04 de junho, de 2026 | 07:00
Reforma Tributária é assunto de empresário
Walter Teixeira *
Quando aceitei o convite para escrever esta coluna, assumi um compromisso: tratar de gestão, números, margem, lucro, governança e crescimento a partir de uma pergunta simples: o que o empresário pode fazer com isso na prática? Por isso, escolhi começar pela Reforma Tributária.Não para fazer uma análise técnica da lei. Nem para diminuir papel do contador ou do advogado; pelo contrário, eles serão indispensáveis. Mas para reforçar que, pelo impacto no negócio, a Reforma Tributária é assunto de empresário, de dono.
Grandes consultorias como EY, PwC, Deloitte, KPMG, Thomson Reuters e Falconi já alertam que a Reforma não pode ser ser tratada como um projeto da área fiscal, distante da estratégia da empresa.
Embora a maior parte das regras já esteja definida, ainda existem pelo menos 22 pontos relevantes em regulamentação, envolvendo temas como notas fiscais, split payment, valor de mercado, sistemas, plataformas digitais e operações entre empresas do mesmo grupo.
Parece técnico. Mas, se o tema é nota fiscal, falamos de faturamento. Se é split payment, falamos de caixa. Se é valor de mercado, falamos de contratos e governança. Se é sistema, falamos de ERP, processos e controle. Dos pontos ainda em discussão, pelo menos oito a dez frentes podem impactar diretamente a gestão ou o caixa da empresa.
Existe ainda outro ponto sensível. A Reforma foi desenhada para preservar a carga tributária total sobre o consumo. Mas média nacional não paga conta de empresa. Uma coisa é a carga total do país; outra é o impacto em cada negócio, setor e operação.
Algumas empresas poderão ganhar eficiência. Outras sentirão aumento de carga tributária, especialmente no setor de serviços. Sem preparo, o empresário pode ser surpreendido por uma conta que não cabe na margem. E, quando isso acontece, o problema deixa de ser tributário e passa a ser de sobrevivência.
A Reforma foi desenhada para preservar
a carga tributária total sobre o consumo”
A Reforma não chega sozinha. Também será preciso considerar o novo Imposto de Renda de 10% sobre a renda global de pessoas físicas que recebem acima de R$ 50 mil por mês (R$ 600 mil por ano) e a proposta de fim da escala 6x1, com redução da jornada para 40 horas sem redução salarial. Somados, esses temas podem aumentar a pressão sobre retirada dos sócios, folha de pagamento e custos.
O empresário não precisa virar especialista tributário. Mas precisa liderar a conversa e colocar contador, advogado, financeiro, comercial, tecnologia e operação na mesa. O impacto final não aparece apenas na guia de imposto. Aparece no caixa, no preço, na margem e na competitividade.
Por isso, cada empresa precisará fazer simulações de cenários tributários. Não basta comparar alíquotas. É preciso avaliar a carga efetiva, considerando créditos, débitos, regime tributário, clientes, fornecedores, contratos, fluxo de caixa e margem.
Empresas do Simples Nacional terão uma decisão importante entre 1º e 30 de setembro de 2026: escolher se recolherão IBS e CBS dentro do regime unificado ou pelo regime regular. Essa escolha pode afetar preço, crédito para clientes, competitividade e caixa.
No lucro presumido e no lucro real, será necessário avaliar créditos, contratos, precificação, fornecedores, sistemas e rentabilidade.
O empresário deve começar por perguntas simples:
meus cadastros estão corretos? Meu sistema está preparado?”
Muitos empresários sabem que a Reforma é importante, mas ainda não transformaram essa preocupação em ação. Existe diferença entre acompanhar o tema e ter cadastros revisados, sistemas preparados, contratos analisados e cenários simulados.
Muitos erros poderão surgir antes da apuração do imposto: em um cadastro errado, uma classificação fiscal incorreta, uma nota fiscal mal emitida ou um sistema sem ajuste. O resultado pode ser crédito perdido, custo maior, preço errado, margem menor e perda de competitividade.
Na prática, o empresário deve começar por perguntas simples: meus cadastros estão corretos? Meu sistema está preparado? Minha equipe sabe emitir documentos fiscais com segurança? Meus contratos permitem revisão de preço? Conheço minha margem real? Minha estrutura societária é adequada? Já simulamos os impactos?
A Reforma pode ser uma oportunidade para quem tem números confiáveis, processos ajustados e gestão próxima da realidade. Mas pode representar alto risco para quem ainda decide no improviso.
Esperar todas as respostas para só então agir pode ser um erro caro. A partir de 3 de agosto de 2026, sistemas despreparados poderão gerar rejeição automática de documentos fiscais pela Sefaz. Entre 1º e 30 de setembro de 2026, empresas do Simples Nacional deverão definir como recolher IBS e CBS, decisão que pode afetar preço, caixa e competitividade.
A Reforma Tributária é um assunto técnico, sim. Mas, acima de tudo, trata de preço, margem, contrato, sistema, crédito, lucro e competitividade. Por isso, é assunto de empresário.
* Empresário, mestre em Negócios Internacionais pela Must University, advogado, técnico em contabilidade, cofundador da NTW Contabilidade e Gestão Empresarial e da Tutoreanos Consultores de Negócios.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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