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18 de junho, de 2026 | 07:00

A venda da Copasa reacende o debate sobre patrimônio público e interesse coletivo

Miguel dos Santos *

Divulgação
Empresa passa a ser comandada pela mesma empresa que assumiu a Sabesp em São Paulo Empresa passa a ser comandada pela mesma empresa que assumiu a Sabesp em São Paulo

A privatização da Copasa reacendeu um debate que vai muito além do mercado financeiro. Para muitos críticos da operação, Minas Gerais abriu mão do controle de uma das companhias de saneamento mais bem avaliadas do Brasil, colocando em risco um patrimônio estratégico construído ao longo de décadas. A preocupação que fica é se investidores privados vão manter melhorias em municípios pobres, onde a empresa opera de forma deficitária.

Um dos pontos mais contestados é o momento escolhido pelo governo estadual para concluir a operação. A venda ocorreu dia 10/6, na véspera de um feriado, circunstância que, na avaliação dos opositores, reduziu a visibilidade pública de uma decisão de grande impacto para os mineiros. E o mais curioso: a venda ocorreu sem que os mineiros fossem consultados, uma vez que o então governador Romeu Zema, fez aprovar na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) uma Emenda à Constituição 117 (originada da PEC 24/2023), que retirou a obrigatoriedade de consulta pública a respeito da venda da Copasa e de qualquer outra estatal.

As críticas também se concentram na precificação do negócio. Segundo dados divulgados pela própria operação, a oferta pública movimentou R$ 8,38 bilhões, com preço final de R$ 49,03 por ação. O Grupo Equatorial adquiriu 30% do capital total da Copasa em uma transação de R$ 5,59 bilhões, tornando-se o principal acionista da companhia. Fico claro que o valor ficou aquém do potencial econômico da empresa e das expectativas apresentadas quando a privatização começou a ser defendida.

A percepção é de que o governo iniciou o processo com uma avaliação mais elevada, mas acabou reduzindo o preço até viabilizar a negociação. Essa estratégia alimenta acusações de que um ativo público relevante teria sido vendido por um montante considerado baixo diante de sua importância e desempenho histórico.

“O argumento central que precisamos entender é
que água e saneamento básico não podem ser
tratados apenas como ativos financeiros”


Outro aspecto que desperta preocupação é o perfil do novo controlador. O Grupo Equatorial também assumiu o controle da Sabesp, em São Paulo. Para quem se opõe à privatização, relatos de aumento nas reclamações sobre abastecimento e qualidade dos serviços naquele estado servem como alerta sobre os possíveis efeitos de mudanças semelhantes em Minas Gerais.

O argumento central que precisamos entender é que água e saneamento básico não podem ser tratados apenas como ativos financeiros. Quando um serviço essencial passa a ser orientado prioritariamente pela lógica do lucro, cresce o receio de aumento de tarifas, redução de investimentos em áreas menos rentáveis e piora no atendimento à população.

O debate ganha ainda mais relevância diante das futuras concessões municipais. Em cidades como Ipatinga, onde o contrato anterior com a Copasa não está mais em vigor e um novo processo de concessão está em andamento, qualquer empresa poderá disputar a prestação dos serviços, inclusive a companhia sob seu novo controle acionário. Em outras cidades, entretanto, os contratos terão que passar por uma revisão.

“Fazia sentido privatizar uma empresa reconhecida
por sua eficiência e importância para o saneamento mineiro?”


Embora o Estado de Minas Gerais tenha mantido 5% de participação e uma golden share, que lhe garante poder de veto em determinadas decisões estratégicas, o comando efetivo da empresa passou para a iniciativa privada. Também foi firmado um acordo de acionistas entre o Estado e o Grupo Equatorial para estabelecer regras de governança e acompanhamento estratégico.

Apesar disso, permanece a pergunta que motivou toda a controvérsia: fazia sentido privatizar uma empresa reconhecida por sua eficiência e importância para o saneamento mineiro? A resposta será construída nos próximos anos, quando os efeitos da mudança puderem ser medidos não apenas pelos números do mercado, mas principalmente pela qualidade dos serviços prestados à população.

* Economista

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