14 de fevereiro, de 2026 | 07:00
Mesa de calçada, Aperol Spritz no copão e risoto no prato de isopor: O carnaval que transforma distinção em ocasião
Abner Benevenuto Araújo Paixão * Carlos Eduardo Lima Salzmann *
Se alguém servisse um Aperol Spritz em um copo de plástico de 400 ml e um risoto em um prato descartável, o incômodo não seria sensorial. O sabor poderia permanecer intacto. O desconforto seria simbólico: algo parecia errado não porque o conteúdo mudou, mas porque o sistema de classificação que organiza o gosto foi violado. A reação espontânea não seria perguntar se está bom, mas se aquilo pode ser servido daquela forma. A pergunta revela uma estrutura mais profunda: no Brasil, gastronomia e coquetelaria não são apenas práticas alimentares, mas instrumentos de distinção social. O copo e o prato funcionam como marcadores de classe, legitimidade e pertencimento.O Carnaval expõe essa lógica em estado bruto. Quando a cidade vai para a rua, gastronomia e coquetelaria deixam de ser discurso e passam a ser prática. Fora dos restaurantes e bares autorais, comida e bebida precisam responder a critérios objetivos - preço, velocidade, calor, circulação e volume. Nesse contexto, a estética perde centralidade e a funcionalidade se impõe. A rua se transforma em infraestrutura alimentar e alcoólica: pastel, cachorro-quente, espetinho, caldinho, acarajé e sanduíches coexistem com caipirinhas, batidas, gins improvisados e vodkas com energético. Gastronomia e coquetelaria passam a operar sob a mesma lógica de adaptação técnica, leitura do território e viabilidade econômica.
A informalidade é tratada como
ausência de técnica, quando na
prática é método”
O que se consome no Carnaval raramente coincide com os parâmetros legitimados pelos campos formais da gastronomia e da coquetelaria. São preparos simples, repetitivos, frequentemente desqualificados como pouco sofisticados, mas são eles que organizam o consumo real e sustentam a festa. O que é rejeitado no discurso é confirmado na prática.
A divisão entre bar, restaurante e rua revela uma hierarquia simbólica: nos espaços formais, comida e bebida são tratadas como experiência estética e narrativa; na rua, como infraestrutura e eficiência. O sofisticado acumula prestígio; o popular acumula volume. O copo descartável e a chapa improvisada sintetizam essa contradição.
Ignorados nos debates sobre gastronomia e coquetelaria, são os principais dispositivos do consumo popular. Enquanto o mercado valoriza taças, gelo artesanal e ingredientes raros, a festa se organiza em torno do plástico, do óleo quente e da repetição eficiente. O copo e a chapa não são neutros: são signos sociais. A estética ocupa o centro do discurso gastronômico e da coquetelaria, sustentada por conceitos, imagens e narrativas que funcionam como critérios de legitimidade cultural. O Carnaval expõe o limite dessa lógica: no consumo real, o que prevalece não é a estética, mas o sabor possível e a ocasião disponível. A decisão do público é menos guiada pelo conceito e mais pela combinação entre preço, paladar e contexto.
Essa dinâmica revela também o desprezo simbólico pelos profissionais da rua. Churrasqueiros, vendedores de caipirinha e cozinheiras de barraca dominam técnicas complexas de produção em escala e adaptação de receitas, mas seus saberes raramente são reconhecidos como conhecimento legítimo. A informalidade é tratada como ausência de técnica, quando na prática é método. Enquanto chefs e bartenders disputam prestígio dentro do campo, a rua resolve problemas concretos: produzir rápido, ajustar sabor ao gosto coletivo e garantir viabilidade econômica. A gastronomia e a coquetelaria populares não são improviso, mas sistemas operacionais eficientes.
O que prevalece é o sabor que
cabe no bolso e a bebida que faz
sentido naquele momento”
O Carnaval torna visível a economia simbólica da comida e da bebida. Trabalhadores informais sustentam a festa, enquanto o prestígio permanece concentrado em bares, restaurantes e camarotes. Gastronomia e coquetelaria aparecem como cultura nos discursos, mas como trabalho precarizado na prática. No mesmo espaço urbano, convivem o drinque autoral e a caipirinha no copo plástico, o prato sofisticado e o espetinho barato. Ambos pertencem ao mesmo sistema, mas ocupam posições distintas na hierarquia simbólica. O popular é consumido em massa, mas raramente reconhecido como cultura legítima.
No fim, a estética pode dominar o discurso, mas não domina a fome nem a sede. O que prevalece é o sabor que cabe no bolso e a bebida que faz sentido naquele momento. Entre o Negroni no copão e o risoto no isopor, o Carnaval revela que o gosto é menos uma questão de paladar e mais uma questão de posição social - e que, diante da ocasião, a sofisticação é sempre relativa.
* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos.
* Chef de cozinha e professor, com trajetória marcada pela fusão entre a gastronomia nipo-italiana e a culinária brasileira.
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