22 de maio, de 2026 | 07:00
A política do caos: o modus operandi da extrema direita no mundo
Marcelo Aith *
A ascensão contemporânea da extrema direita constitui um dos fenômenos políticos mais relevantes das últimas décadas. Sua expansão em diferentes países não decorre apenas da existência de pautas conservadoras, nacionalistas ou de direita, posições legítimas em sociedades democráticas. O que chama atenção é a consolidação de um método político marcado pela radicalização do discurso público, pela exploração do ressentimento social e pela transformação do conflito em instrumento permanente de mobilização. Em muitos casos, mais do que apresentar projetos consistentes de reorganização social, determinados movimentos parecem retirar força da própria instabilidade que ajudam a produzir.
A política democrática pressupõe disputa de ideias, divergência e alternância de poder. O problema surge quando o adversário deixa de ser visto como alguém que sustenta posições diferentes e passa a ser tratado como ameaça moral absoluta. Nesse cenário, a divergência é substituída pela hostilidade permanente, e o debate cede espaço à guerra simbólica.
Nesse contexto, o bolsonarismo não constitui episódio isolado, mas manifestação nacional de um fenômeno observado em diferentes partes do mundo. Seu funcionamento reproduziu elementos presentes em movimentos semelhantes: críticas constantes às instituições, ataques à imprensa, questionamentos sobre o sistema eleitoral, confrontos com o Poder Judiciário e narrativas que apresentam opositores como integrantes de conspirações ocultas. Assim, quem discorda deixa de ser apenas adversário político e passa a ocupar o papel de inimigo interno.
Sob a perspectiva constitucional, esse processo exige atenção. Democracias não se sustentam apenas pelo voto. O exercício democrático também envolve respeito às instituições, liberdade de imprensa, independência entre os poderes, pluralismo político e aceitação das regras estabelecidas. Quando esses pilares passam a ser atacados de forma sistemática, a questão ultrapassa a disputa partidária e alcança as estruturas que sustentam o Estado Democrático de Direito.
Determinados movimentos parecem retirar
força da própria instabilidade que ajudam a produzir”
Outro aspecto recorrente é a construção de lideranças personalistas com forte apelo messiânico. O líder deixa de ser apresentado como representante político sujeito a críticas e limitações institucionais para assumir a posição de figura excepcional, vista por parte dos apoiadores como portadora exclusiva da verdade e da capacidade de salvar a nação. Nessa lógica, investigações, derrotas eleitorais ou decisões judiciais desfavoráveis passam a ser descritas como perseguição deliberada.
As consequências sobre o debate público tornam-se evidentes. Argumentos perdem espaço para insultos; provas cedem lugar a suspeitas. O debate racional é substituído por uma lógica de confronto moral permanente. Expressões agressivas e ataques pessoais deixam de representar simples excessos retóricos e passam a cumprir função política específica: manter grupos mobilizados pela indignação constante.
As redes sociais ampliaram significativamente esse processo. Seu funcionamento, baseado em velocidade, impacto emocional e ampla circulação de conteúdos curtos, favorece mensagens simplificadas e polarizadoras. Nesse ambiente, ganham espaço vídeos manipulados, acusações sem comprovação, teorias conspiratórias e conteúdos falsos produzidos para provocar reações emocionais intensas. Em alguns casos, a desinformação assume papel estrutural dentro da estratégia política.
A repetição contínua dessas narrativas produz efeitos relevantes. Notícias desfavoráveis ao líder político levam ao questionamento da credibilidade da imprensa. Decisões judiciais passam a ser interpretadas como perseguição institucional. Resultados eleitorais contrários às expectativas de determinado grupo alimentam suspeitas sobre a legitimidade do processo.
O debate racional é substituído por uma
lógica de confronto moral permanente”
No Brasil, o ápice dessa dinâmica ocorreu em 8 de janeiro de 2023, quando as sedes dos Três Poderes foram invadidas por manifestantes que afirmavam agir em defesa do país. O episódio revelou como discursos reiterados de deslegitimação institucional podem produzir efeitos concretos e graves para a estabilidade democrática.
Fenômenos semelhantes aparecem em outros países. Nos Estados Unidos, após a derrota eleitoral de Donald Trump, alegações de fraude passaram a ocupar posição central no discurso político de seus apoiadores. Em diferentes contextos nacionais, repetem-se padrões semelhantes: simplificação de problemas complexos, desconfiança permanente das instituições e construção do adversário político como ameaça existencial.
Essa dinâmica fortalece identidades coletivas. O sentimento de pertencimento cresce diante da existência de um inimigo comum. A agressividade passa a ser apresentada como autenticidade; a hostilidade, como coragem; e a rejeição das regras institucionais, como expressão de liberdade.
Forma-se, assim, um círculo discursivo fechado. Investigações são interpretadas como perseguição; condenações judiciais tornam-se prova de parcialidade; derrotas eleitorais convertem-se em evidência de fraude; e informações desfavoráveis passam a ser classificadas como manipulação. Nenhuma instância externa é reconhecida como legítima quando produz resultados contrários às expectativas do grupo.
Sob o ponto de vista constitucional, trata-se de fenômeno delicado. A liberdade de expressão protege críticas severas e posições impopulares, mas não elimina a necessidade de responsabilização diante de campanhas organizadas de desinformação, ataques sistemáticos às instituições ou estímulos à ruptura da ordem democrática. Existe diferença entre crítica política e erosão institucional deliberada.
Naturalmente, posições conservadoras, liberais, religiosas ou nacionalistas ocupam espaço legítimo em sociedades plurais. O problema não está em ideias de direita ou de esquerda, mas na substituição do debate de argumentos pela fabricação permanente de inimigos, pela disseminação do medo e pela destruição da confiança institucional.
O desafio contemporâneo consiste em preservar a democracia sem restringir a pluralidade política que a caracteriza.
Isso exige fortalecimento institucional, educação cívica, compromisso com informações confiáveis e defesa permanente da liberdade de imprensa e das garantias constitucionais. Afinal, democracias raramente desaparecem apenas por ataques externos. Em muitos casos, começam a se fragilizar quando seus próprios mecanismos internos passam a ser utilizados para corroer as bases que lhes dão sustentação.
* Advogado criminalista. Doutorando Estado de Derecho y Gobernanza Global pela Universidad de Salamanca - ESP. Mestre em Direito Penal pela PUC-SP. Latin Legum Magister (LL.M) em Direito Penal Econômico pelo Instituto Brasileiro de Ensino e Pesquisa IDP. Especialista em Blanqueo de Capitales pela Universidad de Salamanca.
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