14 de março, de 2026 | 07:00
Quando a desinformação veste terno e gravata
Marcelo Augusto dos Anjos Lima Martins *
A fala do economista, consultor e pesquisador, Marcos Mendes, no telejornal Edição das 18h de 11 de março, ao insinuar que funções técnico-administrativas não precisariam de estabilidade por existirem funções equivalentes no setor privado, repetindo sua fala de 2023 ao jornal O Globo, em que fazia a mesma afirmação em relação aos professores e médicos, revela um problema grave: até que ponto a opinião de um agente público pode contribuir para a desinformação da população?
Quando uma figura pública, com espaço midiático, emite declarações imprecisas sobre instituições estratégicas como os Institutos Federais, o risco é duplo: além de enfraquecer a confiança da sociedade em políticas públicas consolidadas, alimenta narrativas que desconsideram o papel social e científico dessas instituições. A desinformação, nesse caso, não é apenas um erro conceitual, mas um ataque à credibilidade de uma rede que atende majoritariamente jovens de famílias de baixa renda e que tem resultados comprovados em qualidade educacional e inclusão social.
A relevância dos Institutos Federais - Criados pela Lei 11.892/2008, os Institutos Federais não são mini universidades”, como também sugeriu Mendes no telejornal. São instituições únicas, que integram educação básica, técnica e superior, articuladas às demandas regionais e ao mundo do trabalho. Com cerca de 1,8 milhão de matrículas, atendendo 85% de estudantes com renda familiar de até dois salários mínimos, a Rede Federal é um instrumento de democratização do acesso à educação de qualidade.
Além disso, os indicadores mostram desempenho acima da média nacional em exames como o ENEM e o PISA. Se considerados isoladamente, os IFs teriam resultados comparáveis aos sistemas educacionais de países líderes em rankings internacionais. Ignorar esses dados é desinformar.
Estabilidade e valorização do serviço público - A estabilidade do servidor público não é privilégio, mas garantia de continuidade das políticas públicas. É ela que assegura que pesquisas de longo prazo, como as que resultam em vacinas e medicamentos, não sejam interrompidas por mudanças de governo ou pressões políticas. No campo da educação, a estabilidade protege o caráter público, gratuito e inclusivo da Rede Federal, permitindo que docentes e técnicos administrativos desenvolvam projetos de ensino, pesquisa e extensão sem medo de represálias ou ingerências externas.
Em tempos de polarização política, a responsabilidade
de quem ocupa espaço de fala é ainda maior”
A desvalorização das carreiras técnico-administrativas e docentes, como sugerida pelo economista desde 2023, ao jornal O Globo, compromete não apenas a qualidade da educação, mas também o desenvolvimento científico e tecnológico do país. São esses profissionais que sustentam a produção de conhecimento e a formação de cidadãos críticos, capazes de transformar suas realidades.
A responsabilidade da palavra pública - Em tempos de polarização política, a responsabilidade de quem ocupa espaço de fala é ainda maior. Opiniões desinformadas, quando proferidas por agentes públicos ou especialistas, podem fragilizar instituições que são pilares da inclusão social e da soberania nacional. É preciso reconhecer que a Rede Federal não é gasto supérfluo, mas investimento estratégico em educação, ciência e tecnologia.
Defender os Institutos Federais, a Universidade Pública e a estabilidade do servidor público é defender a continuidade das políticas que garantem direitos fundamentais, como saúde e educação. É preservar o saber acumulado ao longo das carreiras e assegurar que esse patrimônio seja colocado a serviço da população, especialmente das classes menos favorecidas.
A fala de Marcos Mendes não apenas desinforma, mas desconsidera o papel estruturante dos Institutos e Universidades Federais e dos servidores públicos na construção de um Brasil mais justo e desenvolvido. Valorizar e preservar essas instituições é garantir que a educação pública continue sendo um instrumento de transformação social e de fortalecimento da democracia.
* Mestre em Gestão e Avaliação da Educação Pública - UFJF
Especialista em Psicopedagogia UCAM; Especialista em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e o Mundo do Trabalho UFPI; Pedagogo do IFMG Campus Governador Valadares / [email protected]
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