17 de junho, de 2026 | 08:00
Padres subversivos em Coronel Fabriciano
Antonio Nahas *
Padres Subversivos é o nome do livro do professor fabricianense Amir José de Melo, que escreveu uma obra crítica e muito bem embasada sobre a história de oito padres católicos processados nos anos 1970 e levados a julgamento na Justiça Militar. São eles Cícero de Castro, Geraldo Monção, Petrus Johannes, José Nazareno, José Bertollo, Joseph de Mann, Wilson Moreira e o saudoso padre José Jorge Abdala, cuja vida sempre me encantou.O livro unifica, em sua narrativa, dois movimentos paralelos e totalmente divergentes: de um lado, o regime militar instaurado em 1964, seu recrudescimento a partir de 1968 e a interiorização da repressão, que chega com força ao Vale do Aço; de outro, as modificações e polêmicas vividas pela Igreja nesse período.
Os militares instauraram um inquérito e, posteriormente, levaram os oito padres a julgamento na 4ª Circunscrição Judiciária Militar, em Juiz de Fora.
As provas da acusação consistiram em testemunhas que ouviram relatos e sermões, além de artigos e panfletos religiosos, sobretudo envolvendo os preparativos para a Semana da Pátria de 1969. A data era avidamente esperada pela população, e as escolas se preparavam para o desfile. Mesmo assim, os padres, cumprindo seu papel, levantaram suas indagações:
7 de setembro. Festa da Independência... Num país livre pode-se expressar pensamentos; pode-se falar e não é preciso cochichar...”, publicou o Folheto Litúrgico O FATO em 1969.
Os religiosos foram vigiados, seguidos e, depois, denunciados, sobretudo em razão da perseguição movida pelo capitão da reserva Carlos Fassheber, de triste memória, que tanto prejudicou a nossa história e era chefe do Serviço de Vigilância da Usiminas.
"Os militares instauraram um inquérito e, posteriormente, levaram os oito padres a julgamento"
A Igreja Progressista Junto ao posicionamento político dos padres, surgiram muitas outras críticas sobre suas práticas pastorais, o que levou a divergências e troca de acusações até mesmo entre eles.
Isso porque, à época, ocorriam debates no interior da Igreja decorrentes do Concílio Vaticano II, realizado em 1965, quando ganharam força as ideias de uma Igreja progressista. Essas mudanças foram impulsionadas pela Conferência de Medellín, realizada em 1968, que consolidou as ideias de uma Igreja renovada já discutidas naquele concílio.
Ao mesmo tempo, constituía-se a Diocese de Itabira-Coronel Fabriciano, em 1965, desvinculando a região das dioceses de Mariana e Diamantina. O Vale do Aço ganharia voz e influência dentro da Igreja.
O bispo responsável por ela foi Dom Marcos Noronha, que participou do Concílio Vaticano II e voltou muito entusiasmado e cheio de aspirações com as possibilidades de aplicação das novas ideias aqui no Vale do Aço”. Dom Marcos elaborou o Plano Pastoral da Diocese, que teve como objetivo a construção de uma Igreja diferenciada e participativa em todas as dimensões, incluindo o despertar para a militância dos leigos.
A pastoral implantada na Diocese avançou na direção de uma Igreja politicamente engajada e preocupada com questões sociais. Essa postura criava atritos tanto com o regime militar quanto dentro da própria Igreja, pois a alta hierarquia católica apoiara o golpe de 1964 e continuava a defender uma Igreja fechada em si mesma, voltada para valores tradicionais.
"Os acusados não foram presos nem torturados. Foram absolvidos graças à defesa feita pelo grande advogado Emílio Galo"
Os padres foram acusados de celebrar missas sem batina, usando blusões e calças. Outros os acusavam, integrantes da ala progressista, de estimular casais ao concubinato, suspender sacramentos e deturpar os Evangelhos em suas pregações.
Amir relata que: O ano de 1968 é o marco. A partir de então, já naquele ano, a Semana Santa limitou-se às atividades litúrgicas internas dos templos, bastante simplificada, e a única procissão foi a do enterro. A partir de 1969, nem mesmo esta procissão aconteceu”.
Os acusados não foram presos nem torturados. Foram absolvidos graças à brilhante defesa feita pelo grande advogado Emilio Galo, que contou com assessoria em Direito Canônico do padre redentorista Lelis Lara, que mais tarde se tornaria o bispo Dom Lara.
Contribuiu para a absolvição a posição da Usiminas. Tanto o diretor de Relações Industriais e futuro presidente da empresa, Ademar da Carvalho Barbosa, quanto o chefe do Departamento Jurídico da Usiminas, Alfredo de Melo, depuseram em favor dos acusados. Ademar se apresentou como um dos apoiadores da vinda dos padres do Trabalho para o Vale do Aço, com o objetivo de implementar a Universidade do Trabalho. Essa foi a obra de um dos acusados, padre José Maria De Man, que resultou posteriormente na Unileste, instituição que muito contribuiu para o desenvolvimento da região.
Certamente, a empresa tinha suas razões para se desvincular de qualquer indício de perseguição aos padres no Vale e optou por desmoralizar e se desvincular de Fassheber, responsável pela delação dos religiosos. A lembrança do massacre de Ipatinga ainda pairava no ar.
Vale recordar também a atitude corajosa e digna do padre Abdala: não se acovardou perante seus inquisidores, declarou-se socialista e afirmou posteriormente que gostaria de ter sido preso, pois sua prisão só engrandeceria a Igreja.
A história dos padres de Fabriciano se soma à de outros religiosos Brasil afora que seguiram caminhos semelhantes. Alguns, como Frei Betto, aderiram à luta armada, foram presos e torturados. Outros, como Ignacio Hernandez, morador de Contagem, abandonaram a batina e se tornaram operários e professores. São histórias de vida fascinantes, que nos fazem pensar. Um grande livro.
* Economista, escritor, empresário. Morador do Vale do Aço.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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