25 de abril, de 2026 | 07:30
Explosão na BR-116 expõe fragilidades no transporte de cargas perigosas no Brasil
Leonardo Lopes Bezerra *
O recente acidente envolvendo a explosão de uma carreta carregada com gás na Via Dutra (rodovia que liga São Paulo (SP) ao Rio de Janeiro (RJ), perto da cidade de Barra Mansa, sinistro que deixou mortos, feridos e provocou a interdição de uma das principais rodovias do país, não deve ser tratado como um evento isolado. Episódios como esse trazem à tona uma realidade pouco discutida fora dos bastidores da logística: o transporte de produtos perigosos no Brasil ainda convive com fragilidades relevantes, muitas vezes invisíveis até que uma tragédia aconteça.
No caso de cargas como o gás liquefeito de petróleo (GLP), o nível de risco é elevado. Trata-se de uma substância com alto potencial energético, em que qualquer falha, seja ela operacional, estrutural ou de conformidade, pode desencadear um efeito em cadeia: perda de controle do veículo, tombamento, vazamento, formação de nuvem inflamável e, por fim, explosão como a que vimos na Via Dutra. Raramente esse tipo de ocorrência se limita ao veículo envolvido, colocando em risco outros motoristas, equipes de resgate e todo o entorno da rodovia.
Mais do que entender o que aconteceu, é fundamental questionar o que pode ter falhado para que um evento dessa magnitude ocorresse. O transporte de materiais perigosos é regido por normas técnicas rigorosas, no Brasil e no exterior, que abrangem desde a fabricação e certificação de embalagens e tanques até o treinamento de motoristas e protocolos de emergência. Em teoria, essas exigências existem justamente para evitar situações como a registrada na Dutra.
Na prática, porém, o desafio está na consistência da aplicação dessas normas. Falhas podem surgir em diferentes etapas da cadeia: embalagens ou tanques fora de especificação, desgaste estrutural não identificado em inspeções, certificações desatualizadas, lacunas no treinamento de condutores ou até inadequações no acondicionamento da carga. Muitas dessas inconsistências não são visíveis a olho nu e exigem processos rigorosos de auditoria e controle para serem detectadas.
Outro ponto crítico é a distância entre conformidade documental e conformidade real. Atender às exigências no papel não garante que os padrões estejam sendo efetivamente aplicados no dia a dia da operação. Em um país fortemente dependente do transporte rodoviário, como o Brasil, essa diferença se torna ainda mais sensível, especialmente em rotas de alto fluxo, como a Via Dutra.
Embora o Brasil conte com regulamentações alinhadas a referências internacionais, como as diretrizes do DOT (EUA), além de normas como IATA/ICAO e IMDG-Code, o desafio vai além da existência dessas regras. Ele passa pela fiscalização contínua, pela rastreabilidade dos processos e, principalmente, pela consolidação de uma cultura de segurança nas operações.
É importante destacar que acidentes com cargas perigosas raramente decorrem de um único erro. Em geral, são resultado da falha simultânea de múltiplas camadas de proteção. Por isso, a prevenção depende de um sistema robusto, que envolva certificação adequada, inspeções periódicas, capacitação técnica e monitoramento constante.
"O transporte de produtos perigosos no Brasil
ainda convive com fragilidades relevantes,
muitas vezes invisíveis até que uma tragédia aconteça"
O episódio na Dutra também reforça a necessidade de atenção a aspectos frequentemente negligenciados, como a qualidade e a conformidade das embalagens e dos sistemas de contenção. Esses elementos representam a primeira linha de defesa em caso de acidente e, quando não atendem aos padrões exigidos, aumentam significativamente o risco de vazamentos e explosões.
Mais do que reagir a tragédias, é necessário avançar para uma abordagem preventiva e integrada. Isso inclui maior rigor na fiscalização, investimento em tecnologia de monitoramento, padronização de processos e, sobretudo, o fortalecimento de uma cultura de segurança que vá além do cumprimento mínimo das exigências legais.
O acidente em Barra Mansa é um lembrete contundente de que o transporte de produtos perigosos exige atenção permanente, pois esse tipo de carga circula diariamente por vias movimentadas, e reduzir riscos é uma responsabilidade coletiva que envolve empresas, profissionais, reguladores e toda a sociedade.
* Consultor em materiais perigosos e especialista em certificação e conformidade de embalagens segundo normas internacionais: DOT (EUA), ANTT e INMETRO, IATA/ICAO e IMDG?Code
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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