21 de abril, de 2026 | 07:00
21 de abril: Tiradentes enforcado. E os outros inconfidentes?
Antonio Nahas Junior *
A Inconfidência Mineira nos enche de orgulho. Minas, na figura de Tiradentes, deu seu grito de liberdade que ecoou em todo o país no ano de 1789, há mais de duzentos anos. E sua história é um exemplo de coragem. Quando presos e interrogados, seus companheiros de conspiração negaram com veemência qualquer tentativa de insurgência contra a Coroa portuguesa. Declararam-se inocentes. E aí surge Tiradentes, que assumiu toda a responsabilidade.
Tiradentes foi enforcado, mas seus confrades de rebeldia pagaram também um preço muito alto. Cláudio Manoel da Costa, poeta, suicidou-se na prisão, utilizando suas meias. Pelo menos, esta foi a versão oficial.
E os outros inconfidentes - Padre Rolim; Tomás Antônio Gonzaga; Alvarenga Peixoto; Inácio José de Alvarenga (irmão de Alvarenga Peixoto); Francisco de Paula Freire de Andrade; José Álvares Maciel - foram condenados também à morte e tiveram seus bens confiscados. A rainha D. Maria I trocou suas penas por outra, quase tão cruel quanto a execução: exílio perpétuo, não em Portugal, mas nas colônias portuguesas na África.
Numa época em que a travessia do Atlântico era uma aventura, em que não havia meios de comunicação entre continentes, deixar o Brasil e recomeçar em terras distantes e sombrias, sem bens, sem dinheiro e ainda trazendo em sua história a condenação pela Coroa portuguesa era como uma segunda morte.
Apenas no século XX, por meio do escritor Augusto
de Lima Júnior, a história dos inconfidentes é escrita”
E, como era de se esperar, Alvarenga Peixoto, seu irmão Inácio e Álvares Maciel morreram pouco depois de chegarem a Angola. Sobreviveram ao exílio Gomes Freire de Andrade, em Angola, e Tomás Antônio Gonzaga, em Moçambique.
Por ironia do destino, Gonzaga, poeta que se eternizou sendo Dirceu, companheiro de Marília, casou-se e foi feliz em Moçambique, enquanto sua Marília por aqui ficou, enfrentando o isolamento e a solidão por ter sido sua namorada.
O único que voltou ao Brasil foi o Padre Rolim, pela influência da Igreja. Chegou ao Brasil em 1805, após ficar 15 anos preso, e faleceu em Diamantina, reservando-se ao silêncio.
Após a Inconfidência, Tiradentes e seus companheiros foram esquecidos. Afinal, a Independência do Brasil, sonho dos inconfidentes que ocorreu décadas depois, não foi uma ruptura com a dominação portuguesa, mas uma suave continuidade, em que pouca coisa se alterou. Tiradentes só é novamente lembrado quando da Proclamação da República e, em 1890, foi escolhido por Deodoro da Fonseca como o mártir republicano”. A República precisava criar seus símbolos.
Mas apenas no século XX, por meio do escritor Augusto de Lima Júnior, a história dos inconfidentes é escrita.
Este autor pesquisa e resgata a história de todos os inconfidentes, que até então tinha sido esquecida. Procura e acha seus restos mortais nos países africanos, num paciente e exaustivo trabalho. Consegue resgatá-los e trasladá-los para o Brasil em 1937, durante o governo Getúlio Vargas, que patrocinou e incentivou toda a iniciativa do escritor. O traslado fez voltar ao Brasil a memória dos nossos heróis esquecidos.
Os restos mortais foram instalados na sede da antiga Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica, onde seria o futuro Museu da Inconfidência, inaugurado em 1944. Era, e ainda é, um prédio imponente, localizado no centro de Ouro Preto, mas estava funcionando como penitenciária estadual. Dentro dele, Augusto de Lima organizou o Panteão dos Inconfidentes, local onde repousam até hoje os restos mortais trasladados.
Tiradentes foi enforcado, mas seus confrades de
rebeldia pagaram também um preço muito alto”
Apenas o corpo de Tiradentes não foi encontrado. Nosso herói foi enforcado e depois esquartejado, tendo seus restos mortais espalhados pelos caminhos de Minas. Por isso, sua tumba permanece vazia.
Assim é o destino dos heróis e idealistas. Lutam e se sacrificam por seus valores e nem sempre alcançam seus objetivos. Pagam alto preço por suas escolhas.
Entre os inconfidentes havia poetas, como Gonzaga e Cláudio Manoel da Costa; cientistas, como Álvares Maciel. Eram pessoas bem estabelecidas, com poder e influência. Tiveram suas vidas destruídas. E, como eles, muitos outros tiveram destino semelhante na nossa história.
Basta lembrar o caso da mulher de Luis Carlos Prestes (**), Olga que, por ser judia, foi entregue aos nazistas por Getúlio Vargas, na década de 1940. E Rubens Paiva, cuja história foi recentemente resgatada no filme Ainda Estou Aqui.
Na época da ditadura, a partir de 1964, muitos perseguidos buscaram o exílio para fugir da perseguição política. E alguns deles, libertados pelas ações de seus companheiros, que sequestraram embaixadores de diversos países, foram castigados com a figura do banimento: a perda da cidadania brasileira. Condenados ao exílio, vagaram pelo exterior em busca de apoio e solidariedade.
Felizmente, tivemos, em 1979, a anistia e o retorno ao Brasil de muitos deles, com vida, podendo reconstruir sua vida no Brasil. Os banidos resgataram sua cidadania, recuperaram seus direitos e reconstruíram suas vidas. Ainda bem. Aos nossos Tiradentes, poetas, estudantes e empresários que saíram do seu conforto e lutaram por seus ideais, nossa homenagem.
* Economista, empresário. Autor do livro A Queda, que se passa em 1968-69 em Minas
** Luis Carlos Prestes foi o líder do Partido Comunista do Brasil por muitas décadas
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