EXPO USIPA 2026

19 de junho, de 2026 | 07:00

Eis a questão: a gastronomia e a coquetelaria são apenas a evolução da fome e da sede?

Abner Benevenuto Araújo Paixão * Carlos Eduardo Lima Salzmann **


Existe um hábito curioso quando falamos de gastronomia e de coquetelaria. Quase sempre começamos pela técnica. Falamos de ingredientes, métodos de preparo, fermentação, destilação, tendências culinárias ou da construção de um bom coquetel. Discutimos criatividade, experiência sensorial e inovação. No entanto, raramente começamos pela origem de tudo isso. Antes de qualquer elaboração cultural, antes de qualquer ritual gastronômico, existe algo muito mais simples: a fome e a sede. E essas duas forças são diretas. O corpo pede comida. O corpo pede água. Antes de qualquer discurso sobre sabor, existe uma necessidade básica de continuar funcionando.

A fome e a sede são mecanismos biológicos elementares. O organismo humano depende de energia e de hidratação para manter suas funções. Quando a energia diminui, sentimos fome. Quando o equilíbrio hídrico se altera, sentimos sede. A fisiologia explica isso com precisão por meio de hormônios, receptores e respostas metabólicas. Mas, no cotidiano, a experiência é mais simples do que qualquer explicação científica. O corpo avisa. E é justamente dessa simplicidade que começa uma das construções culturais mais complexas da humanidade.

A cozinha nasce quando a fome deixa de ser apenas instinto e passa a ser organizada pela cultura. Em algum momento da história, o ser humano começou a cozinhar. O alimento deixou de ser apenas aquilo que se encontra na natureza e passou a ser preparado, transformado e compartilhado. Temperos, técnicas de fogo, métodos de conservação e combinações de ingredientes foram criando algo novo: a gastronomia. O antropólogo Claude Lévi-Strauss observava que cozinhar representa justamente essa passagem da natureza para a cultura. Quando o alimento deixa de ser cru e passa a ser preparado, ele deixa de ser apenas recurso biológico e passa a carregar significado social.

Com a sede acontece um movimento semelhante. A água é indispensável, mas as sociedades humanas não se limitaram a beber apenas para hidratar o corpo. Em diferentes culturas surgiram bebidas fermentadas, como vinho e cerveja, que ultrapassam a função básica da hidratação. Mais tarde vieram os destilados e, com eles, um campo de criação próprio. Misturar, equilibrar e combinar líquidos passou a ser também uma forma de expressão cultural. É nesse território que nasce a coquetelaria. Se a cozinha organiza a fome, o bar organiza a sede. O coquetel não existe apenas para saciar o corpo da maneira mais rápida possível; ele existe para construir uma experiência em torno daquilo que começou como uma necessidade.

Quando observamos esse processo com mais atenção, percebemos que gastronomia e coquetelaria respondem a perguntas muito antigas. O que fazemos quando sentimos fome? E o que fazemos quando sentimos sede? Cada sociedade respondeu a essas perguntas de maneira diferente, criando técnicas, ingredientes, rituais e espaços de convivência em torno da comida e da bebida.

O gastrônomo francês Jean Anthelme Brillat-Savarin sintetizou essa relação em uma frase que atravessou séculos: “Diga-me o que comes e te direi quem és”. A alimentação, segundo ele, revela muito sobre identidade, cultura e hábitos sociais. Talvez a frase possa ser ampliada. Aquilo que bebemos também diz algo sobre quem somos. O que aparece no prato e no copo fala de tradição, memória, acesso e escolhas coletivas.

Essa relação fica evidente quando observamos a função social da mesa e do bar. Comer e beber raramente são atos isolados. Na maior parte do tempo, são experiências compartilhadas. Restaurantes e bares existem porque as pessoas se encontram nesses espaços. A cozinha e o balcão funcionam como pontos de encontro onde uma necessidade biológica se transforma em convivência.

É curioso perceber que, com o passar do tempo, fome e sede deixaram de ser apenas sinais do corpo e passaram a ser também ponto de partida para criatividade, identidade e até prestígio cultural. Hoje falamos de gastronomia autoral, técnicas sofisticadas e coquetelaria contemporânea. Discutimos ingredientes raros, métodos precisos e experiências sensoriais complexas. Mas por trás de toda essa elaboração ainda existe algo extremamente simples: alguém sentiu fome. Alguém sentiu sede.

Essa percepção aparece inclusive na cultura popular. Na música Comida, da banda Titãs, um verso direto atravessa gerações ao lembrar que “a gente não quer só comida”. A frase parece simples, mas aponta para algo essencial. Comer e beber nunca foram apenas respostas biológicas. Desde cedo esses gestos carregam desejo, convivência, identidade e significado.

Talvez seja justamente por isso que gastronomia e coquetelaria ocupam um lugar tão particular na vida social. Ambas nasceram de impulsos primitivos do corpo humano, mas ao longo do tempo foram sendo carregadas de cultura, memória e intenção. Continuamos com fome e continuamos com sede. A diferença é que aprendemos a transformar essas necessidades em algo maior.

No fundo, cozinhar e preparar um coquetel são duas maneiras de responder ao mesmo impulso humano. A fome nos leva para a cozinha. A sede nos leva para o balcão. E em ambos os casos acontece algo que vai além da sobrevivência: alguém transforma uma necessidade básica em comida, bebida e encontro.

Talvez, no fim das contas, a pergunta continue aberta. Gastronomia e coquetelaria são formas sofisticadas de arte, cultura e convivência. Mas será que, em sua origem mais profunda, não continuam sendo apenas aquilo que sempre foram desde o início da história humana: maneiras elaboradas de responder a algo muito simples? Fome. E sede.

* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos, atuando na criação e execução de coquetéis e na valorização da cultura da coquetelaria.

** Chef de cozinha e professor, com trajetória marcada pela fusão entre a gastronomia nipo-italiana e a culinária brasileira.

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