31 de janeiro, de 2026 | 07:00
Feijoada nossa de cada dia : O domingo começa quando a panela e o copo decidem
Abner Benevenuto Araújo Paixão * Carlos Eduardo Lima Salzmann **
A feijoada não tem certidão de nascimento. Ela surgiu como surgem as coisas importantes: sendo feita, refeita e passada adiante, panela após panela. Durante muito tempo contou-se que nasceu da sobra, do que não servia, do que era jogado aos fundos da casa-grande. Uma história forte, repetida à exaustão, talvez porque o Brasil goste de se explicar pela resistência. Mas a verdade, como o próprio prato, é mais misturada. Feijões com carne já eram comuns em Portugal, e cozidos longos sempre existiram onde havia tempo, fogo e necessidade. Aqui, a receita encontrou outro ritmo, outros ingredientes e outra alma.
O feijão-preto ganhou protagonismo, as carnes se multiplicaram, o caldo engrossou. A feijoada virou refeição de espera. Não se apressa feijão. Não se discute com panela. Enquanto ela cozinha, a conversa se alonga, o domingo se anuncia e a semana fica suspensa.
Feijões com carne já eram comuns em Portugal,
e cozidos longos sempre existiram onde havia
tempo, fogo e necessidade”
Ao redor do fogão formou-se um ritual. A tábua de carnes, a couve cortada fina, a farofa quente, a laranja fatiada para aliviar o peso. E quase sempre a caipirinha chega antes do prato, abrindo caminho. O limão espremido, o açúcar dissolvendo no fundo do copo, o gelo estalando como aviso de que o tempo ali segue outro compasso.
Junto dela aparecem os frisantes, leves e gelados, circulando pela mesa sem cerimônia. Bebidas que não pedem silêncio nem taça correta. São feitas para compartilhar, para repetir, para acompanhar a feijoada sem disputar protagonismo. O álcool não é excesso. É pretexto. Um convite para ficar.
Não é raro que o samba comece antes mesmo da comida. Às vezes sai de uma caixa antiga, às vezes da memória coletiva. Zeca Pagodinho canta como quem frequenta a mesma mesa há décadas. Sua voz carrega cerveja, riso, atraso permitido. Não canta sobre feijoada, mas poderia. Fala do mesmo Brasil que come devagar, conversa alto e transforma rotina em celebração.
A feijoada deixou de ser apenas comida e virou símbolo. Ganhou dia fixo nos restaurantes, ganhou roda de samba, ganhou fila. Tornou-se prato de reunião, de barulho e de mesa cheia. Come-se feijoada sem pressa, não por elegância, mas por respeito ao peso físico e histórico.
Com o tempo, multiplicou-se. Existe a feijoada light, que tenta enganar o próprio nome. A vegetariana, que troca carnes por legumes e defende que tradição também muda. Há até feijoada de frutos do mar, estranha à primeira vista, mas persistente como o país que a criou.
Aqui, a receita encontrou outro ritmo,
outros ingredientes e outra alma”
Cada versão é um retrato do tempo em que nasceu. Menos excesso, mais consciência, outras escolhas. Ainda assim, no fundo, a feijoada permanece a mesma. Um prato que junta o que é diferente numa única panela, que pede paciência e não combina com pressa.
Talvez seja por isso que ela resista. Enquanto o mundo corre, a feijoada lembra que algumas coisas só fazem sentido quando cozinham juntas por bastante tempo. E que, às vezes, viver bem é isso: uma mesa cheia, um copo suado, um samba baixo ao fundo e a panela ainda fumegando no centro de tudo.
* Bartender da região do Vale do Aço, com experiência em bares e eventos.
** Chef de cozinha e professor,com trajetória marcada pela fusão entre a gastronomia nipo-italiana e a culinária brasileira.
Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
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