23 de abril, de 2026 | 07:30

Copa de 2026 sob tensão: pode o futebol ignorar o cenário político global?

Carlos Alberto Costa *


Há fatos difíceis de compreender no mundo atual. Em meio à escalada de tensões envolvendo a guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, e a um momento de instabilidade política interna nos próprios Estados Unidos, o país sediará a Copa do Mundo da Fifa 2026, entre 11 de junho e 19 de julho. É, no mínimo, preocupante a situação dos torcedores que deixarão seus países para acompanhar os jogos, em especial nos EUA. México e Canadá também sediarão jogos, mas os Estados Unidos receberão a maioria das partidas (78 no total), com a final marcada para 19 de julho no MetLife Stadium, na região de Nova York/Nova Jersey.

Tenho refletido sobre como será essa Copa em um país cujo presidente demonstra pouco apreço por tratados internacionais, enquanto o Direito Internacional passa a ser ignorado de forma explícita, sem consequências aparentes. Nesse contexto, deparei-me com uma análise do professor João Cezar de Castro Rocha, titular de Literatura Comparada da UERJ e cientista político, autor de 15 livros, que converge com essas inquietações.


“É impossível não concluir que os Estados Unidos
não deveriam sediar a Copa do Mundo 2026”


Em vídeo publicado nesta quarta-feira (22), o professor afirma que a Copa do Mundo não deveria ser realizada nos Estados Unidos sob a gestão de Donald Trump e a atuação do ICE (U.S. Immigration and Customs Enforcement - agência federal responsável pela aplicação das leis imigratórias e alfandegárias). Segundo João Castro Rocha, aquele país já não pode ser considerado uma democracia nos moldes tradicionais.

O professor sustenta que os Estados Unidos não têm condições objetivas de acolher, com segurança, torcedores de 47 países (48 no total, incluindo o país-sede). Ele cita, como exemplo, a possibilidade de exigência de uma caução de 15 mil dólares para concessão de vistos a cidadãos de determinados países, como Argélia e Cabo Verde. O valor seria devolvido após o retorno ao país de origem, mas, segundo ele, há riscos de retenção parcial sob justificativas legais, mencionando casos como o bloqueio de ativos venezuelanos.

Ainda de acordo com o professor, há registros recentes de turistas detidos pelo ICE, incluindo um caso em Nova York em que uma turista foi presa indevidamente e separada do filho. Para ele, episódios como esse evidenciam um ambiente de insegurança jurídica para visitantes.

Ele também argumenta que a indústria do turismo nos Estados Unidos enfrenta retração, com embaixadas de diversos países alertando seus cidadãos sobre possíveis riscos ao viajar para o país da América do Norte. Entre as recomendações, estariam portar passaporte em tempo integral, manter cópia física da passagem de retorno e comprovar hospedagem, o que, segundo o professor, reforça um cenário de insegurança.

Outro ponto levantado é a comparação entre práticas adotadas pelo ICE e medidas implementadas em El Salvador sob o governo de Nayib Bukele, a partir de março de 2022, com o chamado “regime de exceção”. O professor associa esse modelo à suspensão de garantias legais, como o habeas corpus, estabelecendo um paralelo com o AI-5 da ditadura militar brasileira.


“A Fifa falhou ao não considerar os riscos
com a devida antecedência”


Ele destaca ainda que, antes da entrada formal nos Estados Unidos, a área de imigração em aeroportos internacionais operaria sob regras mais rígidas, nas quais agentes têm ampla autoridade, inclusive para inspecionar dispositivos eletrônicos de viajantes, podendo determinar que sejam vasculhados arquivos de telefones e laptops, bem como as redes sociais do nome do visitante.

Diante desse conjunto de fatores é impossível não concluir que os Estados Unidos não deveriam sediar a Copa do Mundo e que a FIFA teria falhado ao não considerar esses riscos com a devida antecedência. Para ele, há possibilidade de que o evento de 2026 enfrente sérias dificuldades e venha a ser marcado como um dos mais problemáticos da história.

*Professor aposentado

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