29 de janeiro, de 2026 | 14:15

Memória, justiça e compromisso: por que a chacina de Unaí não pode ser esquecida

Ivone Corgosinho Baumecker *

Escrevo este artigo movida por memória, mas também por responsabilidade. Em 28 de janeiro, Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo, data que marca a mobilização nacional e integra a semana de conscientização e enfrentamento ao trabalho análogo à escravidão, somos chamados a refletir sobre o valor da vida, da dignidade humana e do papel do Estado na proteção dos trabalhadores.

Foi também em um 28 de janeiro, no ano de 2004, que ocorreu a chacina de Unaí, crime brutal que tirou a vida de três Auditores-Fiscais do Trabalho e de um motorista do Ministério do Trabalho, assassinados enquanto cumpriam sua missão de fiscalizar denúncias de trabalho análogo à escravidão em Minas Gerais. Essa data não é apenas uma lembrança dolorosa: é um marco ético e político para o Estado brasileiro.

O 28 de janeiro é oficialmente reconhecido como o Dia Nacional de Combate ao Trabalho Escravo e o Dia do Auditor-Fiscal do Trabalho, instituídos em homenagem aos servidores assassinados na chacina de Unaí. Mais do que uma data simbólica, trata-se de um chamado permanente à defesa da vida, dos direitos humanos e da atuação técnica, independente e protegida da Auditoria-Fiscal do Trabalho.


“Mais do que uma data simbólica, trata-se de um
chamado permanente à defesa da vida, dos
direitos humanos e da atuação técnica”


Relembrar a chacina de Unaí, no entanto, exige ir além da memória. Exige refletir sobre o presente e sobre os rumos da política de enfrentamento ao trabalho análogo à escravidão no Brasil. Vivemos um momento especialmente sensível, marcado por insegurança jurídica, fragilização da autonomia técnica e interferências políticas em processos já concluídos no âmbito da fiscalização do trabalho.

Auditores-Fiscais do Trabalho de diversas regiões do país têm alertado para o cancelamento de operações, o represamento de denúncias e a suspensão de novas fiscalizações em diferentes estados. Esses obstáculos comprometem a efetividade das ações de combate ao trabalho análogo à escravidão e expõem trabalhadores e trabalhadoras em situação de extrema vulnerabilidade a violações graves de direitos.

Quando a fiscalização é enfraquecida, toda a sociedade perde. O combate ao trabalho escravo contemporâneo depende de uma Auditoria-Fiscal do Trabalho estruturada, valorizada e respeitada em suas decisões técnicas. Valorizar os Auditores-Fiscais do Trabalho é fortalecer uma política pública essencial para a proteção da dignidade humana e para a promoção de um mercado de trabalho mais justo.

Para a Delegacia Sindical em Minas Gerais do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (DS-MG/SINAIT), manter viva a memória da chacina de Unaí é também reafirmar a importância da fiscalização do trabalho, defender a autonomia técnica dos Auditores-Fiscais e denunciar qualquer tentativa de retrocesso que comprometa o enfrentamento ao trabalho análogo à escravidão.

A chacina de Unaí não pode ser esquecida. Porque lembrar é resistir, é proteger vidas e é reafirmar que nenhum interesse pode se sobrepor ao direito fundamental à dignidade do trabalho.

* Presidente da Delegacia Sindical em Minas Gerais do Sindicato Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho (DS-MG/Sinait)


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