09 de julho, de 2026 | 07:20
O crime de ser professor
Paulo da Rocha Dias *
Comecei minha carreira como professor em 1978. Estava para completar dezoito anos de idade quando me tornei membro do corpo docente da hoje extinta Escola Polivalente Maria Isabel Vieira. A escola ficava no topo de uma montanha de onde a gente podia ver quase toda a Caratinga. Mesmo estando em plena ditadura, não havia violência, nem agressão, nem misoginia, nem intolerância religiosa. O único problema era chegar lá no alto daquele morro.
Era tudo muito bom. Até o salário. Com o ordenado de dois meses de trabalho, consegui comprar uma moto Honda CG 125 zero km para escalar a montanha. Minha lide como professor terminou 48 anos mais tarde, no dia 18 de setembro de 2025, quando entrei para o grupo dos aposentados da UFMT. Tudo muito mal, como nos indicam os fatos abaixo:
Conversas de WhatsApp revelam lista de alunas estupráveis feita por estudantes do Curso de Direito da UFMT. Segundo a reitoria, o pai de um dos alunos envolvidos entrou no campus e ameaçou: se o meu filho não se formar, os demais também não se formarão”. Esse pai é agente da Polícia Federal.
Maria Inês da Silva Barbosa, professora da UFMT, foi expulsa da 15ª Conferência Municipal de Saúde de Cuiabá. Maria Inês é negra, doutora pela Faculdade de Saúde Pública da USP, e participava, como conferencista, do debate Consolidar o SUS: com a força do povo, participação social e políticas públicas”. Quem a expulsou foi o prefeito da cidade, Abílio Brunini (PL).
Um soldado da PM invadiu a EMEI Antônio Bento, na Zona Oeste de São Paulo, alegando que a escola estaria obrigando a filha dele a ter aula de religião africana”. No dia seguinte, 12 policiais entraram na escola armados até os dentes.
Na semana passada, um estudante de 17 anos do Instituto Federal do Rio de Janeiro (IFRJ-Volta Redonda) produziu, com o uso de IA, e armazenou mais de 500 imagens sexuais de alunas do Instituto.
Se você quiser abraçar essa profissão, prepare-se para
sofrer limitação da liberdade de ensinar, perseguição
política, censura, vigilância, agressão física e verbal e assédio”
Também na semana passada, três alunos do 8º ano da EMEFI Profª Ildete Mendonça Barbosa, de São José dos Campos, colocaram caco de vidro no copo de água da professora de ciências, Michele Ramos. As famílias de dois desses estudantes solicitaram a transferência deles.
Uma professora foi agredida a socos por aluna do 7º ano da Escola Municipal Dom Oscar de Oliveira, em Mariana. Isso porque ela chamou a atenção da menina por ter furado uma fila. O prefeito anunciou ações de acompanhamento à professora e de apoio à estudante e à família.
Se você quiser abraçar essa profissão, prepare-se para sofrer limitação da liberdade de ensinar, perseguição política, censura, vigilância, agressão física e verbal e assédio de todos os tipos. É o que revela uma pesquisa feita pelo Observatório Nacional da Violência Contra Educadoras/es (ONVE), da Universidade Federal Fluminense (UFF), em parceria com o Ministério da Educação (MEC).
Na educação básica, diz a pesquisa, 61% dos professores são vítimas diretas da violência. Na superior, 55%. De cada cem professores, quarenta e cinco se sentem constantemente vigiados e censurados sobre o que falam em sala de aula. Nem pense em desmascarar mentiras, derrubar teorias da conspiração ou uma notícia falsa. Ou prepare-se para uma resposta como essa que recebi de um aluno: Cara, vc está muito preocupado com o q o cara disse. Pq essa necessidade de provar q o cara mentiu... P mim ele errou. E acontece. Vc devia ficar + preocupado com a mentira do seu presidente.”
A falta de comando dos pais em casa, despiu os professores
e toda e qualquer autoridade em sala de aula”
A falta de comando dos pais em casa, despiu os professores e toda e qualquer autoridade em sala de aula. O fato é que quem comanda o ônibus é o motorista. Quem comanda a missa é o padre. O time de futebol é o técnico. O professor não é mais um profissional respeitado e admirado em sua capacidade de ensinar e comandar a sala de aula.
O Observatório sugere a criação pelo poder público de uma política nacional de enfrentamento à violência contra educadores. Na prática, isso não tem acontecido. Diante de reclamações de alunos nas plataformas de denúncias, as corregedorias e ouvidorias de nossas universidades parecem partir sempre da premissa de que o professor é o principal suspeito, senão o criminoso declarado. Uma espécie de lavajatismo da República de Curitiba tem tomado conta desses órgãos correcionais e disciplinares. E ao professor resta somente a resignação e o medo.
* Jornalista, escritor e professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso. ([email protected])
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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Vicente
09 de julho, 2026 | 15:17? impossível se acostumar com a realidade na qual os professores estão inseridos. Esse é o reflexo de quando figuras políticas usam sua influência nas redes sociais para deslegitimar os profissionais que tentam suprir a educação que falta em casa.”
Sebastian
09 de julho, 2026 | 14:41A relação da extrema direita com agressões a professores e jornalistas baseia-se na deslegitimação da autoridade intelectual e da imprensa, vistas como oponentes ideológicos. Essa dinâmica materializa-se com a adoção de assédio moral, censura, violência digital orquestrada e, em casos extremos, agressões físicas em manifestações e protestos. E o comportamento dos adultos influencia na ação deplorável de jovens, como muito relatado pelo jornalista e professor que assina esse artigo.”
Valéria
09 de julho, 2026 | 14:28Que texto maravilhoso e objetivo. Realmente muito triste o que anda acontecendo nessa área em nosso país . Mas não podemos desistir de mostrar essa realidade. Parabéns, Paulo , por ver e saber escrever tão bem sobre esse assunto!!!”
Tião Aranha
09 de julho, 2026 | 11:42Bom texto, quem não nasceu para aprender, serve para ensinar. A Educação neste país nunca foi prioridade. Gostaria de falar da cidade das palmeiras, mas vai ficar pra outra oportunidade, porque o espaço aqui é muito corrido. Mas Caratinga é assim: quem é rico é rico. Quem é pobre é pobre. Não existe meio termo. Tenho muita história interessante pra contar desta antiga e tradicional cidade. Mas voltando para a Educação, sempre pensei que ela fosse a base do desenvolvimento de qualquer nação. Lá em casa somos 5 filhos, três trabalharam na Educação. Vim de família pobre, mas que tinha um sobrenome para preservar. Sem Educação de qualidade, nunca teremos um povo livre. Infelizmente a maioria dos políticos só usam a Educação para ganhar a eleição. Rs.”
Mariane
09 de julho, 2026 | 11:16O cenário da juventude é realmente aterrador. Conheci um garoto de 17 anos há uns 6 meses. Chegou na empresa para trabalhar como "menor aprendiz", ficou dois meses no emprego e saiu reclamnado de cansaço do trabalho. E nada mais digo.”
Emmanuel
09 de julho, 2026 | 11:14Que relato mais triste. Na prática, os pais da atual geração se esqueceram dos valores mais nobres de uma família. Hoje não nascem mais filhos. São "principes" ou "princesas". Intocáveis. Alecrins dourados de Roma. Se acham acima de tudo e de todos, nunca escutaram um NÃO como resposta e hoje temos uma das gerações mais burras de todos os tempos. Fraca. Na manada atualmente com mais de 15 anos, salvam-se poucos.”
Reginaldo Osvaldo da Silva
09 de julho, 2026 | 10:40Ser professor virou um desafio diário. A família deixou de cumprir seu papel, a escola se trancou cada vez mais nos muros, encarcerada. A criminalidade acadêmica na obra dos grandes pensadores brasileiros (Darci Ribeiro, Paulo Freire, Aurélio Buarque de Holanda), levou a educação a esse caos que estamos vivendo. Uma lástima. Mas temos que continuar a luta por uma educação transformadora, pela democratização do ensino, pela igualdade de direitos.”
Alberto Janine Neto
09 de julho, 2026 | 10:32Querido Paulinho! Será que um dia acaba está intolerância e arrogância dos seres humanos? O relato que você faz é mais que surpreendente; é triste demais. Agora eu não posso aprofundar mais.. Deixo meu abraço solidário a você. E a todos que exercem a capacidade de ensinar.”
Aparecido
09 de julho, 2026 | 10:28? difícil. Está cada vez mais difícil. Mas a gente não pode desistir. Do contrário, cada vez menos pessoas vão se interessar por essa carreira, mesmo (e talvez principalmente) no serviço público.”
Gildázio Garcia Vitor
09 de julho, 2026 | 08:22Há 31 anos, aprendi com o Professor Sérgio Taniguchi, uma das feras da Física do nosso Vale do Aço, que "Filho é criação". Acredito que, por enquanto, consegui "criar" as minhas princesas: uma, graduada em Direito pela UFJF-GV, está na Polícia Civil, a outra, graduada em Veterinária pela UFES, está fazendo Residência em Saúde Coletiva em Jerônimo Monteiro (ES), com uma bolsa pouco menor que o meu benefício do IPSEMG, que conquistei depois de 32 anos e 8 meses dedicados ao Magistério do estado de Minas Gerais.
O problema, é que os pais não estão sabendo e/ou querendo ser pais de filhos humanos que respeitam os seus semelhantes.”