13 de março, de 2026 | 07:00
O que é, o que é? Entre leituras, memória e coquetelaria
Abner Benevenuto Araújo Paixão *
No dia 12 de março foi celebrado no Brasil o Dia do Bibliotecário, data associada ao nascimento de Manuel Bastos Tigre. A profissão costuma aparecer pouco no debate público, quase sempre lembrada de forma protocolar. No entanto, o trabalho do bibliotecário está no centro de uma questão essencial para qualquer sociedade que produz conhecimento: como registrar, organizar e preservar informações para que elas continuem acessíveis ao longo do tempo.Toda área que acumula saberes depende desse tipo de trabalho. A produção intelectual cresce, as técnicas evoluem, novos conteúdos surgem continuamente. Sem organização, esse conjunto se torna apenas acúmulo. O conhecimento deixa de circular, perde referências e se fragmenta. O bibliotecário atua justamente nesse ponto sensível. Seu trabalho não é apenas lidar com livros, mas estruturar sistemas de acesso ao conhecimento.
Essa função raramente aparece de forma evidente. Quando um leitor encontra rapidamente uma obra, quando um pesquisador localiza um documento antigo ou quando um profissional consulta um manual técnico publicados décadas antes, existe um trabalho silencioso que tornou isso possível. Catalogação, classificação e organização da informação são atividades que sustentam a memória intelectual de diferentes áreas.
Viver também é aprender continuamente”
A história da coquetelaria ajuda a ilustrar esse processo. Durante muito tempo, grande parte do conhecimento sobre bebidas circulou principalmente de forma oral entre bartenders. Ainda assim, o que hoje entendemos como tradição da coquetelaria clássica só chegou até o presente porque foi registrado. Um dos marcos desse processo foi a publicação de How to Mix Drinks, organizada por Jerry Thomas, que reuniu receitas e técnicas em um repertório documentado.
Décadas depois, livros como The Savoy Cocktail Book, publicado por Harry Craddock, ampliaram esse registro e ajudaram a consolidar a tradição escrita da coquetelaria. Esses livros funcionam como arquivos históricos da profissão. Sem registros desse tipo, muitas receitas e métodos de preparo simplesmente teriam desaparecido.
No cenário contemporâneo, a organização da coquetelaria também passa por instituições como a International Bartenders Association, responsável por manter uma lista oficial de coquetéis reconhecidos internacionalmente. Esse tipo de sistematização funciona como um registro coletivo da profissão, criando referências que circulam entre diferentes países e gerações de bartenders.
No Brasil, a documentação da coquetelaria ainda é um processo em construção. Mesmo assim, alguns preparos conseguiram se consolidar como parte da identidade cultural dos bares brasileiros. A Caipirinha tornou-se um símbolo internacional da coquetelaria nacional. Outro exemplo é o Rabo de Galo, criado em São Paulo nos anos 1950 a partir da mistura entre cachaça e vermute nos bares frequentados por imigrantes italianos, tornando-se parte da cultura de balcão da cidade e sendo posteriormente preservado e difundido por bartenders como Derivan de Souza.
A coquetelaria contemporânea também passou a dialogar de forma mais direta com ciência e pesquisa. Técnicas como clarificação, controle de acidez, carbonatação e preparos conhecidos como super juice mostram como a mixologia atual se aproxima da ciência dos alimentos. Parte dessa transformação foi sistematizada por autores contemporâneos, entre eles Dave Arnold, autor de Liquid Intelligence: The Art and Science of the Perfect Cocktail, publicado no Brasil como Inteligência Líquida: Coquetéis Perfeitos.
Esses exemplos revelam um ponto comum. Receitas, técnicas e práticas profissionais não sobrevivem apenas pela repetição cotidiana. Elas precisam ser registradas, organizadas e preservadas. Sem esse processo, tradições se perdem e áreas inteiras do conhecimento se tornam fragmentadas.
Muitas vezes o aprendizado começa
com o trabalho atento de um bibliotecário”
Minha relação com esse universo começou muito antes da coquetelaria. Quando criança, eu passava bastante tempo entre livros. Às vezes ajudava meus pais no trabalho, às vezes escapava de alguma atividade seja na escola ou seja no trabalho, mas havia um lugar para onde eu sempre acabava indo. Nos intervalos ou momentos livres, eu procurava algo para ler.
O contato com o bibliotecário era parte importante dessa experiência. Conversávamos sobre livros, autores e temas. Muitas vezes ele sugeria leituras ou apresentava obras que, segundo ele, tinham a ver comigo. Aquilo ampliava meu repertório e me apresentava assuntos que provavelmente eu não teria encontrado sozinho. Mais do que indicar livros, o bibliotecário ajudava a construir caminhos de leitura e a tornar o conhecimento acessível.
Talvez por isso o trabalho do bibliotecário seja tão pouco visível. Quando tudo funciona, ele desaparece aos olhos do público. O leitor encontra o que procura, o pesquisador acessa uma obra, o profissional consulta uma referência técnica. O resultado aparece, mas o trabalho que tornou isso possível permanece nos bastidores.
Em um tempo marcado pela circulação acelerada de informação e pela perda constante de referências históricas, registrar e organizar conhecimento se torna ainda mais necessário. A memória cultural de muitas áreas depende desse tipo de trabalho silencioso.
A pergunta permanece. O que é, o que é? Em grande parte das vezes, a resposta está em quem dedica a vida a organizar o conhecimento para que outros possam aprender. Como lembra Gonzaguinha em O Que É, O Que É, viver também é aprender continuamente. Muitas vezes, esse aprendizado começa com o trabalho atento de um bibliotecário.
* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos, atuando na criação e execução de coquetéis e na valorização da cultura da coquetelaria.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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Gildázio Garcia Vitor
13 de março, 2026 | 06:00Belíssimo texto! Parabéns!
Aproveito o espaço para parabenizar a Tia Lu e a Val, bibliotecárias das Escolas Deolinda Tavares Lamego e João XXIII.”