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25 de junho, de 2026 | 07:00

A agonia de Querô e os invisíveis

Paulo da Rocha Dias *

Reli recentemente “Querô: uma reportagem maldita”, romance de Plínio Marcos (1935-1999) lançado há exatamente cinquenta anos. O próprio autor adaptou a obra e a estreou no teatro em 1979 e, desde então, vem sendo encenada nos quatro cantos do país. Em 2007, Carlos Cortez dirigiu a adaptação desse romance para o cinema.

Às vezes penso que não existem mais Querôs no Brasil, como se todos nós fôssemos ricos. Outras, penso que é a mesma nação dos tempos de eu menino, e há pobres em toda parte. No fim das contas, acabamos por nos distanciarmos demais dos trinta e cinco milhões de Querôs que povoam nossas ruas, calçadas e vãos de viadutos. Na medida em que nossas condições socioeconômicas foram melhorando, adotamos traços burgueses fundamentais. A vida de bem-estar fez com que os pobres e miseráveis dessa nação se tornassem para nós invisíveis. A pandemia nos fez vê-los por uns instantes, mas tornaram-se novamente invisíveis.

Fiquei sabendo de Querô por meio de carta da Neide Cota, uma das pessoas mais importantes de minha vida. Minha primeira leitura aconteceu em 1981. Eu estudava na Universidade Federal de Santa Catarina. Tanto o impacto da leitura que convidamos o Plinio Marcos para palestra no auditório da reitoria e ele levou o livro. Sempre levava suas obras para vender na porta dos teatros e dos cinemas e nas entradas de auditórios em que palestrava. Depois, em 2011, ganhei um exemplar de presente do poeta Odair de Moraes, meu ex-aluno. Foi a segunda leitura. A terceira foi hoje.


“A vida de bem-estar fez com que os pobres e
miseráveis dessa nação se tornassem para nós invisíveis”


Querô é uma obra de denúncia social. Interroga o desalento e as grandes angústias do protagonista que não pode mais sonhar, não pode mais viver de esperança e cultivar utopias mais não pode. Baleado num confronto com a polícia, Antes de morrer, Querô dá uma entrevista a um jornalista, de sorte que o livro soa como uma reportagem feita a partir da decupagem do depoimento maldito. Fala ao repórter sobre sua agonia e sobre a mãe prostituta que morre ao tomar querosene - daí origem do apelido do filho. Fala também da outra mulher de vida dura que o adotou, da fuga do reformatório, de um ou outro encontro amoroso e do eterno jogo de caça e caçador entre o menino e a polícia. Tudo se dá em torno do cais do porto e seus antros úmidos e mofados.

Plínio Marcos foi um anarquista genuíno, convicto e coerente. Nasceu e morreu alternativo. É uma das figuras mais importantes do nosso teatro e literatura. Seu nome se eterniza em sua obra e também em uma das mais importantes casas de dramaturgia do Brasil, o Teatro Plínio Marcos, obra de Oscar Niemeyer, no Eixo Monumental de Brasília.

* Jornalista, escritor e professor aposentado da Universidade Federal de Mato Grosso.

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