21 de maio, de 2026 | 07:20
O Super El Niño vem aí e o seu prefeito está tomando providências?
Carlos Alberto Costa *
Como se não bastassem as guerras intermináveis, a insegurança econômica global, as tensões provocadas pelas mudanças climáticas, e no caso brasileiro o escândalo do Banco Master com sua fraude bilionária, um novo alerta surge no horizonte: a possibilidade concreta de um Super El Niño, apontado por especialistas como um dos mais intensos desde o século XIX. Pode até ser que não ocorra, mas hoje é impossível não se atentar para essa ameaça real.
Os modelos climáticos mais recentes indicam uma probabilidade próxima de 100% de que o fenômeno se consolide entre o fim deste ano e o início do próximo. E não se trata de alarmismo. Trata-se de ciência, de projeções matemáticas e de observações oceânicas que vêm deixando meteorologistas e climatologistas em estado de atenção máxima.
Enquanto isso, prefeitos e governos estaduais parecem mais preocupados com agendas políticas e disputas eleitorais do que com aquilo que realmente ameaça a população. A pergunta é inevitável: os municípios estão se preparando para o que pode vir?
Alô prefeitos de Ipatinga, Timóteo, Santana do Paraíso e Coronel Fabriciano.
Vocês que são gestores de cidades com enormes áreas de risco habitadas,
estão lendo essas notícias?”
Em cidades como Ipatinga, Timóteo, Coronel Fabriciano e Santana do Paraíso, o histórico de enchentes, deslizamentos e ocupações irregulares deveria servir como um permanente sinal de alerta. O prazo para ações preventivas é curto. Até agosto e setembro ainda há tempo para limpar galerias pluviais, desassorear córregos, reforçar encostas, retirar famílias de áreas de risco e estruturar melhor as equipes da Defesa Civil. Depois disso, poderá ser tarde demais.
Alô prefeitos de Ipatinga, Timóteo, Santana do Paraíso e Coronel Fabriciano. Vocês que são gestores de cidades com enormes áreas de risco habitadas, estão lendo essas notícias? Se não, estão fiquem atentos. Inclusive, releiam o artigo que publiquei no nosso Diário do Aço em 14 de janeiro de 2025, sob o título "E a tragédia se repetirá quantas vezes?".
O El Niño é um fenômeno caracterizado pelo aquecimento anormal das águas do Oceano Pacífico Equatorial. Em ciclos normais, já provoca alterações severas no clima mundial. Mas o que se desenha agora é algo muito superior.
Os estudos indicam temperaturas oceânicas até 3°C acima da média em enormes áreas do Pacífico. Há registros de massas de água aquecidas alcançando profundidades entre 150 e quase 400 metros. É uma quantidade gigantesca de energia acumulada, pronta para ser liberada na atmosfera. O resultado disso poderá ser devastador.
Especialistas alertam para chuvas extremas no Sul do Brasil, com temporais violentos, enchentes históricas e até tornados mais frequentes. Em outras regiões, sobretudo Norte e Nordeste, o risco é de secas severas, temperaturas sufocantes e crise hídrica. O impacto não ficará restrito ao clima.
Segundo análises internacionais, o fenômeno poderá afetar diretamente a produção global de alimentos, pressionando preços e agravando crises econômicas. O agronegócio brasileiro já começa a se movimentar tentando reduzir prejuízos. Mas e as cidades? E a população mais vulnerável?
A história mostra que tragédias climáticas nunca atingem todos da mesma forma. Quem mora em áreas seguras sofre menos. Quem tem recursos consegue reagir melhor. Já os mais pobres acabam soterrados pela omissão do poder público.
Os cientistas buscaram na história um paralelo para o que pode acontecer agora e chegaram ao ano de 1877. Naquele período, um El Niño extremamente severo provocou secas prolongadas, fome em escala mundial e milhões de mortes.
Estima-se que entre 50 e 60 milhões de pessoas morreram em decorrência da crise climática e alimentar daquele período. Foi um dos maiores desastres ambientais já enfrentados pela humanidade.
Até lá dá tempo para limpar redes pluviais, desassorear córregos,
reforçar encostas, retirar famílias de áreas de risco e estruturar
melhor as equipes da Defesa Civil”
Hoje, mais de um século depois, o mundo possui tecnologia, sistemas de monitoramento, satélites, inteligência artificial e capacidade científica infinitamente superiores. Ainda assim, continuamos vulneráveis.
Talvez porque o maior problema não seja falta de informação, mas excesso de negligência. Os sinais estão todos diante de nós.
Os oceanos registram temperaturas recordes sucessivos. Eventos climáticos extremos se multiplicam em várias partes do planeta. Ondas de calor históricas, secas prolongadas e enchentes devastadoras deixaram de ser exceção.
Mesmo assim, muitos governantes seguem tratando prevenção como gasto desnecessário e não como investimento em vidas.
Quando uma tragédia acontece, aparecem entrevistas, discursos emocionados, promessas de ajuda e decretos emergenciais. Mas quase sempre falta o principal: planejamento antes do desastre.
A população precisa cobrar providências imediatas. Limpeza urbana, manutenção de redes pluviais, fiscalização de áreas de risco e campanhas educativas não rendem tantas fotos quanto inaugurações, mas salvam vidas.
O Super El Niño não é uma invenção conspiratória nem exagero de meteorologistas. É um fenômeno monitorado por instituições científicas do mundo inteiro. Ignorar esses alertas seria repetir erros históricos. Ainda há tempo para agir. Mas o relógio climático não espera discursos, burocracias ou disputas políticas. A natureza sempre cobra a conta da irresponsabilidade humana. E ela costuma cobrar caro.
* Professor aposentado
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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