01 de maio, de 2026 | 07:00
Entre a Referência e a Reprodução: quando a coquetelaria esquece de onde fala
Abner Benevenuto Araújo Paixão * Carlos Nosberto de Almeida **
Há um movimento silencioso em curso na coquetelaria brasileira que raramente é nomeado de forma direta. Não se trata exatamente de evolução técnica, tampouco de tendência estética. O que se observa, com alguma atenção, é um deslocamento mais profundo, quase imperceptível: a gradual substituição da identidade pela referência.Cartas de bares em cidades distintas começam a compartilhar mais do que inspiração. Compartilham estrutura, linguagem e intenção. Não é incomum que um menu em uma cidade média dialogue mais com o que se faz em grandes capitais do que com o próprio território em que está inserido. Ingredientes, técnicas e narrativas seguem um eixo reconhecível, quase previsível. Há algo de repetição nisso, como um refrão que retorna já validado, sem necessidade de se transformar.
Esse fenômeno não nasce do acaso. Durante anos, os grandes centros funcionaram como polos formadores. Concentraram acesso, repertório e validação. Natural, portanto, que se tornassem também modelos. O problema começa quando a referência deixa de ser ponto de partida e passa a ser destino.
A cópia deixa de ser um gesto técnico
e passa a ser um gesto cultural”
A padronização, nesse contexto, cumpre um papel ambíguo. Por um lado, organiza, eleva o nível técnico, cria uma linguagem comum. Por outro, quando absorvida sem mediação, produz algo mais sutil: uma homogeneização estética que atravessa regiões sem necessariamente dialogar com elas.
É nesse ponto que a cópia deixa de ser um gesto técnico e passa a ser um gesto cultural.
Observa-se, por exemplo, a recorrência de cartas que priorizam insumos importados, construções aromáticas complexas e descrições sofisticadas. Elementos que, isoladamente, não apresentam problema algum. Mas, quando deslocados de seu contexto original e aplicados de forma quase automática, levantam uma questão inevitável: para quem aquilo está sendo construído?
O Martini aparece, nesse cenário, como um caso emblemático. Ícone absoluto da coquetelaria clássica, consolidado em contextos culturais muito específicos, ele exige mais do que execução técnica para fazer sentido. Exige entendimento de paladar, de hábito, de ocasião. Ainda assim, multiplica-se em cartas pelo país como marcador imediato de sofisticação. Nem sempre, porém, há correspondência entre o gesto de servir e o desejo de quem consome. O resultado não é erro técnico, mas um desalinhamento silencioso entre oferta e contexto.
A chamada gourmetização entra como camada adicional desse processo. Não apenas como valorização do produto, mas como um filtro estético que transforma tudo em versão elevada de algo já existente, muitas vezes sem incorporar o que há de específico no entorno. O resultado é uma experiência que poderia acontecer em qualquer lugar e, justamente por isso, deixa de pertencer a algum. Há também um componente simbólico menos explícito, mas persistente. Um certo desconforto com aquilo que é próprio, como se o valor ainda estivesse, em alguma medida, sempre fora. A velha intuição, já apontada por Nelson Rodrigues, reaparece aqui com nova roupagem: não mais como declaração explícita, mas como prática recorrente.
O efeito não é imediato, mas acumulativo. Aos poucos, aquilo que poderia ser traço distintivo, ingredientes locais, modos de servir, referências culturais, vai sendo substituído por uma linguagem mais universal, mais reconhecível e, por isso mesmo, menos situada. Em alguns casos, a sensação que fica é de uma sofisticação construída sobre a ausência. Há precisão, há técnica, há acabamento. Mas falta tensão. Falta aquilo que marca, que desloca, que afirma um lugar.
Enquanto a escolha for pela reprodução,
o resultado será sempre reconhecível,
mas raramente memorável”
Nada disso impede que existam trabalhos autorais, conscientes e profundamente conectados ao território. Eles existem. Mas não são maioria. E talvez esse seja o ponto que mais incomoda. A questão já não parece ser se a coquetelaria brasileira sabe executar bem. Isso, a essa altura, está resolvido. A questão é outra: por que, mesmo sabendo fazer, ainda se escolhe repetir? Porque repetir é mais seguro. Porque já vem validado. Porque reduz o risco de errar, mas também elimina a possibilidade de afirmar algo próprio.E é justamente aí que o problema deixa de ser técnico e se torna cultural.
No fim, não se trata de falta de repertório, nem de acesso, nem de capacidade. Trata-se de decisão. Enquanto a escolha for pela reprodução, o resultado será sempre reconhecível, mas raramente memorável. E talvez seja preciso dizer com mais clareza: uma coquetelaria que não sustenta a própria identidade não está sofisticando o seu discurso. Está apenas aprendendo a falar bem a língua dos outros.
* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos, atuando na criação e execução de coquetéis e na valorização da cultura da coquetelaria
** Bartender há mais de 20 anos Campeão do Cachaça Classics SC 2024, atua também como criador de conteúdo e consultor, conectando técnica e vivência real de balcão.
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