17 de abril, de 2026 | 10:00
A epidemia do ''eu faria melhor'' e a corrosão do valor do ofício
Abner Benevenuto Araújo Paixão * Carlos Eduardo Lima Salzmann **
Observa-se, com crescente frequência, a consolidação de um comportamento social marcado pela confusão entre acesso à informação e domínio técnico. Em uma cultura orientada pela rapidez, pela visibilidade e pela opinião imediata, a experiência profissional vem sendo sistematicamente reduzida a um conjunto de gestos facilmente imitáveis. O resultado é a proliferação de julgamentos seguros, porém rasos, sobre trabalhos que exigem formação, prática contínua e responsabilidade.Esse fenômeno se manifesta com clareza em áreas tradicionalmente associadas ao cotidiano, como bares e cozinhas. Preparar um coquetel em casa ou executar uma receita simples, em ambiente controlado e sem pressão externa, tornou-se suficiente para que indivíduos se sintam autorizados a avaliar e desqualificar o trabalho de profissionais. A comparação, no entanto, parte de premissas falsas e ignora diferenças fundamentais de contexto, escala e exigência.
A cultura digital intensifica a distorção
ao privilegiar narrativas de simplificação”
O trabalho profissional nesses ambientes não se define apenas pela execução pontual, mas pela capacidade de repetir resultados com consistência. Trata-se de manter padrão sob variáveis instáveis: volume de pedidos, tempo reduzido, falhas humanas, demandas simultâneas e expectativas alheias. A técnica, nesse sentido, não é adorno, mas estrutura. O método não é excesso, mas condição de funcionamento.
A cultura digital intensifica essa distorção ao privilegiar narrativas de simplificação.
Tutoriais breves e conteúdos de consumo rápido apresentam o resultado dissociado do processo, reforçando a ideia de que o conhecimento pode ser adquirido sem percurso. Aprende-se o gesto visível, mas não a lógica que o sustenta. O erro, quando aparece, é tratado como exceção, e não como parte constitutiva do aprendizado.
Richard Sennett, ao analisar a formação do artesão moderno, observa que o valor do ofício reside na relação prolongada entre prática, erro e aperfeiçoamento. Para o autor, a competência não emerge da improvisação, mas da repetição atenta e do compromisso com a qualidade ao longo do tempo. Quando essa dimensão é ignorada, o trabalho perde densidade simbólica e passa a ser percebido como algo facilmente substituível.
Nesse cenário, profissionalismo é frequentemente reinterpretado como rigidez. Organização vira obsessão. Procedimento é visto como burocracia. A experiência acumulada, em vez de reconhecida como capital técnico, é tratada como resistência à inovação. O profissional deixa de ser referência e passa a ocupar uma posição defensiva diante da opinião amadora, porém confiante.
Pouco se vê do trabalho invisível que antecede o resultado final. Não se observa o mise en place realizado antes da abertura do serviço, os testes reiterados, os ajustes finos, os erros corrigidos sob pressão. Tampouco se reconhecem as jornadas prolongadas, o desgaste físico e emocional, e a exigência constante de precisão em ambientes hostis ao erro.
O público, por sua vez, tem acesso apenas ao produto final: o prato servido, o coquetel apresentado. Essa visibilidade parcial gera a ilusão de simplicidade. Se o resultado parece fácil, o processo é automaticamente subestimado. O esforço desaparece, e com ele desaparece também o respeito pelo ofício.
A experiência acumulada, em vez de reconhecida
como capital técnico, é tratada como resistência à inovação”
Curiosamente, essa lógica não se aplica de maneira uniforme a todas as profissões. Poucos acreditam que saber operar uma ferramenta os torna engenheiros, ou que consumir conteúdos médicos confere autoridade clínica. No entanto, em ocupações associadas ao serviço, à hospitalidade e ao cotidiano, o profissionalismo é frequentemente relativizado.
O problema central não reside no ato de aprender ou experimentar, mas na desvalorização estrutural do trabalho qualificado. A afirmação recorrente eu faria melhor” não expressa necessariamente competência, mas um ego alimentado pela ausência de contexto e pela recusa em reconhecer a complexidade do fazer contínuo.
Enquanto essa cultura persistir, seguirá existindo uma distância crescente entre quem executa ocasionalmente e quem sustenta um padrão todos os dias. Uma distância marcada não pela técnica, mas pela incapacidade de reconhecer que aquilo que parece simples quase sempre é resultado de um trabalho longo, disciplinado e profundamente especializado.
* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos.
** Chef de cozinha e professor com trajetória marcada pela fusão entre a gastronomia nipo-italiana e a culinária brasileira.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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