02 de julho, de 2026 | 07:30

Sua empresa é um ativo ou apenas um emprego caro?

Walter Teixeira *

Tenho conversado com muitos empresários que iniciaram o negócio por necessidade, e não porque enxergaram uma oportunidade e fizeram um plano para avaliar se aquele investimento era viável.
No início, para muitos, aquilo nem era visto como investimento. Era uma forma de gerar renda, pagar as contas e construir patrimônio.

O tempo passou. A empresa cresceu, as responsabilidades aumentaram e o empresário continuou sendo o centro de quase tudo: vendas, marketing, compras, negociações, contas a pagar e receber, decisões e equipe.

Ou seja, construiu um emprego caro: dinheiro imobilizado, retirada mensal com pouca variação, negócio que não anda sem ele e a impressão de que alguns funcionários têm mais qualidade de vida do que ele.

Como se não bastasse, ainda carrega a apreensão de que, se algo acontecer, a empresa não sobreviva e a família fique desprotegida.

“Quando pensa em vender, o empresário percebe
que existe uma grande diferença entre querer vender e poder vender”


E esse medo não é exagero. Segundo a PwC, apenas cerca de 30% das empresas familiares brasileiras sobrevivem à transição para a segunda geração; o IBGC aponta que a maioria delas não tem sequer um plano de continuidade para os cargos-chave. Na prática, o negócio não quebra por falta de resultado, mas por falta de uma estrutura que funcione sem o fundador.

Quando pensa em vender, o empresário percebe que existe uma grande diferença entre querer vender e poder vender. Querer vender nasce do cansaço, da dependência do dono e da falta de uma sucessão organizada. Poder vender é outra história: significa que existe mercado interessado, que alguém reconhece valor naquele negócio e que continuar ou sair é uma decisão, não uma obrigação.

Quando percebe essa diferença, a conversa deixa de ser apenas sobre retirada e lucro. A pergunta passa a ser: como fazer a empresa ter mais valor de mercado, em vez de ser somente uma fonte de renda?

Essa pergunta muda tudo. Uma empresa pode ser fonte de renda mensal ou um ativo em valorização, ou as duas coisas. Pode depender totalmente do dono ou funcionar com método, equipe, processos, clientes recorrentes, marca e gestão.

É essa diferença que define se o negócio tem valor próprio ou se vale apenas enquanto o dono está ali, todos os dias, fazendo a roda girar.

O valor de mercado não é assunto reservado às grandes empresas. É a medida de quanto o negócio consegue gerar resultado, crescer e continuar relevante sem depender apenas do dono. Saber quanto a empresa vale ajuda a decidir sobre crescimento, sucessão, entrada de sócios, saída do negócio e diversificação. "Quem tem a opção de vender tem poder; quem não tem, está preso ao próprio negócio".

“É uma forma de pensar a gestão desde cedo,
mesmo quando o negócio nasceu por necessidade”


Duas empresas podem ter faturamento e lucro parecidos, mas valores de mercado muito diferentes. A que depende demais do dono, cresce pouco e carrega mais risco perde valor. A que tem equipe, processos, clientes recorrentes, caixa previsível, marca consolidada e possibilidade real de crescimento se torna mais forte, segura e valiosa.

É por isso que, para decisões importantes, o empresário precisa conhecer o valor da empresa. É aí que entra o valuation, a avaliação econômica do negócio, que considera a geração futura de caixa ou comparações de mercado, como múltiplos de faturamento, lucro ou EBITDA. Não existe fórmula mágica: resultado, crescimento, recorrência, risco e dependência do dono pesam nessa conta.

Conhecer o valor da empresa muda a forma de administrar, mesmo que vender não esteja nos planos. A venda da empresa e as estratégias de equity, ou seja, participação societária, como entrada de sócios, venda parcial, participação para talentos e sucessão, exigem preparação antes da negociação. Quem deixa para discutir isso apenas na hora do conflito ou da oportunidade pode perder dinheiro e poder de negociação.

Para saber se a empresa tem um bom valor de mercado, antes de fazer um valuation, comece por um teste simples. Se você sumisse por noventa dias - férias, doença ou qualquer outro motivo - sua empresa continuaria atendendo clientes, faturando e crescendo? Se a resposta for não, ela pode até gerar renda, mas ainda não se transformou em um ativo com valor próprio.

Depois, passe às perguntas técnicas: tenho uma DRE gerencial confiável? Sei minha margem real? Tenho fluxo de caixa projetado? Conheço meu endividamento e quais clientes são mais rentáveis? Minha equipe opera sem minha presença diária? Meus contratos protegem o negócio e minha marca gera confiança?

Quando existe sociedade, as perguntas aumentam: há acordo de sócios, com responsabilidades claras e regras para entrada, saída ou venda de participação? Existe governança mínima para evitar que divergências pessoais prejudiquem a empresa?

Essas respostas mostram se a empresa está apenas funcionando ou se está se valorizando aos olhos do mercado. Aumentar o valor da empresa não é projeto para quando "sobrar tempo", até porque quem empreende sabe que esse dia raramente chega. É uma forma de pensar a gestão desde cedo, mesmo quando o negócio nasceu por necessidade e o dono nunca parou para medir o valor do que construiu.

No fim, a pergunta não é apenas quanto a empresa lhe permite retirar todos os meses. É se, depois de tanto esforço, você construiu um ativo com valor de mercado, capaz de ser vendido quando, e se, quiser, ou se criou apenas um emprego caro que não consegue largar nem quando precisa.

* Empresário, mestre em Negócios Internacionais pela Must University, advogado, técnico em contabilidade, cofundador da NTW Contabilidade e Gestão Empresarial e da Tutoreanos Consultores de Negócios.

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