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11 de junho, de 2026 | 07:25

A Geração Z é menos inteligente ou apenas desafia conceitos ultrapassados?

Roberto Corazza *


Pela primeira vez em mais de um século de medições, estudos internacionais apontam uma desaceleração nos índices médios de QI entre os mais jovens. O fenômeno, observado na Europa, nos Estados Unidos e em outras economias desenvolvidas, levou parte da imprensa à conclusão de que a Geração Z estaria se tornando menos inteligente que as gerações anteriores.

A interpretação, porém, ignora uma transformação profunda na forma como a inteligência é compreendida pela ciência, pela educação e pelo mercado de trabalho.

Durante mais de 120 anos, o teste de quociente de inteligência (QI), criado em 1905 pelo psicólogo francês Alfred Binet, foi a principal ferramenta para medir habilidades ligadas ao raciocínio lógico-matemático e à linguagem. O instrumento influenciou sistemas educacionais, processos seletivos e políticas públicas em diversos países.

Entretanto, o teste nunca pretendeu medir toda a complexidade da inteligência humana. Ele avalia apenas determinadas competências cognitivas e deixa de contemplar habilidades que influenciam o desempenho acadêmico, profissional e social.

Essa limitação passou a ser questionada de forma mais contundente em 1983, quando o psicólogo Howard Gardner, da Universidade Harvard, publicou a obra Frames of Mind. Sua teoria das inteligências múltiplas defende que os seres humanos possuem pelo menos oito formas distintas de inteligência, entre elas a linguística, a lógico-matemática, a musical, a interpessoal e a intrapessoal.

Os avanços da neurociência reforçaram essa visão ao demonstrar a neuroplasticidade, capacidade do cérebro de desenvolver habilidades ao longo da vida.

Nesse contexto, surgiram ferramentas como o MIDAS, desenvolvido por Branton Shearer, colaborador dos estudos de Gardner. No Brasil, a metodologia foi adaptada pelo professor Roberto Corazza sob o nome A.M.I. — Avaliação das Múltiplas Inteligências, sendo utilizada para identificar talentos frequentemente invisíveis aos modelos tradicionais de avaliação.

"A interpretação ignora uma transformação profunda
que vem ocorrendo na forma como a inteligência é compreendida"


O mercado de trabalho também passou a valorizar competências além do conhecimento técnico. Pesquisa da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), em parceria com a consultoria McKinsey, apontou que cerca de 70% das maiores empresas globais já incorporaram habilidades socioemocionais em seus processos de contratação e promoção.

Empresas como Itaú, Nubank, Google, Amazon, Microsoft, Meta, Santander e Coca-Cola valorizam competências como comunicação, colaboração, criatividade, liderança, adaptabilidade e inteligência emocional. O levantamento mostra que profissionais capazes de trabalhar em equipe, resolver problemas complexos e lidar com mudanças constantes apresentam melhor desempenho em ambientes impactados pela automação e pela inteligência artificial.

Os números ajudam a explicar uma aparente contradição. Se a Geração Z apresenta resultados inferiores em alguns indicadores tradicionais de QI, como entender o crescente número de empreendedores, criadores de conteúdo, desenvolvedores de tecnologia e fundadores de startups bem-sucedidos antes dos 30 anos?

Trata-se de uma geração que cresceu conectada, interagindo com pessoas de diferentes países, produzindo conteúdo para audiências globais e administrando comunidades digitais. Essas experiências fortalecem inteligências interpessoais, intrapessoais e espaciais, cada vez mais valorizadas em ambientes que exigem inovação constante.

"O diferencial passa a estar em capacidades como empatia,
criatividade, liderança, julgamento ético, negociação e visão estratégica"


Ao mesmo tempo, a inteligência artificial alterou o valor relativo de diversas competências. Informações podem ser acessadas instantaneamente e cálculos complexos são feitos por sistemas automatizados. O diferencial passa a estar em capacidades como empatia, criatividade, liderança, julgamento ético, negociação e visão estratégica.

Diante desse cenário, talvez a questão não seja se a Geração Z é mais ou menos inteligente que as gerações anteriores, mas se ainda utilizamos instrumentos concebidos para uma realidade de 1905 para avaliar jovens que vivem em um mundo radicalmente diferente.

O verdadeiro debate está na necessidade de reconhecer que a inteligência humana é mais ampla, diversa e dinâmica do que qualquer número isolado pode representar.

* Professor, especialista em Múltiplas Inteligências e idealizador do projeto AMI — Avaliação das Múltiplas Inteligências - no Brasil


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