22 de fevereiro, de 2026 | 07:30
Crimes digitais em 2026: a guerra invisível e o papel estratégico da Polícia Civil
Bianca Branco *
A segurança pública transcendeu as fronteiras físicas, mergulhando em uma guerra invisível travada no ciberespaço. A onipresença da tecnologia e a crescente dependência digital da sociedade brasileira transformaram o ambiente online no principal palco para a criminalidade organizada e oportunista.Os crimes digitais, em sua sofisticação e volume, representam hoje uma ameaça existencial à privacidade, ao patrimônio e à própria integridade do cidadão e das instituições. Compreender as novas modalidades de ataques, antecipar as táticas criminosas e, crucialmente, fortalecer a atuação especializada da Polícia Civil, não são mais opções, mas imperativos para a proteção da sociedade. Neste artigo, busco desvendar as tendências mais perigosas dos crimes digitais, o papel estratégico da investigação policial e as medidas inadiáveis para a autoproteção.
As novas armas do crime: modalidades em ascensão
O avanço tecnológico, embora motor de progresso, é também uma ferramenta poderosa nas mãos de criminosos que operam com táticas cada vez mais ardilosas. As modalidades de crimes digitais em ascensão exigem uma vigilância constante e uma resposta coordenada:
Engenharia social: a arte da manipulação humana
A engenharia social permanece como a porta de entrada mais eficaz para o cibercrime. Não se trata de falha tecnológica, mas de exploração da vulnerabilidade humana, da confiança e da desatenção. É a base de grande parte dos golpes digitais, como:
Em caso de golpes, registre um
Boletim de Ocorrência imediatamente”
Phishing, Smishing e Vishing: A tríade da fraude por comunicação. E-mails (phishing), mensagens SMS (smishing) ou ligações telefônicas (vishing) fraudulentas, meticulosamente elaboradas para simular instituições legítimas (bancos, órgãos governamentais, empresas de renome). O objetivo é sempre o mesmo: induzir a vítima a clicar em links maliciosos, fornecer dados bancários, senhas ou, em casos mais graves, instalar softwares espiões que comprometem todo o sistema.
Golpe do falso suporte bancário: Uma tática de alta sofisticação, onde o criminoso, com informações prévias da vítima, se apresenta como um funcionário de segurança do banco, alertando sobre uma suposta fraude. Sob o pretexto de "proteger" o cliente, induz a vítima a realizar operações que, na verdade, transferem fundos ou concedem acesso irrestrito à sua conta.
Falso investimento: A promessa de lucros estratosféricos em plataformas de investimento inexistentes ou fraudulentas continua a atrair vítimas. A sofisticação reside na criação de interfaces críveis e na manipulação de resultados para simular ganhos iniciais, antes do golpe final.
Clonagem de aplicativos de mensagem (WhatsApp): O sequestro de contas de WhatsApp, frequentemente após a vítima fornecer um código de verificação sob coação ou engano, permite que criminosos se passem pela vítima para extorquir dinheiro de seus contatos, explorando laços de confiança.
Fraudes bancárias digitais: o ataque direto ao patrimônio
Com a digitalização massiva dos serviços financeiros, as fraudes bancárias migraram para o ambiente online, visando diretamente as transações e os dados dos usuários:
Links falsos e páginas espelho: A criação de sites e páginas idênticas às de instituições financeiras ou plataformas de e-commerce, com URLs quase imperceptíveis, visa capturar credenciais de acesso e dados financeiros quando a vítima tenta realizar um login ou transação.
Golpes com Pix: A agilidade do Pix, embora benéfica, o tornou um vetor para diversas fraudes. Desde falsos comprovantes de pagamento, passando por QR Codes adulterados em estabelecimentos comerciais, até a indução da vítima a realizar transferências para contas de "laranjas" sob pretextos enganosos.
Deepfakes e IA Generativa: a nova fronteira da falsidade
A ascensão da Inteligência Artificial Generativa introduziu uma dimensão inédita e perigosa para os crimes digitais, com a capacidade de criar conteúdos falsos, mas assustadoramente convincentes, tais como:
Deepfake de voz e vídeo: Criminosos utilizam IA para simular a voz de familiares, amigos ou até mesmo de figuras de autoridade, solicitando transferências bancárias urgentes ou informações confidenciais. Vídeos falsos, com a imagem da vítima ou de figuras públicas, são empregados para difamação, extorsão ou manipulação de informações.
Fraudes de identidade sintética: Esta modalidade envolve a combinação de dados reais e fictícios para criar identidades completamente novas e falsas, mas com um alto grau de credibilidade. Essas identidades são então utilizadas para abrir contas, solicitar empréstimos e cometer uma gama de fraudes, tornando o rastreamento e a identificação dos criminosos um desafio complexo para as autoridades.
Sextorsão e pornografia de vingança: a violência na intimidade digital
Crimes que exploram a intimidade e a vulnerabilidade das vítimas, causando danos psicológicos e reputacionais devastadores:
Sextorsão: Ocorre quando criminosos obtêm material íntimo da vítima (muitas vezes por meio de engenharia social, invasão de dispositivos ou relacionamento prévio) e a chantageiam, exigindo dinheiro, favores sexuais ou outras concessões para não divulgar o conteúdo. A pressão psicológica é imensa.
Pornografia de vingança (Revenge Porn): Caracteriza-se pela divulgação não consensual de imagens ou vídeos íntimos, frequentemente por ex-parceiros, com o objetivo de humilhar, difamar ou retaliar a vítima. É uma grave violação da dignidade e da privacidade.
Os crimes digitais representam ameaça existencial
à privacidade, ao patrimônio e à integridade do cidadão”
A Polícia Civil como o cérebro da investigação cibernética
A Polícia Civil é a instituição responsável pela investigação, elucidação e responsabilização dos crimes, desde a coleta de evidências digitais até a identificação e prisão dos criminosos. A criação e o fortalecimento de delegacias e núcleos especializados em crimes cibernéticos, como a Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática e os Núcleos de Combate aos Cibercrimes, são a prova da adaptação institucional. Essas unidades são compostas por policiais, peritos e agentes com conhecimento técnico aprofundado em informática forense, análise de dados e legislação específica, essenciais para lidar com a natureza peculiar desses delitos.
A transnacionalidade inerente a muitos crimes digitais exige uma cooperação intensa e ininterrupta. A Polícia Civil atua em sinergia com a Polícia Federal, o Ministério Público e, crucialmente, com agências internacionais. O compartilhamento de informações, a troca de expertise e a atuação conjunta são vitais para desmantelar redes criminosas que operam globalmente, sem respeitar fronteiras físicas.
Em caso de golpes, registre um Boletim de Ocorrência (BO) imediatamente, preferencialmente em uma delegacia especializada em crimes cibernéticos.
* Especialista em segurança pública e investigadora da Polícia Civil de São Paulo
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]













