21 de março, de 2026 | 07:20
O impacto da guerra no bolso dos consumidores
Felipe Borba *
Os efeitos da guerra dos Estados Unidos e Israel com o Irã, além de causar incertezas sobre o futuro, já geram impactos que afetam diretamente o bolso dos consumidores. Nos últimos dias, o noticiário foi inundado por gráficos, índices da bolsa e termos como "juros futuros" e "variação cambial". Para quem não vive no mercado financeiro, esses jargões parecem distantes, mas a realidade é que eles batem à nossa porta toda vez que passamos o cartão no supermercado ou paramos no posto de gasolina.A recente escalada de conflitos internacionais não é apenas um acontecimento geopolítico, é um evento econômico que afeta o mundo todo e que pode drenar o poder de compra do brasileiro, já que o conflito tem poder de impactar os preços dos combustíveis, dos fretes, dos alimentos e, consequentemente, o dólar, os juros e a inflação.
Petróleo dispara e atinge o frete - O primeiro e mais visível impacto vem das refinarias. Com a guerra, o preço do barril de petróleo disparou, saindo da casa dos 70 para mais de 100 dólares. Como o Brasil não é autossuficiente no refino, o processo que transforma o óleo bruto em combustível, ficamos expostos aos preços mundiais.
Embora o governo tenha tentado segurar os preços por meio de subsídios e zerando impostos como PIS/Cofins, a pressão tem sido insustentável. O resultado é que já temos diesel vendido a quase R$ 9 em algumas regiões e já são relatados alguns casos de falta do produto. O combustível move os caminhões que trazem a comida para a nossa mesa e os ônibus que levam o trabalhador ao trabalho. Quando o diesel sobe, tudo o que depende de transporte, ou seja, quase tudo, sobe junto. E isso afeta diretamente a inflação.
A taxa de juros é outro ponto crucial que o cidadão sente no bolso quando enfrentamos momentos de instabilidade. Até pouco tempo, a expectativa era de que o Banco Central começasse a baixar a Selic de forma mais robusta, o que tornaria empréstimos, financiamentos de imóveis e compras parceladas mais baratos.
O dólar e a bolsa - A bolsa de valores, que vinha em uma trajetória de alta, recuou para a casa dos 170 mil pontos. Investidores, com medo da incerteza, tendem a fugir de países emergentes como o Brasil em busca de segurança. Esse movimento faz o dólar oscilar. Embora o Brasil seja um grande exportador de petróleo, o que ajuda a trazer dólares para o país e segurar a cotação, a instabilidade global mantém a moeda americana em patamares que encarecem insumos agrícolas e eletrônicos.
"O mercado vive um momento de extrema volatilidade e
a cada novo desdobramento do conflito, projeções para
a nossa economia são recalculadas"
O risco diplomático - A guerra impõe um cenário diplomático complicado para o Brasil no mundo da geopolítica e dos negócios. Ao mesmo tempo em que o país tem a necessidade de manter uma relação positiva com os EUA, por conta de negociações tarifárias, o Brasil já demonstrou solidariedade ao Irã, país membro dos Brics. No mundo dos negócios, as posições diplomáticas podem custar caro em termos de parcerias e investimentos estrangeiros.
Em suma, o cenário atual reforça que o mercado vive um momento de extrema volatilidade, no qual a cada novo desdobramento do conflito internacional, as projeções para a nossa economia são recalculadas. Como vimos, o aumento expressivo do petróleo para além dos 100 dólares e a pressão sobre o diesel já impactam a inflação, elevando a expectativa do IPCA para 2026.
Diante dessa imprevisibilidade, a cautela deve ser a palavra de ordem para o consumidor brasileiro. É um momento de vigilância sobre o orçamento doméstico e prudência com o crédito, já que as ondas de choque dessa guerra geopolítica atingem, sem pedir licença, desde o preço do frete até a prateleira do supermercado.
* Assessor de investimentos da RP Capital
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