05 de junho, de 2026 | 07:00
O Martini e a canonização de um símbolo: quando um coquetel se torna maior do que a própria coquetelaria
Abner Benevenuto Araújo Paixão *
Poucos coquetéis alcançaram o status cultural do Dry Martini. Seu nome atravessou gerações, ocupou as telas do cinema, frequentou hotéis históricos, tornou-se presença constante na literatura especializada e passou a ser associado à elegância, ao refinamento e ao domínio técnico. Para muitos profissionais e entusiastas, o Martini não é apenas uma bebida, mas uma referência. Em alguns casos, parece até mesmo uma medida pela qual toda a coquetelaria é julgada.Essa centralidade desperta uma questão interessante: como um único coquetel passou a ocupar tamanho espaço dentro de uma tradição construída por dezenas de famílias, técnicas e estilos? A pergunta não busca diminuir a importância do Martini. Sua relevância histórica é indiscutível. O que merece atenção é a transformação de um clássico em um símbolo tão poderoso que, por vezes, parece representar sozinho um universo muito maior do que ele próprio.
A história da coquetelaria é vasta. Ela não nasce com o Martini nem encontra nele seu único ápice. Ao longo de séculos, diferentes povos e culturas desenvolveram formas de combinar destilados, vinhos, açúcares, especiarias, frutas e ervas. Muito antes de o Martini se consolidar como ícone, famílias inteiras já ajudavam a definir os fundamentos da bebida mista.
Os Punches estabeleceram uma lógica coletiva de consumo e equilíbrio. Os Sours consolidaram uma das estruturas mais influentes da coquetelaria clássica: a relação entre álcool, acidez e dulçor. Collins, Fizzes, Daisies, Flips, Cobblers, Juleps e Highballs ampliaram repertórios técnicos e sensoriais que permanecem vivos até hoje. Apesar disso, poucas dessas famílias alcançaram o mesmo prestígio simbólico do Martini.
O que merece atenção é a transformação
de um clássico em um símbolo tão poderoso”
Talvez a explicação esteja menos na composição da bebida e mais na construção de sua imagem. Ao longo do século XX, o Martini foi associado à sofisticação, ao consumo de luxo, à vida urbana e a padrões de comportamento ligados às elites econômicas e culturais. Sua presença constante em filmes, campanhas publicitárias, hotéis e restaurantes ampliou sua influência para além dos bares. Poucos coquetéis foram tão bem-sucedidos em transformar uma receita em símbolo cultural.
O ponto central da questão não é a relevância do Martini, mas a forma como ela costuma ser apresentada. Em livros, cursos e discussões profissionais, é comum encontrá-lo tratado como síntese da excelência coqueteleira. Essa abordagem tende a concentrar em um único coquetel atributos que pertencem a uma tradição muito mais ampla.
Quando uma bebida passa a ser utilizada como principal referência para medir conhecimento, técnica ou sofisticação, outras contribuições históricas acabam recebendo atenção secundária. Isso levanta uma questão importante: quais critérios devem ser considerados ao avaliar a importância de um coquetel? Influência cultural? Popularidade? Impacto técnico? Capacidade de adaptação ao longo do tempo?
Sob a perspectiva simbólica, o Martini ocupa uma posição privilegiada e dificilmente contestável. Entretanto, quando a análise se desloca para a evolução estrutural da profissão, o cenário se torna mais complexo. Diversas famílias contribuíram de forma decisiva para a formação das técnicas, dos equilíbrios sensoriais e dos modelos de consumo que sustentam a coquetelaria contemporânea.
Os Sours influenciaram gerações de receitas e continuam servindo de base para inúmeros clássicos e contemporâneos. Da mesma forma, os Punches ajudaram a moldar hábitos de consumo que antecedem grande parte da coquetelaria moderna. Reconhecer isso não diminui o Martini. Apenas amplia a perspectiva.
Outro aspecto relevante é a relação entre reconhecimento técnico e construção de prestígio. Com frequência, o Martini é apresentado como uma espécie de exame definitivo para bartenders. Por possuir poucos ingredientes e não oferecer margem para esconder erros, exige precisão na escolha dos produtos, controle de temperatura, diluição adequada e equilíbrio aromático.
Trata-se de uma avaliação legítima. No entanto, transformar essas competências em parâmetro central para medir excelência profissional pode produzir uma visão limitada da atividade. A coquetelaria contemporânea envolve conhecimentos que vão muito além disso, como controle de acidez, fermentação, clarificação, técnicas de extração, análise sensorial e harmonização.
Há também uma dimensão cultural que ajuda a explicar esse fenômeno. Ao longo do tempo, o Martini deixou de ser apenas uma receita para se tornar um marcador simbólico dentro da cultura dos bares. Sua presença recorrente em livros, filmes e discursos especializados contribuiu para associá-lo a ideias de sofisticação, tradição e conhecimento técnico.
A questão surge quando essas referências passam a concentrar atenção desproporcional em relação a outros elementos igualmente importantes. Aos poucos, aquilo que deveria funcionar como porta de entrada para uma tradição passa a ser confundido com a própria tradição.
A coquetelaria sempre foi maior do que qualquer receita isolada. Sua história foi construída por movimentos culturais, transformações econômicas, avanços tecnológicos, mudanças de hábitos de consumo e pela circulação de ingredientes entre diferentes regiões do mundo. Cada geração acrescentou novas camadas de significado, e cada família de bebidas contribuiu para ampliar o repertório técnico e sensorial que conhecemos hoje.
Talvez o Martini mereça todo o reconhecimento que recebeu ao longo do último século. Não se trata de questionar sua relevância, mas de refletir sobre os efeitos produzidos quando um ícone passa a concentrar atenção desproporcional em relação ao conjunto do qual faz parte. Ao contar a história da coquetelaria, estamos observando a paisagem completa ou apenas o monumento mais visível?
Talvez não exista uma resposta definitiva. Mas a própria pergunta já revela algo importante: nenhum símbolo, por mais poderoso que seja, consegue representar sozinho a totalidade de uma tradição. E talvez a maturidade de uma cultura esteja justamente na capacidade de admirar seus monumentos sem perder de vista a paisagem que os cerca.
* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos, atuando na criação e execução de coquetéis e na valorização da cultura da coquetelaria.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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