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29 de abril, de 2026 | 07:40

62 anos de Ipatinga: desafios para o futuro

Antônio Nahas Junior *


Cheguei em Ipatinga na década de 1980, como economista, para trabalhar no Sindicato dos Metalúrgicos. Não sabia nada da cidade, apenas que sediava a Usiminas. No início desta nova jornada, ficava surpreso ao ver, pela manhã, os bares cheios de trabalhadores uniformizados jogando sinuca, bebendo cerveja...

E, muitas vezes, no meio da manhã ou da tarde, rolava futebol nos campos amadores. Aos poucos, percebi que esta era a jornada da cidade: quem bebia e jogava futebol pela manhã eram aqueles que trabalhavam no regime de turno de revezamento. Eram muitos à época e toda sua vida era definida por aquela difícil, dura e penosa rotina.

A cidade apresentava também uma certa divisão: havia os chamados bairros da Usiminas - elegantes; bem-organizados; asfaltados; arborizados - e o restante da cidade, que abrigava bairros com pouca ou nenhuma estrutura urbana, onde tudo era difícil. Havia exceções, é claro, como o Cidade Nobre e o Iguaçu, mas predominava aquela divisão social e geográfica.


“A melhoria da arrecadação municipal,
somada às mudanças políticas,
reorientam a administração pública”


Naquele período, Ipatinga começava a apresentar sinais de mudança, como todo o Brasil. A ditadura se encerrara em 1984 e a sociedade civil despertava e se organizava. O sindicalismo mostrava sua força e deflagrava greves por todo o país; novos partidos políticos, como o PT, se organizavam; movimentos sociais surgiam nos bairros reivindicando melhorias no transporte coletivo; no saneamento e tantas outras coisas.

E mais: em 1988 vem à luz a nova Constituição, que assegura conquistas à população, além de fortalecer os municípios, melhorando a transferência de impostos para as cidades.

Estes fatos mudam a vida política da cidade e fazem surgir uma nova geração de políticos, que fazem chegar à administração pública os interesses e demandas de quem nunca tinha sido ouvido.

A melhoria da arrecadação municipal, somada às mudanças políticas, reorientam a administração pública, que inclui como prioridade na sua pauta o saneamento básico; iluminação pública; habitação; urbanização de favelas; transporte coletivo; coleta e destinação final de lixo; pavimentação das vias e tantos outros itens.

A administração municipal torna-se mais transparente e mais exigida pela Câmara dos Vereadores e por instâncias participativas, como os Conselhos Municipais.

Uma nova era se inicia, transformando a cidade e equalizando os direitos de todos.

Mas as mudanças estavam apenas começando. No início da década de 90, vem a privatização da Usiminas que, tal como foi feita, manteve a direção da empresa nas mãos dos antigos dirigentes estatais. Isto trouxe muitos benefícios para a cidade, pois a empresa melhorou sua performance financeira e manteve intocada toda a estrutura social erguida no período anterior.


“As possibilidades de diversificação da economia
local vão se abrir e há possibilidades abertas pelo Governo Federal”


Mais ainda: a nova etapa da empresa permitiu que esta começasse também a pensar em novos empreendimentos, como a construção do Shopping Vale do Aço, que contribuiu decisivamente para a diversificação econômica da cidade.
Outras iniciativas importantes também ocorreram: ganhamos uma Escola de Medicina e, logo em seguida, muitas outras unidades de ensino superior para cá vieram, tornando mais articulado e complexo nosso setor de serviços.
Ipatinga hoje: desafios para o futuro

Ao longo das décadas seguintes, estes dois poderosos agentes de mudança – organização da sociedade civil e privatização da Usiminas – continuaram a agir, construindo a cidade em que vivemos hoje.

Nossos números são imponentes: o PIB (Produto Interno Bruto) da cidade alcança 16,8 bilhões de reais. Em valor, somos o sétimo maior PIB municipal de Minas Gerais. Na composição do PIB predomina o setor industrial, o que é cada dia mais raro no Brasil, pois a indústria vem perdendo importância na nossa economia.

O IDH - Índice de Desenvolvimento Humano – é considerado alto: era 0,684 em 2000 e hoje alcança 0,806, ficando entre os trinta melhores de Minas Gerais.

Mas nem tudo são flores. Recentemente, tive acesso a estudo do professor Wander Ulhoa, secretário de Finanças de Fabriciano, que aponta tendências importantes e preocupantes para a economia do Vale do Aço. O estudo do professor será apresentado brevemente no Encontro Brasileiro de Administração Pública, que será realizado em junho em Brasília.
O professor, após meticulosa coleta e análise de dados, mostra sua preocupação com a diminuição progressiva do peso da economia de Ipatinga e do Vale do Aço na economia mineira, além de todas as consequências daí advindas.

Citando dados da Fundação João Pinheiro, afirma que a Região Geográfica de Ipatinga (RGI) reduziu sua participação no PIB estadual no decorrer dos últimos anos, deslocando-se, por exemplo, da terceira posição (3,6% do PIB), em 2010, para a sétima posição (3,2% do PIB), em 2019. Acrescenta-se, ainda, que tais perdas “(...) são manifestações contundentes do esvaziamento observado no núcleo industrial do complexo metalmecânico estadual” (grifo nosso).

E continua: “de acordo com o mesmo estudo, se considerar a desagregação do PIB estadual e a participação no Valor Adicionado Fiscal (VAF) da indústria de transformação, observa-se que as perdas da Região Geográfica de Ipatinga (RGI) só não foram piores que a Região Geográfica Imediata de Belo Horizonte”.

E o professor continua sua análise, demonstrando as consequências daquele fato: se escolhermos como ano-base 2013, a geração de empregos formais em Ipatinga foi negativa. E, acompanhando esta tendência, os salários reais médios decaem da média de 8 salários mínimos para pouco mais de dois.

Preocupa o professor, sobretudo, os efeitos fiscais desta transição, onde observamos o encolhimento relativo e absoluto da indústria na nossa região. Analisando dados do chamado VAF – Valor Adicionado Fiscal, que se aproxima do cálculo do PIB –, conclui que este indicador vem apresentando tendência de queda muito acentuada ao longo dos anos, o que compromete as transferências de ICMS por parte do Estado de Minas, que são feitas tomando como base o VAF.

Trocando em miúdos: a participação do Vale e de Ipatinga na economia do Estado de Minas vem caindo. Estamos perdendo importância, o que vem acontecendo com toda a indústria de transformação no Brasil.

O professor considera que está havendo e haverá queda nas receitas municipais dos municípios da região e antevê sérios problemas fiscais para o futuro.

E conclui: “O aspecto central que desejamos enfatizar neste artigo é que existe, sim, um processo de desindustrialização na RMVA, gerando efeitos nada desprezíveis no emprego formal e induzindo desequilíbrios fiscais, em particular, nos municípios de Ipatinga e de Timóteo.”

Possibilidades futuras - Consideramos o estudo do professor um alerta de longo prazo para nossa região. Felizmente, em Ipatinga, temos assistido a um processo de modernização da Usiminas e de investimentos no aumento do valor agregado do aço, gerando produtos já preparados para atender à demanda dos clientes.

Notamos também um interesse crescente por parte da empresa em valorizar sua inserção na economia local, destacando sua cadeia de fornecedores. O meio ambiente também tem surgido como pauta importante da empresa, demonstrando seu envolvimento em pautas nacionais de crescente importância.

Concorde-se ou não integralmente com as teses do professor, o fato é que a indústria de transformação - e a siderurgia em particular - vem perdendo importância na economia brasileira e mineira. E este processo poderia se acelerar, não fossem as recentes medidas antidumping anunciadas pelo Governo Federal, restringindo importações da China.

A Usiminas continua sólida; moderna; competitiva e lucrativa. E a duplicação da BR-381; a vinda do campus da UFOP para nossa região abrem perspectivas e caminhos importantes para todos. As possibilidades de diversificação da economia local vão se abrir e há possibilidades abertas pelo Governo Federal, como demonstrou o ministro Alexandre Silveira, no Encontro Conexões MME, recentemente realizado.

Linhas de financiamento como o Nova Indústria Brasil também são muito importantes e devem ser cuidadosamente analisadas.

O assunto interessa não apenas a Ipatinga, mas a todos os municípios da Região Metropolitana do Vale do Aço. Nos tempos de hoje, criar mecanismos de articulação regional demonstra força política e capacidade de intervenção. E profissionais como o prof. Wander serão fundamentais para a pavimentação de novos caminhos. De olho no futuro, vamos nos articular no presente para construí-lo.

* Economista, empresário. Diretor da NMC Integrativa. E, para todos os efeitos, Wander Ulhoa é coautor.

Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço

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