15 de abril, de 2026 | 07:20

Comunidade escolar e sindicato questionam implantação de Colégio Tiradentes em Coronel Fabriciano

Em entrevista ao Diário do Aço, coordenadora do Sind-UTE alegou falta de diálogo do governo mineiro; Ex-deputado elencou pontos positivos da proposta

Por Matheus Valadares
Membros da comunidade escolar do Vale do Aço, sobretudo de pessoas ligadas à Escola Estadual Alberto Giovannini, em Coronel Fabriciano, irão participar de uma audiência pública nesta quarta-feira (15), às 16h, no Plenarinho II da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), quando será tratada a implantação de unidades do Colégio Tiradentes.

A reunião foi solicitada pela presidente da Comissão de Educação, Ciência e Tecnologia, deputada Beatriz Cerqueira, e pelo deputado Betão, ambos do PT, e irá tratar de forma mais direta sobre a Escola Estadual Sebastião Silva Coutinho, em Leopoldina, na Zona da Mata. No entanto, integrantes de outras instituições que receberam o anúncio da instalação do regime Tiradentes também participarão, dentre elas, Coronel Fabriciano.

A proposta da audiência é ouvir a comunidade local e especialistas da área da educação, para avaliar os impactos pedagógicos, administrativos e sociais da medida. 

Conforme a Secretaria de Estado de Educação (SEE), “a ampliação da rede dos Colégios Tiradentes vem sendo conduzida de forma planejada e transparente”. Até o momento, foram anunciadas novas unidades em Coronel Fabriciano, Pouso Alegre, Itajubá, Extrema, Poços de Caldas, Patrocínio, Leopoldina e Araçuaí, “com o objetivo de ampliar o acesso a um modelo educacional já consolidado no estado”.

Questionamentos


Anderson Figueiredo
Representante do SindiUte, Cíntia Rodrigues reconhece o trabalho feito pelos Colégios Tiradentes, mas entende que mudar o sistema de uma escola consolidada não é a melhor alternativaRepresentante do SindiUte, Cíntia Rodrigues reconhece o trabalho feito pelos Colégios Tiradentes, mas entende que mudar o sistema de uma escola consolidada não é a melhor alternativa
Porém, entre as principais críticas à essa proposta está a alegação de falta de diálogo prévio. Cíntia Rodrigues, coordenadora da subsede Ipatinga do Sindicato Único dos Trabalhadores em Educação de Minas Gerais (Sind-UTE), defende que decisões desse tipo devem envolver participação direta de alunos, responsáveis e profissionais da educação.

“Nós nos posicionamos contra esse projeto porque ele não tem nenhum tipo de explicação e diálogo com a comunidade, é uma imposição. As escolas, além de direção, têm um colegiado com representação de pais, de estudantes, de professores, e essas pessoas não foram consultadas. O Giovannini é uma das escolas mais tradicionais da nossa região com mais de 60 anos de existência, com a média do Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) acima da média nacional e existem uma série de incoerências nessa medida que aparentemente o governador não avaliou antes de anunciar. A impressão que ficou para gente é que ele não conhece a escola”, criticou. 

Ainda segundo Cíntia, não foi explicado o que vai acontecer com os estudantes, visto que o Colégio Tiradentes pertence ao sistema de educação da Polícia Militar. “O colégio foi criado com uma finalidade muito específica, que é atender os filhos dos militares. Os demais estudantes estão no terceiro critério de prioridade e ainda tem processo seletivo. E tem um agravante, o Giovannini tem quase 300 alunos matriculados no ensino técnico integral. Essa modalidade não é ofertada no Colégio Tiradentes”. 

A coordenadora apontou dúvidas sobre o futuro da carreira dos profissionais que trabalham na escola estadual. Segundo afirma, os professores são concursados na Secretaria de Educação, e não na Secretaria de Segurança Pública, e eles não podem migrar de uma carreira para outra. “Esses profissionais serão deslocados ou para outras escolas ou até para outras cidades. Nós não sabemos quando isso vai começar e como vai ser feito. Um gestor público precisa, em primeiro lugar, ouvir a população, ouvir a comunidade. Nós somos contrários a essa medida. Não somos contrários de forma alguma ao Colégio Tiradentes, que tem história, que tem o nosso respeito e que realiza um trabalho para o qual o colégio foi criado. Ele atende à expectativa da sua criação, que é para atender as famílias dos militares mineiros”, completou.

A insatisfação também motivou uma manifestação no sábado (11/4), no Centro de Coronel Fabriciano, quando professores, estudantes e responsáveis se reuniram para protestar contra a proposta. 

O outro lado


Já o ex-vereador em Coronel Fabriciano e ex-deputado estadual, Lincoln Drummond (PL), avalia que a proposta pode contribuir para a organização do ambiente escolar e para melhorias no desempenho dos estudantes. Ele se coloca como um “grande defensor desse projeto”.
Cícero Henrique
Lincoln Drummond defende a implementação, não somente do sistema Tiradentes, mas também o modelo cívico-militar em escolas de Minas GeraisLincoln Drummond defende a implementação, não somente do sistema Tiradentes, mas também o modelo cívico-militar em escolas de Minas Gerais

Ele afirma que assim que assumiu o mandato como vereador em 2021, fez um requerimento indicando ao então prefeito Marcos Vinicius para implementar o modelo de colégio cívico-militar, e posteriormente criou uma lei autorizativa para poder fazer a implementação.

Além disso, ele afirmou que quando esteve na ALMG, apresentou ao governo do Estado a demanda do Vale do Aço em relação à educação. “Quando eu mostrei os índices de Coronel Fabriciano, o governador simplesmente analisou junto ao batalhão, obviamente fez todo o levantamento para implementar um colégio desse formato”, afirmou em entrevista ao Diário do Aço.

“Pode olhar os índices educacionais, o Colégio Tiradentes é um dos maiores, e não somente os do Colégio Tiradentes, mas os índices do cívico-militar também. Realmente muda a realidade de muitas pessoas, prova disso é o Colégio Tiradentes de Ipatinga, se você for tentar uma vaga para o seu filho, você não consegue. Obviamente tem a vaga para filho de militar, mas tem a parte das vagas para toda a comunidade educacional e a fila é gigante”, continuou.

Quanto aos questionamentos de falta de diálogo, o ex-parlamentar também rebateu. “Está tendo diálogo, inclusive, entre eu, a Superintendência de Ensino, o diretor do colégio. Se ele está omitindo alguma coisa, o problema está neste diretor. O governo do Estado tomou uma decisão e fez um anúncio. Não existe decreto ainda. Ele fez esse anúncio para, justamente, falar: “olha, aqui nós vamos implementar’. Obviamente não tem um plano de trabalho, mas quem faz esse plano de trabalho é a Polícia Militar junto com a Superintendência de Ensino. Nesse momento está sendo uma manifestação precoce”, apontou.

Segundo ele, não há confirmação de que o ensino técnico será encerrado, podendo inclusive ser remanejado para outras unidades da rede. Argumenta ainda que a escolha da escola segue critérios técnicos definidos pelo Estado, como estrutura física e indicadores educacionais. O ex-vereador também rebate críticas sobre restrição de acesso, afirmando que a unidade não atinge atualmente sua capacidade total de matrículas. Por outro lado, admite que pode haver impactos para profissionais da educação e atribui as críticas ao que classifica como defesa de interesses por parte do sindicato. As entrevistas completas podem ser assistidas no canal do Diário do Aço no Youtube: @diariodoacotv

Previsão de transição e vagas



As novas unidades do Colégio Tiradentes seguirão um modelo de transição ao longo de quatro anos, até a consolidação completa do formato. As novas vagas serão distribuídas da seguinte forma: 50% destinadas a dependentes da Polícia Militar, 40% para estudantes da comunidade local e 10% para dependentes da Polícia Civil. Todas as futuras matrículas são de livre escolha dos responsáveis pelos estudantes, como já ocorre em toda a rede pública estadual de ensino.

O que diz o Governo do Estado



O governo de Minas Gerais ressalta que no caso da Escola Estadual Alberto Giovannini, em Coronel Fabriciano, bem como das demais escolas a serem transformadas em Colégios Tiradentes, a escolha levou em consideração critérios técnicos adotados pela SEE, em conjunto com a Polícia Militar, dentre elas a capacidade estrutural da escola, a viabilidade operacional para implantação do novo modelo e a demanda regional por vagas em instituições com esse perfil.

“A implementação seguirá planejamento específico, a ser conduzido pelos órgãos responsáveis, e o cronograma será divulgado oportunamente, conforme o avanço das etapas administrativas”, descreveu a nota enviada ao Diário do Aço.

“O Governo de Minas ressalta que mantém diálogo constante com a comunidade escolar, incluindo estudantes, familiares e profissionais da educação, na formulação e condução de projetos e políticas públicas voltadas para a educação pública estadual”.

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