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03 de julho, de 2026 | 07:30

Cortina de fumaça, a democracia em risco e a apatia de quem deveria reagir

Carlos Alberto Costa *

Acompanhei, assustado, confesso, as declarações de um pseudo-influenciador, que, inclusive, virou alvo de uma ação do Ministério Público de São Paulo. As declarações foram feitas em um podcast, no qual ele defendeu que o direito ao voto deveria ser restrito a quem paga determinado valor em impostos. E pior: ele repetiu detalhadamente sua opinião em seu perfil pessoal. O órgão ministerial, então, pede a remoção do conteúdo das redes sociais, a proibição de novas publicações com o mesmo teor e o pagamento de indenização por danos morais coletivos, no valor de 300 mil reais. Segundo o MP, esse tipo de discurso coloca em risco um dos principais pilares da democracia brasileira: o direito de todos os brasileiros de escolher seus representantes nas urnas.

Abaixo, um trecho da fala de Leonardo Marcondes, conhecido nas redes sociais como Leo Marcondes: "Você já parou pra pensar que pobre não devia ter direito de votar? Pensa comigo. Uma pessoa que é pobre não soube tomar boas decisões pra ter o melhor pra sua família e pra si mesma. E as pessoas que não tomam boas decisões pra ter o melhor pra si mesma, ela vai agora tomar uma decisão que vai ser o melhor para o país. Qual é a habilidade que essa pessoa tem ao tomar decisões? Nenhuma. É uma pessoa que não deveria votar", disparou. O vídeo é longo, mas me recuso a publicar mais nesse minguado espaço de jornal. Quem quiser que procure o vídeo, facilmente encontrado no Instagram, o parlatório dos imbecis, como diria Umberto Eco.

Outro caso que se soma a esse disparate do pseudo-influenciador é uma transmissão em vídeo recente, em que o comentarista político Paulo Figueiredo (neto do último ditador da República brasileira, João Batista de Figueiredo) fez declarações consideradas pela maioria das pessoas como misóginas e machistas. Ele afirmou que "mulher vota estatisticamente muito mal", alegando que mulheres casadas acompanham os votos dos maridos e que as solteiras tomam decisões piores. As falas geraram forte repúdio público. O influenciador atacou o eleitorado feminino e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro ao criticar o desempenho político do senador Flávio Bolsonaro, atribuindo a rejeição do candidato à sua atuação com as mulheres. Devido à repercussão, as falas de Paulo Figueiredo motivaram até mesmo representações legais por suposto discurso de ódio e violência política de gênero.


“Está muito cristalino que as falas desses dois
indivíduos são criminosas e deveriam ser punidas com rigor”


Todos esses episódios têm levado muitas pessoas a fazer uma analogia com o livro The Handmaid's Tale, ou O Conto da Aia, escrito pela autora canadense Margaret Atwood. A obra foi publicada originalmente em 1985 e se tornou uma das distopias mais famosas da literatura mundial, abordando temas como controle social, direitos das mulheres e regimes teocráticos. Por estar em exibição na Netflix e acessível a mais pessoas, a história, que salta da literatura para a realidade, tem sido associada a ideias como essas de Paulo Figueiredo e do "influencer".

Francamente, não sei onde vamos parar com essa situação. De tão absurdas essas declarações, publicadas amplamente e sob o julgamento de milhões de pessoas, só posso entender isso tudo como uma cortina de fumaça para encobrir outros escândalos e colocar nossa democracia em risco. Não há outro cabimento. Em que pese a ação do Ministério Público no caso do suposto influenciador que é contra o voto dos pobres, falta uma reação mais enérgica para combater esses descalabros. Setores importantes de nossa sociedade, que por muito menos foram para as ruas, agora se restringem a manifestações na terra arrasada chamada internet.

Está muito cristalino que as falas desses dois indivíduos são criminosas e deveriam ser punidas com rigor. Ambos ignoram um dos preceitos mais brilhantes de nossa Constituição, que é a igualdade de direitos.
Evoco, novamente, o escritor e filósofo italiano Umberto Eco, para quem "as redes sociais deram o direito à palavra a legiões de imbecis que, antes, só falavam nos bares, após um copo de vinho (ou de cerveja), e não causavam nenhum mal para a coletividade". Para encerrar, novamente alerto os professores da atual geração sobre a importância de seu papel nas salas de aula, no sentido de gerar uma visão crítica em seus alunos, para que tenham acesso à internet, mas saibam separar o joio do trigo, que saibam separar a imbecilidade da evolução.


* Professor aposentado. Mora em Ipatinga.


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