11 de junho, de 2026 | 15:00

Minas Gerais lidera ranking nacional de processos de LGBTQIAPN+fobia com 169 registros, aponta Escavador 

Divulgação
Levantamento divulgado pelo Escavador, durante o ''Mês do Orgulho LGBTQIAPN+'', aponta 541 processos relacionados à LGBTQIAPN+fobia registrados entre 2023 e 2026 no BrasilLevantamento divulgado pelo Escavador, durante o ''Mês do Orgulho LGBTQIAPN+'', aponta 541 processos relacionados à LGBTQIAPN+fobia registrados entre 2023 e 2026 no Brasil

Prestes a completar sete anos da criminalização de atos de homofobia e transfobia no Brasil, os delitos relacionados à LGBTQIAPN+fobia permanecem enquadrados na Lei 7.716/89, conhecida como Lei do Racismo. 

A decisão histórica do Supremo Tribunal Federal, que faz aniversário neste sábado (13) reacendeu o debate sobre a ausência de dados específicos quanto aos crimes de LGBTQIAPN+fobia no Brasil. Isso porque, pela legislação vigente, essas ocorrências continuam a ser classificadas como “crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor” (Lei 7.716/89), dificultando a produção de estatísticas próprias sobre homofobia, transfobia e lesbofobia. 

Nesse contexto, um levantamento recente do Escavador identificou 361 processos relacionados à “intolerância ou injúria por orientação sexual” e 180 casos de “intolerância e/ou injúria por identidade ou expressão de gênero”, totalizando 541 processos entre os anos de 2023 e 2026. De acordo com Dalila Pinheiro, Coordenadora Jurídica e DPO do Escavador, o número reduzido de ações identificadas nos tribunais está diretamente ligado à classificação genérica atribuída aos crimes de LGBTQIAPN+fobia. 

“Em 13 de junho de 2019, o Plenário do STF concluiu que, enquanto o Congresso Nacional não editasse uma legislação específica, as condutas homofóbicas e transfóbicas deveriam ser enquadradas na tipificação da Lei do Racismo. À primeira vista, a decisão colocou o Brasil como o 43º país do mundo a criminalizar a homofobia, segundo a ILGA. No entanto, sete anos depois, ainda não conseguimos traçar um panorama definitivo sobre esses crimes: aumentaram, diminuíram ou permaneceram estagnados? A limitação dos dados disponíveis é o principal fator que levanta dúvidas sobre a dimensão real dessas ocorrências - e sobre como elas vêm sendo tratadas pelas autoridades”, afirma. 

O estudo aponta que a quantidade de processos envolvendo LGBTQIAPN+fobia cresceu de forma expressiva nos últimos três anos e meio. Segundo o levantamento do Escavador, as ações somadas registraram apenas 22 processos em 2023, número que subiu para 40 no ano seguinte. A escalada mais significativa, porém, ocorreu em 2025, quando 265 ações foram movidas nos tribunais brasileiros - um salto de 562% em relação ao ano anterior. 

Já em 2026, os dados apontam para a manutenção da tendência de alta. Apenas nos primeiros cinco meses do ano, 214 processos já foram registrados, número que representa 80% de todas as ações contabilizadas ao longo de 2025. 

“Como a equiparação da homofobia ao racismo foi feita via STF (e não por uma lei criada do zero pelo Congresso), muitos servidores de tribunais e delegados ainda cadastram processos de homofobia sob o código genérico da Lei 7.716/89 (que é o 3613). A ausência de uma tipificação específica e mais detalhada para os casos de LGBTQIAPN+fobia segue como uma preocupação. Sem dados consolidados e devidamente registrados, o Brasil corre o risco de sustentar internacionalmente a imagem de defensor dos direitos LGBTQIAPN+ sem, na prática, oferecer mecanismos efetivos de monitoramento, enfrentamento e proteção às vítimas dessas violências”, destaca Dalila. 

Por estado
O levantamento identificou os estados com maior recorrência de ações judiciais envolvendo casos de LGBTQIAPN+fobia entre 2023 e 2026.

O estado de Minas Gerais lidera o ranking nacional, com 170 processos registrados no período, seguido pelo Ceará, com 87 ações, e pelo Distrito Federal, que contabiliza 64 casos. São Paulo aparece na sequência, com 39 processos, enquanto Sergipe soma 28 registros e a Bahia, 28.

Os dados também apontam ocorrências em Goiás (19) e Rio de Janeiro (13), além de Paraná (8), Amapá (7), Rio Grande do Sul (5) e Acre (5). Outras federações como Rondônia (16), Maranhão (7), Mato Grosso (6) e Santa Catarina (6) também registraram ações no período analisado. 

“Em 2019, o STF surgiu com o entendimento de que homofobia e transfobia precisavam ser equiparadas e punidas nos mesmos moldes dos crimes de racismo. Já em 2023, a decisão foi equiparar ofensas contra LGBTQIAPN+ ao crime de injúria, que é uma ampliação do entendimento em 2019 – e aí é que nasce o problema. Muitas vezes os processos de LGBTfobia podem estar dentro de categorias genéricas como injúria e crimes contra a honra”, conclui Dalila.

Confira a lista de processos por estado (entre 2023 e 2026):


Minas Gerais MG - 170
Ceará CE - 87
Distrito Federal DF - 64
São Paulo SP - 39
Sergipe SE - 28
Bahia BA - 28
Goiás GO - 19
Rondônia RO - 16
Rio de Janeiro RJ - 13
Tocantins TO - 10
Paraná PR - 8
Amapá AP - 7
Maranhão MA - 7
Santa Catarina SC - 6
Mato Grosso MT - 6
Acre AC - 5
Rio Grande do Sul RS - 5
Paraíba PB - 3
Mato Grosso do Sul MS - 3
Rio Grande do Norte RN - 2
Espírito Santo ES - 2
Amazonas AM - 2
Pará PA - 1
Pernambuco PE - 2
Piauí PI - 1
Não informado / Outros - 6

Distribuição de casos por região:

Sudeste - 224
Nordeste - 158
Centro-Oeste - 92
Norte - 41
Sul - 19
Não informado / Outros - 7
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