29 de janeiro, de 2026 | 07:00

Odisseia de um homem bom: Guido Marlière

Antônio Nahas Junior *


O romance “O grande capitão das terras proibidas”, que conta a saga nas terras mineiras do francês Guido Marlière, é um dos melhores romances históricos que já li. Coloca o escritor como um dos destaques da literatura mineira contemporânea. O autor, o jornalista ipatinguense Fernando Benedito Junior, já tinha nos brindado anteriormente com “Notícias do sertão do rio Doce”, obra na qual resgata inúmeros documentos escritos por Guido, que procura identificar as nações indígenas, as principais ações e os locais onde Marlière esteve.

Vamos falar um pouco do personagem central do livro. Guido era um homem de princípios e lutava por eles. Quando da Revolução Francesa, era realista, ou seja, contrário à revolução. Levou sua convicção ao extremo: uniu-se aos austríacos para lutar contra Napoleão.

Derrotado, acabou se refugiando em Portugal, até que Napoleão decide invadir aquele país. Por isso, veio para o Brasil em 1808, junto com D. João VI, ambos procurando escapar do exército francês. À época, já era engajado no Exército português, como oficial.

Por aqui chegando, encontra um país em plena transformação. O ciclo do ouro chegara ao fim em Minas, e a busca de novas alternativas econômicas estava na ordem do dia. A parte setentrional da província ainda não fora desbravada, e esperava-se encontrar, nas matas que se acercavam da bacia do rio Doce, riquezas sem conta. Era uma vasta área, que se estendia das montanhas de Ouro Preto até a foz do rio, localizada no Espírito Santo.


“O autor pesquisou documentos,
livros históricos e insere no texto
narrativas dos indígenas”


Surge como esperança a navegação daquele rio, que se chamava Vatu, em tupi. Esperava-se que ela trouxesse acesso às futuras riquezas e impulsionasse o comércio em toda a bacia. Seus afluentes atravessavam todo o território das Minas do Ouro e dos Diamantes. O Piracicaba nasce em Ouro Preto e deságua bem perto de Ipatinga. E o rio Santo Antônio nasce nas montanhas de Conceição do Mato Dentro, dentro do Distrito Diamantino.

Marlière é nomeado por D. João VI comandante militar do rio Doce. A carta de sua nomeação cita nominalmente diversas tribos indígenas que estariam a impedir a navegação do rio e propõe diversas soluções: guerra contra os indígenas; pacificação das tribos que viviam a guerrear entre si; ou a civilização delas.

Desde o período da colonização, os indígenas tinham sido preservados pelos portugueses. Os padres consideravam possível a catequização e conversão dos índios, conquistando novos adeptos à Igreja Católica, tão combalida após a Reforma Protestante. Mas parecia que tudo iria mudar.

Quem esperava um Marlière conservador à frente do Exército português se enganou. Aproveitando-se das diversas alternativas contidas na carta, inicia seu trabalho civilizatório, consoante com os ideais da Revolução Francesa, que ele tanto combateu.

Aprende tupi, procura entender os índios - seus hábitos, seus costumes, seu modo de vida -, sem julgar ou condenar. Apenas aceitar, promover o entendimento e criar formas de convívio amistoso entre portugueses e indígenas. Igualdade e fraternidade, lemas da Revolução Francesa que tanto combateu, agora eram praticados por ele. Que evolução extraordinária ele teve.

Abomina a ação evangélica dos padres; combate os assassinos portugueses e consegue atender aos interesses da Coroa. Desbrava os sertões, constrói diversos fortes, torna os caminhos seguros. Sua ação, construindo fortins militares e acampamentos, redundou na construção de várias cidades em Minas, entre as quais Marliéria e Guidoval, que trazem a lembrança do seu nome.

É esta odisseia que é narrada no livro. O autor pesquisou documentos e livros históricos. Insere no texto narrativas dos indígenas sobre o que viam, pensavam e sentiam. Cria personagens históricos para tornar a leitura saborosa e utiliza muitos termos tupis para torná-la realista.


“Mesmo cheia de informações, a
obra é muito agradável de ser lida”


Com isso, mesmo cheia de informações, a obra é muito agradável de ser lida. A cidade onde nasceu, Ipatinga, é homenageada no texto:

“Um pouco abaixo do território onde o rio Piracicaba e o Vatu (rio Doce) se encontram, existe um belo lugar onde as águas se alargam, um pouso de água limpa, formando uma baía cercada por imensas e frondosas árvores de ipês, jatobás, jequitibás, sibipirunas, manacás floridos e muitas flores de açucena, bromélias, cipós.”

Um dos pontos altos do livro é a narrativa da convivência entre Marlière e outros cientistas e pesquisadores europeus que por aqui vinham: Eschwege, Saint-Hilaire, Spix e Martius, Selow.

Um deles, o francês Auguste de Saint-Hilaire, deixou testemunho pungente da força, vigor e resultado das ações do nosso personagem, com o qual o livro é encerrado:

“Pelos cuidados do sr. Guido Thomaz Marlière, diretor-geral da Civilização dos Índios, os Botocudos, habitantes das terras de Minas Gerais, vizinhas do rio Doce, se tinham aproximado, depois de minha partida, dos luso-brasileiros. [...] A fim de interessar mais e mais os Botocudos, Marlière mandou fazer plantações para eles. Ele empregou nesses serviços soldados das divisões militares e teve muitas vezes o prazer de ver estes últimos abraçar os selvagens.”

Marlière não procurava riqueza, poder ou fama. Trabalhou, lutou e sofreu por seus ideais. Um grande homem. Enfim, a história lhe faz justiça.

* Economista, empresário, escritor.

Obs: Artigos assinados não reproduzem, necessariamente, a opinião do jornal Diário do Aço
Encontrou um erro, ou quer sugerir uma notícia? Fale com o editor: [email protected]

Comentários

Aviso - Os comentários não representam a opinião do Portal Diário do Aço e são de responsabilidade de seus autores. Não serão aprovados comentários que violem a lei, a moral e os bons costumes. O Diário do Aço modera todas as mensagens e resguarda o direito de reprovar textos ofensivos que não respeitem os critérios estabelecidos.

Envie seu Comentário