07 de maio, de 2026 | 07:20

A crise climática e o teste da democracia

Ricardo Henriques*


A crise climática deixou de ser um alerta sobre o futuro. Ela já organiza o presente e redefine, de forma desigual, as oportunidades de vida de milhões de pessoas. Num mundo atravessado por eventos extremos cada vez mais frequentes, o desafio central não é apenas ambiental. É político, social, econômico e, sobretudo, democrático. A pergunta que se impõe é simples e incômoda: nossas democracias serão capazes de proteger e preparar as novas gerações para um mundo em rápida transformação?

A democracia não se fragiliza apenas pelo avanço de forças autoritárias. Ela perde vitalidade quando deixa de entregar soluções concretas para os problemas que mais importam. Poucos desafios testam tanto essa capacidade quanto a emergência climática. Seus efeitos recaem de forma direta sobre os mais vulneráveis, aprofundam desigualdades históricas e exigem respostas que combinem visão de longo prazo com elevada capacidade de implementação.

É nesse ponto que a educação emerge como um campo decisivo. A crise climática não é um tema periférico para os sistemas educacionais. Ela já afeta o funcionamento das escolas, a aprendizagem dos estudantes e a permanência de crianças e jovens no sistema de ensino. Ao mesmo tempo, a educação pode contribuir para assegurar a implementação da transição para uma economia resiliente e de baixo carbono, onde novas competências e habilidades serão necessárias. Nesse sentido, a educação é uma variável estruturante do enfrentamento climático.

Infelizmente, não faltam mais evidências de que enchentes, secas prolongadas e ondas de calor interrompem aulas, destroem infraestruturas, pressionam redes públicas fragilizadas e ampliam perdas de aprendizagem – sobretudo entre os mais pobres. O futuro, para muitos, chega mais cedo e em piores condições.

Ignorar esse impacto é um erro estratégico. A educação é o principal espaço de mediação entre as transformações estruturais do mundo e as trajetórias individuais. É nela que se formam capacidades cognitivas, sociais e produtivas; é nela que se constrói pertencimento e se renova, geração após geração, o pacto democrático. Quando sistemas educacionais falham em proteger e preparar seus estudantes diante de choques cada vez mais intensos, a promessa democrática se esvazia.

Responder a esse desafio exige aquilo que chamo de uma utopia pragmática: ambição transformadora combinada com capacidade real de execução.

Combinar essas duas dimensões no campo da educação significa investir em escolas resilientes, integradas aos territórios, capazes de operar em contextos adversos. Significa formar professores e gestores para lidar com novos riscos e incertezas e explorar novas oportunidades. Significa investir no letramento climático, com pedagogias adequadas que preparem estudantes para uma economia em transição, conectando educação, sustentabilidade e inovação.

Além de todo o apoio às escolas para lidarem com as consequências negativas da crise climática, o reforço da agenda ambiental na educação básica abre também oportunidades. Precisamos de uma cidadania ativa, consciente e apta a contribuir com os esforços de adaptação e mitigação. Esses atributos não são desejáveis apenas no futuro. Podem ser trabalhados desde cedo, em projetos de intervenção que aliam o conhecimento curricular à prática, valorizando o protagonismo dos jovens e dando a eles a oportunidade de exercitar sua cidadania desde cedo.

Há referências nacionais e internacionais que reconhecem a centralidade da educação na agenda climática. O desafio é transformar essas diretrizes em práticas educacionais e de formação profissional. A Ação para o Empoderamento Climático (ACE, em inglês) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC, órgão da ONU responsável pela agenda climática) inclui a educação entre seus seis eixos centrais, defendendo que maior compreensão do desafio climático amplia o engajamento e a ação social. No Brasil, o Plano Clima estabelece como estratégia transversal “Educação, Capacitação, Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação”, orientando as políticas nacionais e setoriais por diretrizes de formação técnica, inovação tecnológica e participação social.

Há muito a fazer desde já – e o custo da inação é alto. Políticas fragmentadas, projetos-piloto sem escala e discursos desconectados da capacidade estatal geram frustração, corroem a confiança nas instituições e alimentam soluções autoritárias para problemas complexos. Além disso, adiar decisões eleva os custos futuros e pode levar a pontos de não retorno climáticos e democráticos, que tendem a se reforçar mutuamente.

Não se trata de acrescentar mais um tema à agenda educacional, mas de reconhecer que a crise climática redefine o próprio sentido de educar no século 21.

A democracia será julgada menos por seus discursos e mais por sua capacidade de proteger e ampliar horizontes em tempos de incerteza radical. Se há um lugar onde essa capacidade pode se tornar visível, concreta e transformadora, esse lugar é a educação. É ali que a promessa democrática pode voltar a fazer sentido – não como abstração, mas como experiência real de futuro compartilhado.

* Economista, superintendente-executivo do Instituto Unibanco e professor associado da Fundação Dom Cabral.

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