13 de fevereiro, de 2026 | 07:00

''Me dá uma caipirinha chique no Copão!'': A Coquetelaria que o Brasil consome, Mas... não reconhece

Abner Benevenuto Araújo Paixão *

O Carnaval é o momento em que a coquetelaria brasileira deixa de ser discurso e passa a ser prática. Fora dos bares, distante das cartas autorais, das taças de cristal e das narrativas sofisticadas, o coquetel precisa responder a exigências concretas: calor, pressa, multidão, preço e circulação. Nesse deslocamento, a sofisticação perde centralidade e o consumo real se impõe. O Carnaval não cria uma nova coquetelaria; ele expõe aquela que sempre existiu, mas raramente é reconhecida como legítima.

A maior parte dos coquetéis consumidos durante a festa está distante do ideal defendido pela coquetelaria contemporânea. São combinações simples, doces, alcoólicas, improvisadas, frequentemente vistas com desconfiança por bartenders e pelo público especializado. O julgamento é rápido: pouco técnico, excessivamente popular, esteticamente inferior. No entanto, são exatamente esses coquetéis que sustentam o ritmo do Carnaval, organizam o fluxo do consumo e garantem a circulação econômica da festa. O que se rejeita no discurso é o que se confirma na prática.

O contraste entre bar e rua expõe uma divisão estrutural. No bar, o coquetel é tratado como experiência, narrativa e estética; na rua, ele é funcionalidade, volume e velocidade. O Carnaval evidencia que a coquetelaria brasileira é atravessada por uma lógica de distinção social, na qual a coquetelaria autoral ocupa o lugar do prestígio simbólico, enquanto a coquetelaria adaptada às condições da festa assume o papel da eficiência. Essa diferença não é apenas técnica, mas social, econômica e política.

O copo descartável, o chamado copão, sintetiza essa contradição. Ignorado nos debates sobre coquetelaria, ele é o principal dispositivo do consumo popular. Enquanto o mercado valoriza copos especiais, gelo artesanal e design, a festa se organiza em torno do plástico barato, da logística improvisada e do consumo em massa. O copão não é apenas um objeto, mas um indicador social. Ele marca o ponto em que o coquetel deixa de ser estética e passa a ser infraestrutura, revelando que a cultura do beber no Brasil é sustentada menos pela sofisticação e mais pela funcionalidade.

Na região carioca, essa lógica se torna particularmente visível. Vendedores como “Johnny” e “Doisbe” atuam diretamente com coquetéis e se consolidam como intérpretes do gosto popular, não por domínio técnico formal, mas pela capacidade de leitura do território. Sua versatilidade não se limita à receita, mas à habilidade de operar entre escassez e demanda, improviso e repetição, adaptação e eficiência, ajustando sabor, preço e intensidade alcoólica às condições instáveis da rua. São operadores de uma coquetelaria que responde menos à estética e mais às condições concretas do consumo, revelando uma inteligência prática frequentemente ignorada pelo discurso institucional.

Em outros contextos, a lógica se repete no cotidiano urbano. Figuras como “Lélé Picolé”, no Espírito Santo, “Laurinha do camarão”, em Niterói, Edson Amaral, “o Gordinho do Mate”, na Barra, e “o carro do Danone” evidenciam outra dimensão do mesmo processo. Não atuam na coquetelaria, mas operam na mesma engrenagem do consumo popular, onde preço, circulação, expectativa e conveniência são negociados continuamente. São parte de uma economia informal que organiza o desejo, regula o acesso e redefine, na prática, o que é valor, demonstrando que a lógica da rua não é improviso caótico, mas sistema.


“Entre a taça e o copão, entre o bar e a rua,
entre o discurso e a prática, a coquetelaria
brasileira revela suas contradições”


Essa tradução da coquetelaria para o espaço público convive, porém, com tensões concretas. A informalidade impõe desafios relacionados à procedência das bebidas, ao armazenamento do gelo, à qualidade da água e às condições de preparo. Para o consumidor, escolher onde consumir deixa de ser apenas uma decisão estética e passa a ser também uma questão de saúde. Para quem vende, criatividade não substitui cuidado. O improviso pode ser linguagem cultural, mas não pode ser risco sanitário.

O Carnaval também revela a economia invisível da coquetelaria. Quem consome raramente percebe quem sustenta o funcionamento da festa. Trabalhadores de bares, ambulantes e equipes temporárias operam jornadas longas e precárias, enquanto o discurso sofisticado da coquetelaria circula em espaços elitizados. A festa evidencia que a coquetelaria não é apenas cultura, mas também trabalho, desigualdade e mercado.


“O improviso pode ser linguagem cultural,
mas não pode ser risco sanitário”


Ao rejeitar os coquetéis populares, parte do campo da coquetelaria reforça uma lógica de exclusão simbólica. O que é consumido em massa passa a ser visto como menor, enquanto o que é restrito se torna sinônimo de qualidade. O Carnaval desmonta essa hierarquia ao mostrar que a coquetelaria real do país não está apenas nos bares premiados, mas na rua, no copão e na inteligência prática do território.

O Carnaval, portanto, funciona como diagnóstico. Entre a taça e o copão, entre o bar e a rua, entre o discurso e a prática, a coquetelaria brasileira revela suas contradições. Ignorar o copão e os coquetéis populares é ignorar o próprio fundamento da cultura do beber no Brasil. Se a coquetelaria pretende se afirmar como linguagem cultural e não apenas como produto de nicho, precisa olhar para a rua não como folclore, mas como realidade.

* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos.



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