24 de abril, de 2026 | 07:25

O que o eleitor vai levar em conta para escolher seu presidente?

Guto Araújo *


A eleição presidencial de 2026 ainda está em aberto e não apenas no sentido tradicional da disputa. Os dados mais recentes mostram um eleitor menos decidido, mais pressionado economicamente e cada vez mais pragmático nas suas escolhas.

A fotografia atual revela um cenário raro: muito voto disponível e pouca convicção consolidada a cinco meses do pleito. Segundo a pesquisa Meio/Ideia de abril, apenas 48,6% dos eleitores dizem estar com o voto decidido, enquanto 51,4% afirmam que ainda podem mudar sua escolha. Em outras palavras, mais da metade do eleitorado está em disputa real.

Os eleitores mais voláteis são os da direita. Enquanto apenas 26,6% dos eleitores de Lula admitem a possibilidade de mudar de ideia até outubro, esse índice chega a 69,4% entre os eleitores de Ronaldo Caiado, do PSD; e a 60,4% dos eleitores de Flávio Bolsonaro, do PL, principais candidatos de oposição ao petista. 

Esse dado, por si só, redefine a lógica da campanha. Não se trata apenas de mobilizar bases fiéis, mas de convencer um contingente significativo de eleitores voláteis, especialmente em um ambiente de forte polarização. 


“Em resumo: 2026 tende a ser uma eleição
menos sobre narrativa e mais sobre sensação econômica”


Economia: o voto passa pelo bolso - Se existe um eixo estruturante para 2026, ele é econômico. A pesquisa mostra que 70,4% dos brasileiros sentiram aumento no custo de vida no último ano, enquanto 40% dizem estar mais endividados. E curiosamente, na pesquisa qualitativa da Quaest de abril, é revelado que o principal motivo de endividamento são as apostas em Bets, informação majoritária dos grupos masculinos.

Mais importante do que isso: quase 75% afirmam que custo de vida e endividamento terão peso relevante na decisão do voto, sendo 38% considerando esses temas “muito importantes”.

Esse é o tipo de dado que muda campanhas. O debate ideológico não desaparece, mas perde espaço para a experiência concreta na vida do eleitor. A inflação percebida, o preço do supermercado, a fatura do cartão e a capacidade de fechar o mês passam a ser critérios centrais.

Em resumo: 2026 tende a ser uma eleição menos sobre narrativa e mais sobre sensação econômica.
Além da economia, há outros temas estruturais no radar do eleitor. Para 42,5% dos entrevistados, a maior ameaça à democracia é a concentração de poder no Judiciário. Já questões como corrupção, polarização e desinformação também aparecem com força.

Temas sensíveis continuam presentes. A discussão sobre anistia, por exemplo, divide opiniões, com maioria contrária, mas uma parcela relevante favorável. Esses assuntos não necessariamente definem o voto sozinhos, mas ajudam a moldar percepções sobre liderança, autoridade e direção do país.

Para as campanhas, isso significa uma mudança estratégica relevante. Não basta reforçar identidade, será necessário apresentar soluções concretas, credibilidade econômica e capacidade de governar.


“Historicamente, o dado mais assertivo na série das eleições
presidenciais brasileiras é o merece ou não continuar”


Como afirma Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia, “o placar de votos de Lula deve ser muito semelhante entre os dois turnos. O ‘mercado’ disponível de votos para o PT em eventual segundo turno será extremamente restrito”. 
Isso porque, historicamente, o dado mais assertivo na série das eleições presidenciais brasileiras é o “merece ou não continuar” e os números de abril mostram para o atual governo o índice de 53% para “não merece continuar” e 46% para “merece” continuar.

A eleição de 2026 não será decidida apenas por quem tem mais apoiadores, mas por quem melhor dialogar com um eleitor que, hoje, está com o voto em aberto e com o bolso pressionado. 
 
* Publicitário e especialista em marketing político. Colaborou em 6 campanhas presidenciais no Brasil e América Latina e mais de trinta campanhas para governos estaduais e prefeituras. É vice-presidente de planejamento do CAMP e co-autor do livro “Marketing Político no Brasil”.
 

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