14 de março, de 2026 | 07:00
Entre o voto e o teto de vidro: o que ainda falta às mulheres no Brasil
Lia Noleto de Queiroz
Houve um tempo em que o movimento feminino foi decisivo para conquistas estruturantes na vida das brasileiras. Em 1932, com a conquista do direito ao voto, a mulher passou a ser reconhecida formalmente como sujeito político no Brasil. Foi um marco para a representatividade política das mulheres no Brasil. Mas quase um século depois, permanece a pergunta: presença formal significa poder real?
Comemoramos mais um mês de março, multiplicam-se homenagens e discursos. Contudo, é preciso ir além do simbolismo. Estamos, de fato, produzindo políticas públicas que garantam equidade entre homens e mulheres?
Equidade significa compreender os desiguais em suas desigualdades, reconhecer que as condições de partida não são as mesmas e que justiça não é tratar todos de forma idêntica, mas oferecer instrumentos adequados às realidades distintas. Sem essa compreensão, a igualdade permanece retórica.
Hoje, embora as mulheres representem mais de 50% da população brasileira e também do eleitorado, sua presença nos espaços de poder ainda é proporcionalmente inferior. No Congresso Nacional, nas assembleias legislativas e nas câmaras municipais, a participação feminina segue distante da paridade. Essa sub-representação política revela que o acesso ao voto não garantiu, automaticamente, acesso equilibrado à decisão.
O mesmo fenômeno se repete na administração pública direta e indireta e nas estruturas técnicas. As mulheres são maioria em diversas áreas do serviço público, na educação, na saúde, na assistência social e no corpo técnico de muitos órgãos. Entretanto, quando se observa os cargos de direção, assessoramento estratégico e chefia institucional, os números diminuem sensivelmente. Esse fenômeno tem nome: teto de vidro.
O teto de vidro não é uma proibição formal. Não está escrito em lei. É uma barreira invisível, estrutural e cultural, que dificulta ou retarda a ascensão das mulheres aos níveis mais altos de liderança. Elas entram, produzem, executam, organizam, mas raramente ocupam a cadeira final da decisão, são poucos os lugares à mesa as decisões para as mulheres.
A desigualdade se aprofunda quando observamos a sobrecarga materna e a centralidade da chamada economia do cuidado. O cuidado, de filhos, idosos, enfermos e da organização doméstica, sustenta silenciosamente a economia formal, e a própria sociedade. No entanto, esse trabalho permanece majoritariamente concentrado nas mulheres, e as que conseguem conciliar a vida materna e profissional necessitam de rede de apoio que implica necessariamente a terceirização do cuidado a outras mulheres.
Dados do IBGE indicam que as mulheres brasileiras dedicam quase o dobro do tempo dos homens às atividades domésticas e de cuidado não remunerado. Esse fator impacta diretamente suas trajetórias profissionais, sua disponibilidade para funções de liderança e sua permanência na política.
Ignorar a economia do cuidado é ignorar um dos pilares da sub-representação feminina. Não há equidade enquanto o cuidado for tratado como responsabilidade privada feminina e não como corresponsabilidade social. Não há justiça quando políticas públicas desconsideram creches, licença maternidade e paternidade equilibrada, redes de apoio e mecanismos que promovam uma divisão efetiva das tarefas entre homens e mulheres.
É preciso ir além do simbolismo. Estamos,
de fato, produzindo políticas públicas que
garantam equidade entre homens e mulheres?”
Esse debate também dialoga com a realidade religiosa do país. Mais de 80% das mulheres brasileiras se declaram cristãs. No segmento evangélico, as mulheres são maioria nas igrejas e desempenham papel central na mobilização comunitária, na assistência social, na organização de eventos e na formação de redes de apoio.
Ou seja, a mulher cristã já exerce liderança social concreta, ainda que muitas vezes informal. A feminilidade, longe de ser obstáculo, tem sido historicamente um mecanismo de mobilização social. Sensibilidade social, organização comunitária, capacidade de cuidado e articulação familiar não são fragilidades; são competências sociais relevantes.
Entretanto, há um paradoxo evidente: mulheres são maioria na mobilização social e minoria na representação institucional. É força na base e ausência efetiva e proporcional no topo.
Não se trata de afirmar que a política brasileira falha por causa do sexo de quem governa. Boa gestão depende de caráter, preparo e compromisso público. Mas reconhecer isso não elimina a necessidade de enfrentar as barreiras estruturais que mantêm a sub-representação feminina.
Entre o voto conquistado em 1932 e o teto de vidro que ainda persiste em 2026, existe um desafio inacabado: transformar presença social em poder institucional legítimo.
O Brasil já conta com mulheres mobilizadas. Já conta com mulheres organizadas. Já conta com mulheres comprometidas com suas famílias e comunidades.
O que ainda falta é romper as barreiras invisíveis que limitam sua ascensão e enfrentar, com maturidade, os fatores estruturais que produzem a sub-representação.
O futuro do Brasil não exige menos mulheres na política. Exige mulheres plenamente reconhecidas e que possam desenvolver suas potencialidades de forma integral, inclusive naquilo que sustenta silenciosamente a sociedade: o cuidado, a organização comunitária e a mobilização social. E exige políticas públicas que compreendam, de fato, os desiguais em suas desigualdades.
* Advogada, consultora jurídica com foco em processo legislativo e construção de políticas públicas, e mestre em políticas públicas e governo pela Fundação Getúlio Vargas.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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