29 de maio, de 2026 | 07:25
Zygmunt Bauman e os dois pedágios da felicidade
Carlos Eduardo Lima Salzmann * Abner Benevenuto Araújo Paixão *
Na véspera da festa, a cidade muda de ritmo com a previsibilidade de um ritual conhecido. Luzes são instaladas, palcos montados e a promessa de alegria coletiva ocupa o espaço urbano como se fosse política pública temporária. Junto com ela, os preços também se organizam, obedientes ao calendário. Não se trata de aumento, garante o discurso recorrente, mas de experiência. Uma palavra ampla o suficiente para justificar quase tudo e questionar quase nada.O primeiro pedágio é concreto e facilmente identificável. Ele aparece no ingresso, na comida, na bebida e em cada produto que, fora daquele contexto, custaria menos e exigiria menos adjetivos. A gourmetização cumpre bem sua função: não altera substancialmente o que se vende, mas muda o modo como se apresenta. O milho deixa de ser milho, o espetinho ganha identidade e o refrigerante amadurece até virar drink. A transformação ocorre menos no sabor e mais na narrativa, cuidadosamente ajustada para tornar aceitável o novo valor.
A coquetelaria acompanha esse movimento com entusiasmo. Bebidas simples recebem nomes elaborados, ingredientes comuns são tratados como especiais e o copo, curiosamente, parece diminuir na mesma proporção em que o preço cresce. A promessa é sensorial, ainda que o gosto seja bastante reconhecível. O prazer, nesse caso, não está exatamente no que se bebe, mas na ideia de estar vivendo algo que, por definição, não poderia ser simples ou barato.
Esse mecanismo dialoga com as análises de Zygmunt Bauman sobre a sociedade de consumo, especialmente quando o autor aponta a transformação das experiências em mercadorias e da felicidade em algo episódico, instável e constantemente renovável. Não se consome apenas para satisfazer uma necessidade, mas para confirmar pertencimento, visibilidade e participação. O valor desloca-se do objeto para o significado social que ele carrega, ainda que por poucas horas.
A gourmetização cumpre bem sua função: não altera
o que se vende, mas muda o modo como se apresenta”
É nesse ponto que surge o segundo pedágio, menos visível e talvez mais eficiente. Ele se manifesta na necessidade de estar presente, de participar, de consumir para não ficar à margem da celebração. Não se paga apenas pelo produto, mas pela autorização simbólica de fazer parte do evento. A alegria segue sendo coletiva, mas o acesso a ela passa a ser condicionado, mediado por escolhas que já não são totalmente livres.
Nesse cenário, confunde-se com frequência o que é barato com o que é acessível. Barato pode significar precariedade, improviso e exclusão. Acessível, ao contrário, pressupõe equilíbrio entre preço, qualidade e respeito ao público. O problema não está em pagar mais por algo melhor, mas em pagar para não ser excluído da experiência, como se a felicidade exigisse comprovação financeira mínima.
Não se consome apenas para satisfazer uma necessidade,
mas para confirmar pertencimento, visibilidade e participação”
O público percebe essa dinâmica. Reclama, ironiza, comenta os excessos e segue adiante. Há um imposto invisível em operação, conhecido e amplamente aceito: o já que é só hoje”. Ele suspende o desconforto, normaliza o exagero e transforma exceção em prática recorrente. A festa acontece, o dinheiro circula e a crítica se dissolve no barulho, na música e na necessidade de aproveitar enquanto dura.
Quando o evento termina, as luzes se apagam, os preços retornam ao patamar habitual e a rotina reassume seu lugar. Fica a memória seletiva da celebração e a sensação de que tudo valeu a pena, ainda que a conta tenha sido alta. A alegria, como sempre, segue popular. A experiência, não necessariamente. E os dois pedágios permanecem ali, discretos, eficientes e prontos para a próxima festividade.
* Chef de cozinha e professor, com trajetória marcada pela fusão entre a gastronomia nipo-italiana e a culinária brasileira.
** Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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