12 de junho, de 2026 | 07:30
Violência contra a mulher e o mito do bom pai agressivo
Mayra Vieira Dias *
Esta semana recebi a confirmação mais dolorosa de uma reflexão que há muito tempo me acompanha: "um homem que não respeita a mãe de seus filhos dificilmente pode ser considerado um pai seguro".Um homem já condenado por violência psicológica e perseguição contra a mãe de uma criança agora será denunciado por estupro da própria filha, uma menina de apenas cinco anos. Como mulher e advogada, a notícia me atravessou profundamente.
Quando atuei no caso de violência doméstica, concentrei meus esforços na proteção da mulher. Lembro com nitidez de uma pergunta que fiz à mãe. Quis saber se ela acreditava que aquele homem seria capaz de fazer algum mal à filha. A resposta foi negativa. Ela acreditava que apesar da violência psicológica que sofria ele não faria mal a criança. Durante décadas, a sociedade construiu a ideia de que um homem pode ser um companheiro abusivo e, ao mesmo tempo, um pai adequado. Criou-se uma espécie de compartimentalização moral que separa a violência praticada contra a mulher da relação mantida com os filhos.
Hoje penso diferente. Quem humilha, controla, ameaça e viola a dignidade de uma mulher já demonstra desprezo pelos limites e pela integridade do outro. E uma criança é ainda mais vulnerável.
A violência doméstica não pode ser tratada como um problema restrito ao casal. Ela deve ser vista como um sinal de risco para toda a família. Filhos que convivem com agressores precisam estar no centro da análise das autoridades e do sistema de proteção.
A experiência mostra que muitas tragédias não surgem do nada. Elas são precedidas por sinais. Comportamentos abusivos, perseguições, ameaças e agressões emocionais costumam ser vistos como episódios isolados quando, na realidade, podem integrar uma escalada de violência muito mais ampla.
A experiência mostra que muitas tragédias
não surgem do nada. Elas são precedidas por sinais”
Nem todo agressor de mulheres cometerá violência contra os filhos. Mas ignorar os sinais que a violência doméstica revela pode ter consequências irreparáveis. A proteção das crianças exige que deixemos de separar, de forma automática, o homem violento do pai que ele afirma ser.
Precisamos urgentemente rever a forma como as instituições enxergam a violência doméstica. A violência contra a mulher não pode ser tratada como um conflito isolado do ambiente familiar. Ela é um alerta de risco para todos ao redor, especialmente para os filhos. Essa reflexão é dura. Mas necessária.
* Advogada, sócia do escritório Calazans e Vieira Dias, especialista na defesa de vítimas de fraudes financeiras e atua no IPGE, organização dedicada à proteção de investidores e consumidores lesados por práticas fraudulentas no mercado financeiro
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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