19 de abril, de 2026 | 07:20

Como o neopentecostalismo político transformou-se em problema no Brasil

Carlos Alberto Costa *


O neopentecostalismo político figura hoje entre os grandes problemas do Brasil, ao lado do narcotráfico, das facções criminosas e da corrupção persistente. Não é possível discutir o país sem considerar esses elementos. Trata-se de um problema porque a política passa a mercantilizar a fé, a boa-fé e a confiança de pessoas que frequentam igrejas em busca da palavra de Deus.

Além dessa mercantilização, há o aspecto da autoridade divina atribuída aos indivíduos eleitos por esse meio, diante de um contingente significativo da população. Nesse cenário, o político se apresenta como escolhido pela “vontade de Deus” e passa a agir sob essa lógica: se é ungido, tudo o que faz estaria legitimado em nome do Senhor.

A partir daí, abre-se espaço para que esse agente público atue até mesmo à margem do que prevê a Constituição Federal, sob o argumento de que a autoridade divina se sobrepõe às leis humanas. É nesse ponto que reside o risco de uma deriva teocrática: homens invocam o nome de Deus para agir sem contestação ou responsabilização.

No Brasil, o neopentecostalismo ganhou forma com Edir Macedo e R.R. Soares, na fundação da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), em 1977, no Rio de Janeiro. Influenciado por práticas de cura e prosperidade, inspiradas em precursores como Kenneth Hagin, o movimento rompeu com o ascetismo do pentecostalismo clássico. Passou a enfatizar a teologia da prosperidade, a guerra espiritual e a forte presença nos meios de comunicação. Nesse modelo, a ausência de uma estrutura central sólida favorece a fragmentação: líderes se separam, criam novas igrejas e ampliam a expansão do segmento por bairros e cidades.

''Trata-se de um problema porque a política passa a mercantilizar a boa-fé e a confiança de pessoas que vão às igrejas em busca da palavra de Deus”

Para além da política institucional, o neopentecostalismo promove uma despolitização profunda da classe trabalhadora, o que interessa diretamente ao capital. Ao converter a busca por melhores condições de vida em uma batalha espiritual individual, esvazia-se a noção de luta coletiva e enfraquece-se a reivindicação por políticas públicas, salários dignos e melhores condições de trabalho.

O fiel, transformado em cliente recorrente, é mantido em estado de euforia e ansiedade, alimentando uma estrutura que concentra riqueza nas mãos de uma nova elite de pastores-empresários, enquanto oferece a promessa de ascensão social. Paralelamente, há um controle sobre comportamento e estética, com a construção de uma cultura de espetáculo em que o êxtase emocional substitui a reflexão ética.

A ocupação de espaços de poder por essas lideranças busca converter o Estado em executor de pautas morais e econômicas específicas, em tensão com a laicidade e a diversidade da sociedade civil. Nesse contexto, a teologia da prosperidade pode ser compreendida como um braço espiritual do neoliberalismo: exalta a autonomia individual, o empreendedorismo da fé e a flexibilização moral, desde que revertam em capital para a instituição.

Professor aposentado

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Comentários

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Antônio Nahas

20 de abril, 2026 | 17:44

“Esta interseção entre pentecostalismo e política e? profunda. São atores políticos cada vez mais importantes. Ótima análise. Por enquanto são apoiadores de certos políticos. Mas acredito que tenham sonho de se transformarem em protagonistas.”

Jose Afonso Martins de Assis

19 de abril, 2026 | 21:12

“Excelente artigo. Aproveitando que o Sr. Gildázio, sugiro também o livro O mundo assombrado pelos demônios, onde o autor, Sagan, contesta as práticas espirituais em detrimento da ciência. Hoje digo a todos: o cristianismo ainda vai acabar com este país. O cristianismo não é mais puro, como queria C.S. Lewis, mas um cristianismo como projeto de poder, por isso, perigoso.”

Nem Direita, Nem Esquerda, Realista

19 de abril, 2026 | 15:00

“O neopentecostalismo político no Brasil representa um risco para a democracia ao promover a erosão da laicidade do Estado, a subordinação de políticas públicas a dogmas religiosos e a polarização sectária. A atuação da bancada evangélica e de lideranças neopentecostais tem buscado, de forma crescente, impor uma moralidade única a toda a sociedade, afetando direitos de minorias e princípios seculares. Não gosto do Lula, penso que seu governo não faz mais sentido. Também não me considero de "Direira", mas eu sou um cidadão que lê. E o pior cego é o que sabe e não quer ver.”

Gildázio Garcia Vitor

19 de abril, 2026 | 10:00

“Excelente artigo! Parabéns!
Tenho um livro, publicado no final da década de 1980, cujo título é: "Os Demônios Descem do Norte", de Delcio Monteiro de Lima, que, apesar da idade e de ter outras obras melhores, inclusive audiovisual, e mais contextualizadas com o momento atual, todos deveriam lê-lo. Para mim, já é um clássico sobre os movimentos neopentecostais nos EUA, o Norte, e no Brasil.”

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