24 de maio, de 2026 | 07:25

Sou visto, logo existo, mesmo que seja sob lágrimas

Carlos Alberto Costa *

Arquivo DA

Um pastor que come carne com ouro, compara pobres que recebem bolsa família a porcos que comem lavagem. Se você usa mídias sociais, certamente viu o vídeo original ou a repercussão da publicação da postagem lacradora do pastor Cláudio Duarte, que também apresenta “stand-up comedy cristã” e atua como coach de relacionamento entre casais. A postagem gerou grande revolta nas redes sociais ao longo da semana ao comparar pessoas que dependem de programas sociais a porcos que comem lavagem. Em um vídeo, afirmou que “se os porcos votassem, o homem da lavagem sempre ganharia a eleição”, em referência ao Bolsa Família e a outros auxílios do governo. Lacrou, mas pagou um preço alto.

A fala foi vista por muitas pessoas como ofensiva e preconceituosa contra brasileiros pobres que enfrentam dificuldades econômicas - realidade que o pastor, ao que parece, desconhece de perto. O vídeo se espalhou rapidamente pelas redes sociais e provocou críticas de diferentes setores. Confesso que eu acompanhei esse pastor durante um período e já tinha percebido sua personalidade oculta. Sabia que um dia ele revelaria sua verdadeira face e o público perceberia isso.

Muitos internautas lembraram que, em maio de 2026, o pastor apareceu em um vídeo comendo no restaurante do chef turco Nusret Gökçe, o “Salt Bae”, famoso pelos cortes de carne folheados a ouro, com preços que variam de R$ 3.300 a R$ 7.600. Na época, diante das críticas pela ostentação, Duarte alegou que o alimento “não era ouro, era apenas sal” jogado pelo chef.

O episódio ganhou repercussão justamente pelo contraste entre o estilo de vida luxuoso exibido nas redes e o discurso voltado aos fiéis, baseado na humildade, na compaixão e na transformação interior tão defendidas por Jesus Cristo.
Agora, o mesmo pastor volta ao centro de uma nova polêmica ao comparar pessoas humildes a porcos e o Bolsa Família a lavagem - restos de comida dados a animais. O trecho que viralizou contém a seguinte declaração:
“Se os porcos votassem, o homem que carrega a lata sempre seria eleito, mesmo que ele tivesse abatido inúmeros porcos... A grande massa, na verdade, não escolhe com a cabeça, ela escolhe com o estômago...”, afirmou.

A reação foi imediata. Internautas, líderes religiosos e diferentes segmentos da sociedade repudiaram a fala, apontada como desumanizadora e insensível à realidade de milhões de brasileiros em situação de vulnerabilidade.
Depois da repercussão negativa, Cláudio Duarte afirmou que o vídeo seria uma montagem produzida por Inteligência Artificial. O remendo saiu pior que a encomenda: a gravação original havia sido publicada no próprio perfil do pastor.

A controvérsia reacendeu debates sobre ética religiosa e a postura de líderes espirituais ao abordar pobreza, distribuição de renda e política. O teólogo Alan Gentil foi cirúrgico: “Qual é a diferença entre o porco que vota no dono da lavagem e a ovelha que entrega o dízimo para o pastor que come bife banhado a ouro em Dubai? Eu diria que os porcos, pelo menos, recebem a lavagem. As ovelhas recebem só a promessa de um pasto que nunca chega. Sabe o que é mais irônico? Quem contou a fábula dos porcos é pastor e também carrega umas latas - só que de carvão, para a próxima carne de cordeiro. A plateia está ocupada demais aplaudindo a sabedoria dele”.

De forma clara, esse pastor vive em um ecossistema que se alimenta da polêmica e do escândalo, entorpecendo a plateia. Isso é muito bem explicado em Modernidade Líquida, de Zygmunt Bauman. Leitura obrigatória para quem deseja compreender os tempos atuais, a obra de Bauman mostra como a busca por atenção nas redes sociais se transformou em moeda de troca. Pessoas que vivem do escândalo convertem suas próprias crises e polêmicas em mercadorias de consumo rápido, operando dentro da lógica de que “ser visto é existir”, mesmo que suas falas e comportamentos gerem lágrimas.

* Professor aposentado

Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário