental
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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