07 de março, de 2026 | 07:00

8 de Março: Agrotóxicos são denunciados como forma de violência estrutural contra as mulheres

Jakeline Pivato *



No contexto do Dia Internacional das Mulheres, a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida lança um alerta sobre como o uso massivo de venenos agrícolas no Brasil constitui uma violência silenciosa e desproporcional contra os corpos e territórios femininos.

Os dados técnicos revelam um cenário alarmante para a saúde feminina. Mulheres agricultoras possuem um risco 52% maior de desenvolver câncer de mama e uma probabilidade 200% superior de apresentar metástases em comparação com mulheres de áreas urbanas. Além disso, o câncer de mama em mulheres expostas ao campo tende a ser mais agressivo.

A perversidade dessa violência manifesta-se também na saúde reprodutiva e nas futuras gerações:
Danos Transgeracionais: A exposição de gestantes aumenta as chances de danos no DNA, associados à leucemia aguda e câncer em crianças menores de dois anos.

Contaminação Indireta: Resíduos de venenos têm sido encontrados no leite materno, além de estarem relacionados a abortos e malformações congênitas.

Doenças Sistêmicas: Ocorrem com frequência casos de câncer no aparelho reprodutor, na tireoide e no cérebro.
A sobrecarga do cuidado e a exposição invisível - De acordo com a Campanha Contra os Agrotóxicos, a violência dos agrotóxicos é alimentada pelas desigualdades estruturais. Muitas mulheres são envenenadas sem nunca terem aplicado o produto diretamente, sendo expostas ao lavar roupas contaminadas, ao armazenar galões dentro ou próximo de suas residências, ou ao viver em comunidades pulverizadas.


"Frequentemente, recai sobre a mulher a responsabilidade
exclusiva de cuidar de familiares adoecidos - sejam filhos
com malformações ou companheiros intoxicados"


Soma-se a isso a sobrecarga do trabalho de cuidado. Frequentemente, recai sobre a mulher a responsabilidade exclusiva de cuidar de familiares adoecidos - sejam filhos com malformações ou companheiros intoxicados - o que aprofunda sua vulnerabilidade social e econômica.

Lucro privado e custo público - Enquanto o Brasil registrou 16.978 notificações de intoxicação em 2025, o setor de agrotóxicos segue batendo recordes de faturamento, alcançando 19 bilhões de dólares em 2024. Entre janeiro de 2024 e fevereiro de 2025, empresas como Syngenta, BASF, Corteva, Bayer e UPL foram beneficiadas com R$ 25,8 bilhões em renúncia fiscal.

A resistência coletiva de mulheres camponesas, indígenas e quilombolas aponta para a agroecologia e a soberania alimentar como caminhos para transformar esse modelo de morte.

* Secretária-executiva da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário