10 de março, de 2026 | 07:00

Opinião: Universidade Pública em Ipatinga

Marco Túlio Dias *

Com previsão de início das atividades ainda no primeiro semestre de 2026, a Universidade Federal de Ouro Preto (UFOP) chega a Ipatinga como a concretização de um sonho coletivo que atravessou décadas e exigiu esforços de muitas mãos. A expansão foi efetivada por meio do Novo Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), que destinou R$5,5 bilhões para a ampliação de unidades federais. Ao campus ipatinguense foram destinados R$60 milhões para que, enfim, se materializasse o antigo anseio da região.

Da velha guarda aos dias de hoje, a efetivação das atividades da UFOP em Ipatinga materializa uma luta contínua, pulsante e coletiva, de mãos plurais que ousaram pensar a cidade para além da lógica estritamente industrial.

Mais do que um prédio ou um campus, a universidade pública que aqui chega representa o sonho de oportunidade para os filhos das domésticas, para aqueles que migraram para este solo em busca de melhores condições de vida e para todas que enxergaram em Ipatinga um verdadeiro eldorado, um “Canaã do Aço”, uma terra prometida. Terminologias que, para tantos que aqui chegaram, nunca foram apenas palavras: carregavam no peito a esperança de um futuro melhor.


“A efetivação das atividades da UFOP
em Ipatinga materializa uma luta contínua”


Nesse ínterim, Ipatinga revela-se como um território que historicamente amplificou divisões de classe e casta, com marcas de exclusão que atravessam desde sua ocupação geográfica até a condição de renda de seus habitantes. É um espaço onde capital e exploração humana se comunicam como causa e consequência, retroalimentando-se cotidianamente.

Assim, o início das atividades da Universidade Federal de Ouro Preto em Ipatinga configura-se como a implementação de uma política de ensino, pesquisa e extensão que, sob uma perspectiva libertadora, se opõe ao aço e ao fordismo impostos pelos modelos de cidades industriais, rompendo com a lógica de submissão a uma vida cinzenta.

Dessa forma, é fundamental pensar a universidade como espaço que abrange todas as pessoas, como ambiente plural de fomento à pesquisa local. A universidade pública só cumpre plenamente sua função quando tem a cara da sociedade que a sustenta. Um espaço plural produz ciência potente, porque carrega o rosto de todas. Por isso, políticas de cotas são instrumentos fundamentais para pensar a universidade pública.

Conforme pesquisa organizada por Luiz Augusto Campos e Márcia Lima no livro "O Impacto das Cotas: Duas décadas de ação afirmativa no ensino superior brasileiro", se até o final dos anos 1990 o ensino superior era dominado por estudantes brancos das classes médias e altas, hoje o cenário é outro: em 2021, estudantes pretos, pardos e indígenas representavam 52,4% dos matriculados nas universidades públicas, frente aos 31,5% em 2001. No mesmo período, a presença de alunos das classes D e E saltou de 20% para 52%, evidenciando também a dimensão econômica dessa transformação.

Assim, para além do ingresso, é primordial garantir permanência e assistência aos estudantes empobrecidos. Por isso, é imprescindível que o polo da UFOP em Ipatinga não seja apenas um puxadinho dos alunos do Fibonacci ou da Educação Criativa, mas uma verdadeira casa para estudantes das escolas estaduais Nilza Luzia, Selim José de Salles e Dona Canuta Rosa de Oliveira. Se não for assim, perderá seu sentido e cumprirá a função social do aço: empurrar a pobreza para longe, para o lugar invisível onde sempre esteve.

Dessa maneira, a luta pela universidade pública em Ipatinga é, primordialmente, construída pelas mãos daquelas que acreditam fielmente no poder transformador da educação. É feita por professores que, mesmo não valorizados, entregam tudo o que podem em sala de aula e transformam vidas e realidades.

Além disso, a materialização de uma universidade pública em Ipatinga é fruto das mãos de pessoas como Reny Aparecida, Frei Davi, Thainá Valesca, Mayara Costa e de toda família Educafro.

Das professoras Roberta Eliane (vice-reitora da UFOP), Francisca Cobertina, Miralda Ramos, Cremilda Gomes, Geralda Dilene, Marli de Fátima, Gisley Nunes, Edna Barbosa, Rouse Christiane, Claudinéia de Oliveira, Patrícia Julião, Osilanda Pereira, Débora Andrade, Ronara Maria, Carla Ribas, Luciene Castro, Idinei Corrêa, Matí Lima, Sávio Tarso, Cida Lima, Marrione Warley, Rodinea Martins, Danúbia Teixeira, Jorge Benedito, Débora Albina, Deivide Ribeiro, Cláudia Rejane, Márcia Lúcia, Renato Napoleão, Neusa da Penha, Camila Oliveira.

Há também mulheres que exerceram o trabalho doméstico e sonharam para que seus filhos tivessem uma vida melhor, aqui representadas por Regina Célia, Iracema Dias, Maria Rosa, Rosinete Maria, Leuza Dias, Maria de Fátima e Elenice Lara.

E movimentos culturais que há anos ocupam as ruas e os espaços da cidade com arte e resistência, como Ecoar Ponto de Cultura, Batalha da Arena, Close do Vale, Teatro Farroupilha, Negrume Teatro, Batalha 3M, Básico Coletivo, Slam Akewí, Coletivo Aya Sankofa e Manzo N’Gunzo.


“Que a universidade pública em Ipatinga seja plural,
e que o céu seja tocado com a tinta dos lápis e das
canetas daquelas cujas mães varriam as casas das
madames do bairro Castelo”


E, por fim, todos os alunos do Vale do Aço que estudaram em outras universidades públicas e produziram o capital intelectual desta região, aqui representados por Dávila Maria — minha priminha e a primeira da família a se formar numa universidade pública —, Dani Adestino e Ketson Neres.

Diante de todas essas pessoas, e de tantas outras não citadas, este texto dialoga com o passado, o presente e o futuro. Como diz um provérbio iorubá: Exu matou um pássaro ontem com uma pedra que jogou hoje.

Por isso, saiba que você, de roupa humilde e pele escura, com o rosto abatido pela vida dura, que nunca deixou de acreditar no poder da educação e que hoje estuda nesta universidade em Ipatinga: te esperamos como quem acende a luz antes da chegada; como um pai que aguarda o filho pródigo; como a lua cheia que ilumina todo o Planaltão.
Vocês são os sonhos dos nossos ancestrais e a materialização de toda a nossa luta ao longo desses anos. E, como um texto que também se projeta no futuro, digo-lhes: esperávamos ansiosamente por vocês, porque sabíamos que eram potência antes mesmo de nascerem.

Noutro ponto, entre as urgências do nosso tempo, ressalta-se a importância das cotas de acesso à graduação para pessoas trans, como ferramenta fundamental de isonomia constitucional, garantindo uma universidade aberta, potente e em Transição.

Por fim, que a universidade pública em Ipatinga seja plural, e que o céu seja tocado com a tinta dos lápis e das canetas daquelas cujas mães varriam as casas das madames do bairro Castelo. Eu ainda não tenho 50 nem 60 anos, mas trago 300 de sofrimento da minha gente. E é por isso que minhas escritas existem: para acordar os nossos do coma.

* Advogado, artista e intelectual do Movimento Negro em Minas Gerais. Seus trabalhos podem ser acompanhados pelo por meio do instagram: _negromar e @coletivonegrovda


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