11 de julho, de 2026 | 07:00

Terra farta, povo carente: O contraste de um país

Samuel Hanan *  


O Brasil não sofre por falta de dinheiro, de talentos ou de recursos naturais. O verdadeiro paradoxo nacional é ter um Estado cada vez mais rico e um povo cada vez mais empobrecido. Essa contradição não é um acidente de percurso; é um projeto de poder. Afinal, para governos que dependem do voto de quem tem fome para se perpetuarem, erradicar a pobreza significaria fechar a própria fábrica de votos.

A maior prova disso está no bolso dos mais vulneráveis. Enquanto o discurso oficial prega a justiça social, na prática, a renda do trabalhador é corroída. Medidas como a mudança no cálculo do salário-mínimo e o congelamento do Bolsa Família retiram bilhões de circulação de quem mais precisa. Para piorar, a iminente fixação de uma das maiores alíquotas de IVA do mundo sobre o consumo vai massacrar quem vive na base da pirâmide. Como alertava John Kenneth Galbraith, nada limita mais a liberdade do que a total falta de dinheiro. 

O mesmo estrangulamento ocorre na educação. Ocupamos as piores posições nos rankings globais de leitura e matemática, e quase um terço da nossa população adulta sofre com o analfabetismo funcional. Manter o cidadão ignorante é estratégico: afinal, como dizia o abolicionista Frederick Douglass, "o conhecimento torna o homem inadequado para a escravidão". 

Podemos considerar que essa tragédia brasileira se consolida em três atos que, juntos, jogam no lixo mais de R$ 1,5 trilhão por ano (cerca de 12% do PIB): 

1º ato: o gigantismo do Estado (R$ 567 bilhões/ano): nossa máquina pública custa 13,5% do PIB, superando de longe a média dos países da OCDE. Um excesso que serve apenas para sustentar os privilégios dos "donos do poder" e cooptar aliados.

2º ato: a corrupção (R$ 540 bilhões/ano): um mal crônico que nos empurrou para a vergonhosa 108ª posição no ranking de percepção da corrupção da Transparência Internacional.

3º ato: as renúncias fiscais ilegítimas (R$ 500 bilhões/ano): isenções tributárias federais que estouram absurdamente o teto constitucional de 2% do PIB, alcançando 5,7%.

Considero oportuno afirmar que com menos da metade desse R$ 1,5 trilhão desperdiçado, o país poderia dobrar os investimentos no SUS, garantir ensino integral para toda a rede pública, valorizar professores, blindar nossas fronteiras e construir 250 mil moradias populares por ano. 

“Medidas como a mudança no cálculo do salário-mínimo
e o congelamento do Bolsa Família retiram bilhões de
circulação de quem mais precisa”


Dinheiro existe; falta gestão, honestidade e um plano real de metas. O Brasil tem mais de 100 milhões de pessoas sobrevivendo com apenas um salário-mínimo, uma realidade alimentada por políticas dolosas e agravada pelo instituto da reeleição no Executivo, que eterniza esse ciclo de dependência e deveria ser abolido.

Mudar de rumo não é utopia. Mas o primeiro passo para essa transformação é cortar privilégios, combater a impunidade e entender, de uma vez por todas, que nação rica é aquela em que o povo - e não o governo - vive com dignidade.
 
* Engenheiro com especialização nas áreas de macroeconomia, administração de empresas e finanças, empresário, e foi vice-governador do Amazonas (1999-2002). Autor dos livros “Brasil, um país à deriva”, “Caminhos para um país sem rumo”, “Brasil: que país é este” e “Amazonia: Preservar para viver. Responsabilidade Global, Custo Global” Site: https://samuelhanan.com.br

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