26 de maio, de 2026 | 18:00
E foi assim...
Nena de Castro *

Olá, meus cinco queridos leitores! Hoje as lembranças revoluteiam na minha mente. Penso na menina vinda do Contestado onde a família morou por 10 anos, que tentava ambientar-se em GV, de onde tinham saído. Chegando em Valadares, ela, o pai e mãe embarcaram numa charrete que fazia ponto ali perto da praça onde hoje fica o monumento do XX Aniversário. Tantas pessoas, carros e ônibus no trânsito... Logo chegaram à Vila Bretas onde tinham uma casa em dois lotes enormes na esquina da Rua A com Rua Zero, hoje avenida Pascoal de Souza Lima com 13 de Maio.
A antiga Igreja de Lourdes era o templo religioso que a família passou a frequentar. Nela tinha missa todos os dias e ela se espantava, pois no interior, missa era coisa rara, levava meses para o padre voltar ... Tantas lojas, tanta novidade... A menina olhava tudo com olhos espantados, curiosos. No coração, diversos sonhos. No entanto, o maior: estudar em um Grupo Escolar de cidade grande! Não que fosse analfabeta, lia correntemente desde os 5 anos, lia tudo o que lhe caía nas mãos e sabia muitas coisas. Inclusive, na venda do pai, aos 9, lera a Bíblia de Gênesis a Apocalipse, (exceto Salmos e Provérbios), todos os livros de Histórias que encontrara, Literatura de Cordel e um livro que achou na rua, sem capa e sujo, que ela limpou como pôde e devorou uma história de uma briga entre famílias que se odiavam, dois adolescentes que se amavam e para ficar juntos, a mocinha simula sua morte por ingestão de veneno falso dado por um frade amigo , o rapazinho chega, pensa que está morta e se mata.
Ela acorda, vê o amado morto e tira a própria vida. A menina chorou, odiou o Frei Lourenço da ideia de jerico, tentou ler o nome do autor, algo como Saquespeare e só alguns anos depois descobriu que lera Romeu e Julieta” do bardo inglês Willian Shakespeare! Além disso, alguém deu à família um livro intitulado Programa de Admissão e claro ela leu e releu! (Antigamente, ao terminar a 4ª série Primária os alunos faziam um vestibulinho”, uma prova de Admissão para ingressar no Curso Ginasial).
Não tendo sido aceita no Grupo Escolar do antigo Bairro Santa Terezinha pois não tinha papeis comprobatórios dos estudos feitos na roça e a diretora pensou que fosse analfabeta, então o pai procurou a Escola Estadual Israel Pinheiro, na rua Marechal Floriano, que ficava coladinha no aeroporto, ali no bairro de Lurdes.
Ao saber que precisava da transferência, meu pai mesmo a redigiu com sua caneta Parker 51 em folha de papel almaço, colocou num envelope e entregou na secretaria! Aceita, fui matriculada no 3º ano primário, minha mãe costurou meu uniforme: blusa branca, saia azul-marinho com peitoral e alças cruzadas atrás.
Nos pés, alpargatas simples, cadernos levados nas mãos mesmo, um coraçãozinho batendo descontrolado ao se aproximar da escola. Ah, agora era estudante como as outras crianças, tinha uniforme, a sensação de pertencimento a deixava orgulhosa e feliz!
Dona Darcília, dona Iole (ainda viva, a quem tive a honra de enviar os livros que escrevi); no 4º ano, dona Cacilda e eu me lembro de Dona Lulude, dona Sonia, dona Maria Geralda, as serventes dona Joana, Balbina e Cila. Que dias felizes a menina viveu ali! Era a primeira aluna da sala e todo mês ganhava um prêmio, um livro ou uma caixa de lápis de cor! Eu era então uma Bugrinha da roça que sonhava e lia. Lia e sonhava. E sabia que ler e estudar muitoooo, era o caminho. E nada mais digo, a não ser que a minha história era ainda mais bonita que a de Robinson Crusoé”.
*Escritora e Encantadora de Histórias.
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