04 de março, de 2026 | 07:00
A tragédia em Juiz de Fora poderia ser evitada
Antonio Nahas Junior *
Os fatos que levaram às mortes e à destruição em Juiz de Fora vão continuar a se repetir por todo o Brasil. A elevação da temperatura do planeta gerou a crise climática, alterando o ciclo da água. Agora sabemos o que isto significa: períodos de seca, acompanhados da concentração de chuvas em momentos incertos. As enchentes, inundações e, consequentemente, a ameaça à vida da população que mora em áreas de risco - áreas inundáveis, encostas e áreas inclinadas -, em moradias construídas muitas vezes de forma precária, com economia de material, sem projetos de engenharia, potencializam o risco e geram tragédias que vão continuar a acontecer se não houver vigilância e atenção dos governantes.
Segundo especialistas, Juiz de Fora recebe umidade vinda direta do oceano. E, como o mar está mais quente, há maior evaporação de água que, ao subir e encontrar as montanhas, deságua em chuvas, explicou Marcelo Seluchi, coordenador-geral de Operações e Modelagem do Cemaden (Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais).
Prevendo estes fatos, o governo federal tomou medidas importantes. Criou linha de financiamento para estados, municípios e governo federal, privilegiando as cidades onde existiam áreas de risco já mapeadas pelo Serviço Geológico do Brasil (SGB), conforme já noticiado pelo jornal Diário do Aço. Em Ipatinga foram localizados 99 locais de alto risco. Em Juiz de Fora, 80.
O relatório do SGB foi feito com conhecimento e participação dos técnicos das prefeituras, que acompanharam o trabalho. O documento localiza as áreas, recorta os trechos e descreve o tipo de risco existente. Há ainda fotos dos diversos locais, demonstrando a gravidade da situação. É um guia para ação imediata e urgente.
O aquecimento global exige respostas urgentes
de todos nós, que temos compromisso com a
vida e com os direitos humanos”
Já o governo do Estado, infelizmente, não definiu políticas para o enfrentamento desta situação. Mais que isto: como a imprensa nacional publicou, menos de 5% dos valores destinados à contenção de encostas foram investidos. Os recursos para a Defesa Civil estadual caíram de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões no segundo governo Zema. Esta negligência certamente está associada ao negacionismo climático, tão em evidência nos dias de hoje após a ascensão do trumpismo.
Papel das prefeituras - A responsabilidade por acompanhar o que acontece nas cidades é do prefeito. Ele dirige a instância governamental mais próxima do cidadão, e cabe às prefeituras o acompanhamento das ações relacionadas à habitação, urbanismo e ocupação do solo. As chuvas eram previstas. As áreas de risco já haviam sido mapeadas.
A Prefeitura de Juiz de Fora, governada pela professora Margarida Salomão, experiente e bem-intencionada, já havia elaborado plano de ação para evitar e enfrentar situações como a que ocorreu. O plano, intitulado Plancon, estrutura a atuação intersetorial para enfrentar deslizamentos, inundações, enxurradas, vendavais e granizo, com base em hipóteses previamente modeladas. Segundo o professor da USP, Pedro Cortes, o plano inclui desdobramentos operacionais, previsão de interdições, uso de abrigos, mobilização de equipes especializadas e eventual captação de recursos federais em caso de reconhecimento de emergência. Define também o que deve ser feito, por qual órgão, como e quando agir.
Porém, nada deu certo. E a razão foi a suposição de que as chuvas iriam continuar a acontecer do jeito que sempre foram. Houve subestimação da frequência, duração e intensidade das chuvas. Em última análise, houve negligência com o aquecimento global. O plano foi elaborado desconhecendo este fato. Como diz o professor, a partir de agora, eventos considerados raros tendem a se tornar mais frequentes, exigindo recalibração periódica dos parâmetros e incorporação de novos cenários.
Há fotos dos diversos locais,
demonstrando a gravidade da situação”
Novos parâmetros - De toda forma, nada explica este número de mortes. A remoção das famílias de áreas de risco poderia ter ocorrido preventivamente, mesmo que fossem acomodadas em alojamentos provisórios. A solução definitiva poderia vir posteriormente.
Já o controle da elevação das águas dos rios Paraibuna e Pomba, que atravessam os municípios de Juiz de Fora e Ubá, exigirá investimentos pesados. Boa parte do aumento da vazão ocorre pelos efeitos da drenagem urbana, que conduz para o leito dos rios, rapidamente, as águas da chuva. Isto aumenta a vazão dos rios e pode levar a enchentes nas áreas situadas abaixo, potencializando o risco em outras regiões. É necessário construir novas soluções. Temos exemplos positivos. Em Contagem, no Córrego Ferrugem, após uma inundação ocorrida há décadas, foi construída uma lagoa de contenção na área urbana do município que, além de melhorar a qualidade de vida da cidade, represa as águas e evita inundações ao longo do curso daquele córrego.
Serão necessários investimentos pesados para que a justiça climática seja feita, evitando que a população menos favorecida pague pela transição climática. As políticas públicas deverão ser revisadas, absorvendo esta nova realidade. Na linguagem do Acordo de Paris, criar mecanismos de adaptação a esta nova realidade.
O aquecimento global exige respostas urgentes de todos nós, que temos compromisso com a vida e com os direitos humanos. Em Ipatinga, as fotos dos locais, constantes no relatório do SGB, mostram situações gravíssimas, que exigem rápida solução antes que seja tarde.
* Economista. Empresário. Diretor da NMC Integrativa, que trabalha em empreendimentos desta natureza
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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